Comentário ao manifesto dos colegas do blog Que Cazzo

Definitivamente, #ForaTemer.

Olha só, nasceu o blog do Sociofilo! Viva o blog Sociofilo! E pediram nosso comparecimento a essa bela empreitada, solicitando nosso comentário. Pedido arriscado, claro. Ninguém sabe bem o que se passa na cabeça dos integrantes do Cazzo. Parece que fomos referência para o surgimento do novo blog. Quanto às nossas referências, foram João Gilberto, como todos sabem, e Carmem Miranda. Mas, afinal, “Somos exemplo!” – pensaram os três fundadores do Cazzo, ao mesmo tempo, o que é curioso, pois jamais acontecera essa sincronia – enquanto um pensa no romantismo alemão e em como viver sem comprimidos, a outra está preocupada com o realismo crítico e o terceiro está preocupadíssimo com o Santinha na série A. Improbabilíssima a coincidência, portanto.

“Somos referência”, pensam, em uníssono, os fundadores do Cazzo. Estão meio constrangidos, porque todos somos gigantescamente tímidos e ficamos paralisados diante de homenagem ou de cafuné. Um dos fundadores do Cazzo ainda pergunta:

— Serão nosso simulacro?

— A cópia é sempre melhor do que o original, retruca o mais pós-pós do grupo.

— Não, temos muitas afinidades eletivas, isto sim! Fecha a discussão, a fã de Glenn Gould.

Afinidades eletivas? Sim, é isso mesmo. E têm história, as afinidades. Tudo começou em Santo Amaro da Purificação, quando éramos alegres e jovens. Não falamos apenas dos laços afetivos e sentimentais, mas também das identidades no campo da teoria social. Claro, há diferenças entre nós, mas as convergências fluem como o rio de Heráclito. Nas diferenças, as convergências são fluxos que se encontram nalguma esquina teórica. No fundo, o que importa é que todos são adeptos de um diálogo baseado na possibilidade prática de um novo universalismo que incorpora, com radicalidade, a ideia de pluralismo epistemológico. Detestamos sectarismos, moralismos, idealismo impotentes e muito, mas muito mesmo, os cientificismos estéreis, além de buchada no final de semana. Sim, temos posições convergentes na teoria, na moral e na política – por falar nisso, fora Temer!

Nesses tempos sombrios, precisamos de blogs como o Sociofilo. Alguém já disse que ler um blog é como ouvir uma pessoa falar, mas com links. Ao escrever em público e para o público o blog se propõe a engajar mais e mais pessoas em diálogo sobre a vida em sociedade. Um blog acadêmico tem essa vantagem, pois tem um pé na universidade e outro no mundo, por causa dessa plataforma (quase) universal, a internet. No fim das contas, será mais uma tentativa de lutar pela dignidade de pensar, pois o que está em jogo, nesse momento, é justamente o pensamento – é possível pensar, depois de Frota e Mendoncinha? Algo se quebrou no Brasil, algo vem se quebrando. A violência vem se instalando em todos os poros da sociedade brasileira, inclusive na universidade. A liberdade de pensamento é a primeira vítima da Reação. Millor dizia que “livre pensar é só pensar”… É nada, é bem mais complicado. Pensar, nessa conjuntura, é ato político, um ato de libertação.

O buraco é fundo, mas em redor dele tudo é beira.

Bem-vindo ao mundo, Blog do Sociofilo!

Do povo do Cazzo.

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