Relato etnográfico: Um domingo de um viciado na favela Cidade de Deus

 

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Por Diogo Silva Corrêa

      Às 12h30 do Domingo, Inácio acorda, exausto. Ele ainda sente os efeitos da madrugada da noite anterior em que bebeu por volta de seis latas de cerveja, uma dose de uísque, dada por um playboy que lhe pediu para ir até a boca comprar cinco pós de dez, e cheirou três cargas de pó de cinco. Ele diz que sente o corpo como se por cima dele tivesse passado um trator.

      Com 38 anos, morando sozinho em uma kitnet alugada na Cidade de Deus, ele trabalha na construção civil e tem dois filhos, com duas mulheres diferentes, que não moram mais com ele. “Tenho pouco contato com meus filhos porque eles não gostam muito de mim”. A última namorada que teve – e que ficou com ele por dois anos – o largou faz seis meses.

      Inácio levanta da cama, pega um restinho de cocaína que sobrou da noite anterior, que diz ajudar na ressaca, e prepara no seu fogão improvisado de uma boca, um café. Tudo é manual: ele ferve a água e, em seguida, coloca um filtro com pó de café em cima de um copo em que joga a água quente. Toma o copo inteiro em dois goles, coloca um chinelo e sai de casa. No caminho, ele diz que o café o ajuda a curar a ressaca, afirma que ele dá energia. E acrescenta que, em jejum, é bem melhor: “beber café em jejum, é tipo injetar direto na veia: é imeditato!”

      Segue até a padaria mais próxima de sua casa. Seu Francisco, o dono da padaria, sempre o ajuda dando-lhe gratuitamente alguns pães já meio murchos, que sobraram da manhã. Também libera, pedindo que não abuse, a margarina. O pedido de nada adianta: Inácio devora dois pães franceses com uma passada caprichada de margarina.

      Em seguida, Inácio anda um pouco mais e logo se junta a outros amigos, a maior parte dos quais também viciados. Eles estão sentados em mesas de cimento em uma das praças da favela. Aos poucos, outros viciados chegam. Eles conversam, falam da noite anterior e discutem a respeito de qual boca de fumo está vendendo o melhor pó. Um diz que o melhor pó é o do Karatê, do gerente fulano de tal, que costuma ser generoso e misturar pouco pó royal com a cocaína, enquanto um outro fala que o pó AA, categoria nativa que define a melhor qualidade possível do produto, é que tem sido vendido na região dos apartamentos. Diz que ontem, quando cheirou o pó que está sendo vendido nos apê (forma como eles abreviam a palavra apartamento), este desceu queimando e chegou a sair uma lágrima do olho, como faziam as cocaínas de antigamente. Ele diz que o gerente de lá é amigo dele, e que lhe contou que por estarem perdendo alguns viciados pro Karatê, outra região da Cidade de Deus, resolveu caprichar na mistura do pó de cinco. Depois, entoam uma conversa sobre a morte recente de um policial e do bandido X, que ocupava a posição de frente da favela. Falam da foto do Whatsapp que passou a circular do bandido morto e tentam adivinhar qual teria sido o fuzil usado pelo policial para fazer aquele furo na cabeça. 762, G3, não chegam a um consenso. Em seguida, falam a respeito do bandido que então passara a assumir a posição de frente. Alguns acham justo ele ter assumido – “participou várias guerras pela boca daqui” é o argumento mais usado pelos que defendem essa posição; enquanto outros, discordam, e sustentam que “isso não tem nada a ver, porque ele já esculachou e matou muito trabalhador”. Depois de um silêncio momentâneo, o assunto então descamba para como na favela fica mais difícil arrumar droga logo depois que morre um policial. “É, sempre que morre um cana, eles ficam querendo mostrar serviço. Fica até parecendo que a UPP não é maquiagem”, argumenta um dos viciados. Por fim, eles ainda falam a respeito do baile mais a noite e já antecipam como vão arrumar dinheiro com as pessoas de fora, sobretudo os playboys que procuram alguém para ir até a boca comprar a droga. Os viciados costumam receber 5, 10 reais por esse serviço.

      Às 14h40 Inácio levanta-se da mesa e vai em direção a sua casa. Diz que está muito cansado e precisa dormir mais um pouco para recargar as energias para a noite – “ela vai ser longa”, ele diz. Antes, passa em frente à casa de Tico, pastor que vende galão de água na comunidade. Ao pastor, ele se diz orgulhoso por estar conseguindo se livrar aos poucos do vício. Relata ter, na semana passada, conseguido ficar “limpo” de segunda à quinta, e que acredita que isso já é Deus trabalhando na vida dele. “É o processo de libertação, é Deus operando, isso é certeza”, diz o pastor. Inácio relata ao pastor que o irmão X da igreja lhe arrumara uma Bíblia e que ele tentava diariamente ler, ao menos, dois versículos. Como tinha dificuldade de leitura e de memorização, Inácio diz que, quando o versículo lhe tocava, ele o relia várias vezes, tentando repeti-lo sem ler. O pastor, feliz com o que acabara de escutar, beija-lhe a testa e diz que Deus tem muita coisa para realizar em sua vida. Acrescenta que Deus já lhe revelou uma imagem de Inácio em sonho, pregando no púlpito da igreja que pastoreia. Ao escutar o que diz o pastor, os olhos de Inácio brilham. Antes que caia uma lágrima, Inácio pede ao pastor uma oração. O pastor Tico põe-lhe as mãos sobre a testa e se põe a orar. Toda sua oração é para que ele seja liberto do vício.

      Depois da oração, Inácio sai da conversa com o pastor dizendo que tem sentido que o momento da libertação está se aproximando. E diz que ainda não se converteu para não ser como vários dos colegas que se converteram, ficaram pouco tempo na Igreja e “limpos”, para logo depois voltarem ao vício: “o dia que eu me converter, vai ser uma vez só. Deus está me libertando aos poucos porque ele sabe que quando eu passar pro lado dele, vai ser um caminho sem volta”. Antes que se afastasse totalmente, o pastor grita o nome de Inácio. Ele volta e o pastor lhe pergunta porque Inácio não vai ao culto naquele dia, no domingo à noite. Inácio é sincero e diz que vai tentar, mas que é improvável. No entanto, afirma que sua presença é certa na segunda-feira, no culto de libertação. “Preciso ser liberto, pastor! Preciso mesmo é de libertação!”. O pastor ri, assente com a cabeça e o abraça forte. Dá em Inácio um beijo em sua testa e logo volta para o carro que utiliza-se para entregar seus galões de água. Inácio, por sua vez,v olta para casa.

      Em casa, Inácio toma um copo d’água, se deita e dorme até às 18h50. Ao levantar-se, ele abre uma gaveta e pega cinco reais. Afirma, em seguida, que evita andar com dinheiro que ele ganha do trabalho e que sempre pega pouca quantidade porque, sobretudo na madrugada, ele acaba gastando tudo. Relata a experiência de ter certa vez gasto tudo e ter ficado sem pagar o aluguel. “Se não fosse o pastor pra me ajudar, eu estaria ferrado! Quem ia acreditar em mim, além dele, que era mesmo pra pagar o aluguel? Quem acredita na palavra de viciado?”, diz Inácio ao lembrar-se do ocorrido.

    Ele então sai de casa, anda uns 500 metros e chega na casa de uma amiga, que é crente e vende quentinhas. As quentinhas custam oito reais e cinquenta centavos, mas como são amigos, Inácio consegue por cinco reais. Quando a venda do dia no almoço foi muito melhor do que o esperado, a irmã nem sequer lhe cobra pelo prato. Não foi o caso desse domingo, contudo.

      Inácio então dá os cinco reais, pega sua quentinha e senta-se no meio-fio. A primeira coisa que faz é retirar com voracidade a tampa de alumínio. Antes da primeira garfada, ele pede um saleiro. Ao recebê-lo, Inácio abunda a comida de sódio – só de ver, chega a dar sede. Ele acaba com o conteúdo de sua marmita com uma devoção tocante. Em pouquíssimos minutos, só se vê a cor prata do fundo de sua marmitex, com pouquíssimos resquícios do caldo de feijão. Não sobra sequer um único grão de arroz ou fragmento de macarrão. O que resta do alumínio, ele amassa, faz uma bolinha e a joga longe, na direção de um lixão da favela.

      Já é noite. Já são 20h00 e Inácio começa a se preparar para conseguir algum dinheiro com os playboys. Sua estratégia principal será tentar arrumar alguma coisa com os playboys que vão para o baile. Ele vai rapidamente em casa e toma um banho. Diz que ter boa aparência é importante na hora em que os playboys escolhem quem eles vão pedir para ir comprar a droga na boca de fumo. Mesmo que exista um acordo de cavalheiros entre os viciados (muitas vezes, não respeitado) de seguir uma ordem de chegada, é quem o playboy escolhe que tem que ser respeitado. Inácio diz que os viciados que não tem boa aparência são associados pelos playboys aos crackudos, coisa que ele faz questão de se distinguir: “eu sou viciado, mas não sou crackudo. Eu tenho dignidade, não fico por aí que nem bicho em busca de droga.”

      Inácio sai de casa e vai em direção a um outro bar em que ficam seus amigos, boa parte dos quais também viciados e bebuns. Diz que nele sempre dá pra filar umas cervejas dos amigos. Puxa uma cadeira até a mesa em que estão seu colegas e pergunta sobre como está o clima da favela, se “os canas estão sufocando”. Os amigos dizem que já está mais tranquilo, mas que é sempre preciso ficar atento, na atividade.

      Inácio então toma uns dois copos de cerveja pagas por um amigo, com a promessa de fortalecê-lo em retribuição, mais tarde, com uma carreira de pó. Em seguida, ele vai para um ponto estratégico, mais precisamente em uma rua situada entre o local do baile e a entrada da favela. Inácio lembra que é importante ficar também antes dos pontos de moto-taxi, já que muita gente de fora também prefere pedir esse tipo de serviço para os moto-taxistas. “Só que com os moto-taxi, não só nem todos aceitam, como os que aceitam, eles cobram a corrida e uma taxa extra de risco. A gente não, conosco não tem essa, e o preço, a gente deixa por conta da boa vontade do amigo”, diz Inácio, risonho.

      Agora são 20h30 e começa o movimento dos carros que pouco a pouco vão chegando na Cidade de Deus. O baile começa bem mais tarde, mas muita gente chega mais cedo pra comprar a drogas ou começar a beber em um dos quiosques do entorno da quadra em que acontecem os bailes. Muita gente também chega com carrão ou moto de marca pra desfilar e ser visto, antes de entrar no baile. É uma forma de ostentação.

      Já posicionado, Inácio vê chegar um primeiro carro. O motorista do carro abre a janela e pergunta “onde está a boa”. Inácio indica e logo se adianta, perguntando se a pessoa prefere que ele busque diretamente a droga. A pessoa aceita e diz que vai esperar na birosca do Wilson. Inácio assente e diz que, em quinze minutos, estará de volta. Inácio então pega a nota e vai em direção à boca de fumo local. Volta em dez minutos. Diferentemente da pessoa de fora, Inácio já sabe onde está sendo vendida a droga. Com a UPP, isso se tornou um saber ainda mais valorizado, porque a boca tornou-se menos sedentária. Por isso, Inácio representa para a pessoa “de fora” da favela uma economia de tempo e de risco. De risco porque a pessoa não terá que transitar pela favela um flagrante em caminho suspeito. De tempo porque o viciado dispõe de todas as informações locais, e sabe como ir direto ao ponto. Inácio sabe acionar as pessoas certas e sabe os locais prováveis da boca. Também, embora não ande com radinho, ele sabe, como poucos, ler as pesquenas pistas fenomênicas e as variações intensivas que indicam se está “tudo tranquilo” ou se “sujou” – ou, ainda, se “o negócio parece que vai sujar”. O viciado local navega melhor do que ninguém pelo espaço da favela. Inácio está no ambiente dele. Além disso, ele já é conhecido pelos policiais locais, que sabem que ele é viciado e sabem igualmente que não tem como conseguir extorqui-lo com muito dinheiro. Quando um policial se aproxima de Inácio para dar-lhe uma “dura”, é, na maioria das vezes, para tentar obter alguma informação. O risco maior pelo qual passa Inácio, na travessia que faz entre a boca e o carro, é ser agredido ou, para usar a expressão nativa, ser esculachado.

      Inácio chega com cinco saquinhos de pó de dez na mão. Ele costuma não negociar o preço antes, esperando pelo gesto de gratidão do playboy. “Claro, se a pessoa perguntar depois que eu já tiver entregue a droga, eu falo cinco reais, mas eu sempre espero pra ver se ela me dá alguma coisa a mais. Normalmente, sempre rola um dinheiro a mais”. Nesse caso, ele recebe sete reais. Fica feliz da vida e espera o próximo. Um traficante da boca de fumo local passa na direção do baile e avista Inácio. Ele para a moto e dá um pó de cinco, em agradecimento por Inácio der ficado de olheiro na semana passada. Agradecido, Inácio diz que essa droga ele vai separar para o amigo que mais cedo lhe deu a cerveja e volta para a rua entre a entrada da favela e a quadra do baile. Consegue mais três carros que lhe pedem o serviço de busca e entrega da droga. Dois deles lhe dão dez reais e um, generoso, lhe dá vinte. “Era um playboy rico, desses que tem muito pra gastar”. Ao todo, ele consegue quarenta e sete reais. Cinco reais, ele separa pro dízimo: “eu boto fé que Deus vai me libertar ainda desse vício!”.  Com outros quinze reais, ele vai comprar três pó de cinco. Por fim, guarda outros dez para tomar uma cerveja com os amigos. O resto ele diz que vai guardar para cheirar na próxima sexta. E justifica: “eu evito gastar o dinheiro que eu ganho com o trabalho limpo em droga. Procuro gastar dinheiro sujo com coisa suja e dinheiro limpo com coisa limpa, entendeu? Mas nem sempre dá, né?”, diz Inácio, rindo.

      Passa pela boca de fumo, compra pó para seu próprio usufruto e se junta a outros viciados, que já estão sentados em uma mesa estratégica. Todos ficam em uma calçada da rua principal de uma região da favela, na qual podem avistar, a partir de uma boa distância, a vinda da viatura policial da UPP. A mesa também tem a vantagem de estar próxima a um pequeno riacho, onde, em último caso, eles podem jogar fora o flagrante. Além disso, os viciados deixam, em cima da mesa, alguns cascos de cerveja e uns copos no qual bebem o líquido e dizem que, qualquer coisa, se a polícia quiser revistá-los, eles estão ali só com bebida alcóolica. “O viciado pode ser confundido só com cachaceiro, ora. Qualquer coisa a gente é bebum, e bebum não é contra a lei, né?” diz Inácio, com um sorriso irônico. A posição estratégica também lhes permite fazer um adianto para o tráfico, como olheiros. Quando uma viatura se aproxima, eles já escondem o flagrante e logo assinalam para um menino da boca que, pelo radinho, passa a informação para os vapores da boca de fumo. Como ocorreu no caso do traficante que passou de moto, muitas vezes os viciados são fortalecidos com droga, além de ganharem a consideração da rapaziada da boca de fumo: “é, tem uns que fortalecem a gente com uma droga… mas não é sempre não, isso acontece mais quando a gente evita alguma coisa”.

      Depois de cheirar os três pós de cinco e beber algumas cervejas, Inácio resolve, por volta das 5h40 da manhã, voltar pra casa. “As vezes eu vou direto pro trabalho”, ele diz. Nessa semana, contudo, Inácia só tinha para fazer um biscate na casa de um amigo da favela que pedia para ele chegar mais tarde, por volta das 13h, porque sua mulher dormia até mais tarde.

Quase sempre, por causa da cocaína, Inácio deitava e não conseguia dormir. “É, o pó deixa você acelerado. Ainda mais quando ele é total, AA, aí mesmo que tu fica como? Neurótico! Na hora que você cheira, não tem coisa melhor. Mas, quando você quer dormir, as vezes ele vira a pior coisa do mundo!”. Por isso, Inácio vai até o armário da sua casa e pega um Rivotril, que guarda para essas ocasiões. Diz que o consegue com um outro amigo viciado: “é, tem um deles que tem problema de cabeça, aí o médico lá arrumou uma receita pra ele. A gente dá um dinheiro ou mesmo uma rapa da cocaína e ele ajuda nós”. Pega um comprimido de 2mg e toma com um copo d’água. E diz: “esse aqui, é pá-pum! Pá-pum mesmo! Você dorme profundo e acorda inteirão no dia seguinte. É como se você morresse e ressucitasse!”. Inácio não espera muito. Poucos minutos depois do remédio deglutido, ele apaga.

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