Verbete: Mediologia/Régis Debray, por André Magnelli e Frédéric Vandenberghe

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Texto de André Magnelli e Frédéric Vandenberghe [1]

O neologismo mediologia (traduzido também por “midiologia”) foi cunhado, em 1979, por Régis Debray, que é um ensaísta, romancista e ativista francês bem conhecido na América Latina por ter sido, entre 1965 e 1971, um “Sun Tzu da guerrilha”, um guerrilheiro guevarista e um prisioneiro na Bolívia.

A invenção do rótulo foi bem anterior à sua fundação em 1991 e ao lançamento da revista Cahiers de médiologie (1996-2004†), sucedida posteriormente pela Médium (2005-hoje). A publicação do Curso de Mediologia Geral (1991) é o texto fundador dos estudos mediológicos, após o qual veio uma introdução, Introduction à la médiologie (1999), um manifesto, Manifestes Médiologiques (1999), e, enfim, um textbook, os Cahiers de médiologie (2009). Estão reunidos em torno do campo mediológico, além de Debray, alguns dos mais interessantes filósofos e sociólogos da tecnologia na França, principalmente Bernard Stiegler, François Dagognet, Pierre Lévy e Bruno Latour.

A mediologia está situada no cruzamento de filosofia, teologia, antropologia, arqueologia, história, sociologia, ciências políticas, semiótica, estudos de media e estudos culturais, sendo uma “interdisciplina” voltada à análise da totalidade dos processos de mediação que tornam possível a transmissão e a difusão das ideias. Ao acrescentar à “física social” dos pais fundadores da sociologia francesa (de Comte a Durkheim) uma “física moral”, ela investiga as bases materiais e institucionais da eficácia simbólica, observando a interação entre as forças sociais e as forças tecnológicas que conectam a cultura às práticas. A fim de compreender “como fazer coisas com as palavras”, ela se propõe a abrir a caixa preta do médium e a analisar a mediação como um duplo processo pelo qual, de um lado, as ideias são transmitidas por vetores tecnológicos, e, de outro,  as pessoas são organizadas em grupos e sociedades. Ela é, desta forma, uma sociologia política pós-marxista que investiga sistematicamente a lógica material de mediação das ideias, só que se detendo mais na lógica da organização, da distribuição e da transmissão do que na lógica da produção.

No nível mais geral, a mediologia estuda, assim, as condições materiais e institucionais da transmissão simbólica da cultura e da (re)produção da sociedade. Criticando os exageros pós-estruturalistas enredados nas ilusões dos significantes, Debray realizou uma “virada mediológica” na virada semiológica, integrando a análise semiótica dos conteúdos em uma filosofia histórica das tecnologias de distribuição e de transmissão da cultura. Ele busca, para tanto, compreender como os métodos de transmissão e de transporte provocam mudanças nas mentalidades e nos comportamentos, e, inversamente, como as tradições culturais provocam, assimilam ou modificam as inovações técnicas. A mediologia nasce, portanto, como uma espécie de “ecologia dos sistemas tecno-culturais” que analisa a associação, social e tecnicamente determinada, dos medias simbólicos que fazem a reunião, a inscrição, o estoque, a memorização, o transporte, a difusão e a transmissão das mensagens.

O corpus teórico da mediologia é composto por quatro M’s – mensagem, médium, meio e mediação – que, juntos, formam o conceito ecológico de “Mediasfera”. A noção de media é compreendida em um sentido amplo, incluindo todos os vetores materiais e institucionais de comunicação – desde as ruas, os canais, as estações, os portos e os portais que transportam ideias, até as seitas, as igrejas, as escolas e os partidos que as difundem. Os medias não são vetores neutros de transmissão cultural; eles interferem e modulam as visões de mundo e “sintonizam” certas maneiras de pensar, sentir e agir. O conceito de mediação é construído, então, como sendo a totalidade das interações entre cultura e tecnologia que tornam possível a difusão (através do espaço) e a transmissão (ao longo no tempo) das ideias. Tal concepção de media e mediação generaliza o mote da Escola de Toronto resumido pelo famoso slogan de McLuhan: “o meio é a mensagem”. Mas ela o faz apropriando-se sobretudo das filosofias de Gilles Deleuze e Michel Serres. A mediação é um processo sociotécnico de hibridização que interconecta a cultura (ideias e textos, tais como o Manifesto comunista), as pessoas (como Marx, mas também os intelectuais e os trabalhadores) e a tecnologia (desde a impressão até a remessa) dentro de uma rede ativa. Neste sentido, qualquer um age como um autêntico mediologista toda vez que esclarece as correlações entre um corpus simbólico (uma religião, uma doutrina, uma disciplina), uma forma de organização coletiva (uma igreja, um partido, uma escola, uma academia) e um sistema técnico de comunicação (que grava, armazena e circula os traços).

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Pierre-Marc de Biasi. O Império do signo V   (óleo, areia e terra), 1990

O neologismo fez seu primeiro aparecimento em Le pouvoir intellectuel en France (1979/1981). Ele foi rapidamente sucedido, em O Escriba. A Gênese do Político (1983), pelo estudo genealógico do campo do poder – o “triângulo Estado-Media-Intelligentsia” – e do papel do intelectual como “homem-médium” e encarnador, responsável pela operação de mediação entre os valores fundamentais e o curso das coisas, entre a transcendência e a história. Em Critique de la Raison Politique (1981/1983), Debray seguiu para a análise do papel da ideologia na estruturação das coletividades políticas. Contra a tese marxista da ideologia e baseando-se em uma interpretação criativa do teorema da incompletude de Gödel, ele argumenta que um grupo precisa de uma referência a algo além de si mesmo a fim de garantir a sua legitimidade. Ele defende a existência de uma “invariante religiosa” que subjaz toda forma de agrupamento humano, pois, para que um agrupamento humano seja produzido e persevere enquanto grupo, é necessário que ele opere um fechamento opondo o “dentro” e o “fora” e construindo, desta forma, um ponto evanescente de utopia ou transcendência; ponto que, por sua vez, terá por suporte e será transmitido por corpos, aparelhos e dispositivos. Isso implica, na prática, que toda coletividade tem uma necessidade perpétua de passeurs entre fatos e valores, enquanto mediadores e lubrificantes da incompletude inerente ao coletivos. Eis a lição de uma crítica da razão política: não existe “horizontalidade política” sem uma “verticalidade metapolítica”. Tal tese o conduz ao fato religioso, que é visto como tendo uma função essencial na estruturação das coletividades e como devendo ser esclarecido por meio de uma “física da crença” articulada a uma “física da ortodoxia”.

Antes de adentrar nos estudos sobre religião, contudo, Debray desenvolve as hipóteses do Curso de Midiologia Geral (1992) na sua tese tardia de doutorado, Vida e morte da imagem (1992), que foi orientada por Dagognet, onde reconstrói uma história tecno-cultural do poder no Ocidente por meio de uma análise das representações visuais. Com o objetivo de analisar o impacto das mutações dos medias sobre a sociedade e a política, ele analisa o desenvolvimento sucessivo e a integração da logoesfera (a escrita), a grafoesfera (a impressão) e a videoesfera (o audiovisual). A passagem da logo- à videoesfera implica não apenas uma mudança da predominância do poder das palavras para o poder das imagens, mas também uma mudança na própria organização da vida política e intelectual. Nos últimos dois séculos, a hegemonia da Igreja e dos sacerdotes (1880-1930), própria da logoesfera, foi substituída pela do Estado e dos letrados (1930-1968), característica da grafoesfera, e, em seguida, pela do mercado e dos jornalistas (de 1968 até hoje), que está imersa na videoesfera da sociedade do espetáculo. A partir de 1968, pela primeira vez na história, a esfera da difusão é capaz de controlar a esfera da produção. A partir do momento que a televisão destrona o mundo escrito e dos letrados, as imagens, as emoções e as frases de efeito substituem a análise, a razão fria e a interpretação circunstancial dos eventos. Consequentemente, a “mediocracia” comanda.

É o que ele defende um ano após, em O Estado Sedutor: as Revoluções Midiológicas do Poder (1993), onde explora os caminhos de uma “midiologia política ou cívica” esboçados na décima lição do Curso de Midiologia Geral. Ele analisa, então, as relações entre os medias, as formas de governo e as ações políticas, identificando a emergência de um Estado sedutor no ambiente da videoesfera. Sendo publicitário, midiático, recreativo, performático, visível, informativo, simpático e cultural, tal Estado dissolve os fundamentos de um Estado republicano literário, que é abalado pela destranscendentalização do político e pela hegemonia da mediocracia composta por empreendedores, publicitários, jornalistas, celebridades e agências de opinião pública e de pesquisas de mercado. Tais transformações fazem emergir uma racionalidade formal-instrumental centrada na performance e na mobilização de meios de manipulação, pouco preocupada, assim, com as finalidades da ação política. Ora, tal supremacia dos meios sobre os fins transforma a mediologia em uma das principais candidatas ao papel de teoria crítica no novo século:   

[A mediologia] é a ciência social do futuro, porque o século XXI será o século das mediações tecnológicas em que, cada vez menos, a lua será levada em conta enquanto o dedo que aponta para ela o será cada vez mais; em que a quinquilharia determinará o programa; em que, por toda a parte, os meios correm o risco de eclipsar os fins e o “eu posso” o “eu devo”. É a razão pela qual, salvo se vier a degradar-se em doutrina ou retórica, a reflexão política e moral sobre os limites, fins e abusos de poder deverá passar cada vez mais pelo estudo técnico do poder dos meios, o que seria uma excelente definição de nosso projeto (DEBRAY, Régis. Curso de Midiologia Geral, p.35).

Ainda que estejamos em plena passagem de uma video- a uma cyber-esfera, a cybe-esfera permanece subteorizada por Debray, uma vez que, na última década, centrado sobre tais preocupações de crítica do presente, ele desviou sua atenção para o estudo da função política da religião. Para ele, a religião compreende melhor a natureza da mediação do que as ciências sociais, a tal ponto que a mediologia não é nada mais do que uma cristologia tardia e profana. Em Deus, Um Itinerário (2001/2004), ele apresenta uma história mediológica do monoteísmo. O nascimento do Deus Eterno ocorre com a sua escrita, miniaturização e portabilidade realizadas pelo beduíno alfabetizado no contexto da geografia do deserto. Após, Deus é desterritorializado e anarquizado pelo corpo mediador e parricida de Cristo, uma vez que “a suserania do mediador subverte tudo o que ele mediatiza”; e, em seguida, é hierarquizado, corporativizado e controlado pela Igreja Católica. Com a era da impressão, o Deus do protestante se torna monocromático, democratizado, racionalizado, nacionalizado e disputado em uma guerra de valores característica da nossa modernidade. Só que, chegando à era do audiovisual, ele tende a ser expulso em favor da imagem gravada. Contudo, Debray identifica nisso uma ilusão contemporânea da possibilidade de um mundo sem religião, o que conduz, na verdade, a um “engarrafamento de sentido” e a novos apelos de reencantamento do mundo.

Tal investigação histórica sobre o monoteísmo se prolonga, em Le Feu Sacré (2003), para um estudo da função simbólica (vital, social e psicológica) da religião, voltando-se, sobretudo, ao desvendamento de sua função em grupos supostamente desprovidos de referência ao todo Absoluto. Defendendo que o sagrado é a via de acesso ao profano, ele volta a mediologia à tarefa de analisar como o simbólico – o que une o que está separado – e o diabólico – o que separa o que está junto – operam como condição de possibilidade de toda e qualquer sociedade. Com isso a mediologia ajuda a desvendar as lógicas da fraternidade e da guerra, do amor e do ódio, as lógicas da identidade, da unidade, da diferença e da indiferença. Tais investigações sobre o religioso visam a construir uma inteligibilidade sobre o político e a responder aos desafios do presente. A questão capital de nossas democracias liberais é: é possível estabelecer o inter sem a ajuda do meta? A resposta mediológica é que “todo  entre si supõe um acima, quando o nível meta se enfraquece, o inter se desloca. Quando o Símbolo (…) fraqueja, o diabólico reaparece” (ibid., p.412). “A salvação, portanto, não está no dólar [nem na Igreja], e sim na federação – amor, amizade ou partilha” (2004, p.412).

O que surge no final da trajetória mediológica é, portanto, o problema da fraternidade enquanto fundamento da democracia laica e da República. Não por acaso, no livro seguinte, Le Moment Fraternité (2009), Debray se volta, então, a um questionamento dos fundamentos da República, vendo-nos encontrar nos direitos do homem uma religião cívica em crise e que apela a um novo e consciente “trabalho de fraternidade”. Situando-se, enfim, in media res, a mediologia nos faz descobrir que, entre o religioso e o político, não há de se escolher, mas sim de se lidar e compor. O desafio está em uma aposta no ser-conjunto e no sentido do social, assumindo para tanto os riscos conscientes implicados na arte de confraternizar:

“o Simbólico que reúne, opera por intermédio do Diabólico, que nos separa. Janus bifrons: fraternidade na frente, hostilidade atrás. Inútil arriscar tudo, jogando a moeda divina no ar. Ela cairá de novo, e saltará de um ponto a outro, do opressivo ao libertador, e vice-versa (a Espanha democrática liberando-se da Igreja e a Polônia pela Igreja tradicionalista). Insolúvel. […] enquanto houver física em algum lugar, haverá mística no ar. Não é de um vazio na alma que nos viria a necessidade do sagrado, mas da necessidade em que estamos de sair do fluído, cadastrando nossos terrenos vagos” (2004, p.404-5)

[1] O presente verbete é uma versão amplamente modificada e expandida de Mediology, publicado, em 2015, na Wiley Blackwell Encyclopedia of Sociology, por Frédéric Vandenberghe e André Magnelli. As alterações foram feitas por Magnelli, sob sua inteira responsabilidade, a fim de realizar uma apresentação mais ampla da mediologia, realizando também as devidas adaptações ao público brasileiro.

Bibliografia

DEBRAY, R. Le Pouvoir Intellectuel en France. Paris: Ramsay, 1979/1981.

_______.  O Escriba: A Gênese do Político. Rio de Janeiro, Retour, 1983 [1980].

_______.  Critique de la Raison Politique. Paris: Gallimard,1981/1983.

_______. Curso de Midiologia Geral. Petrópolis, RJ: Vozes, 1993 [1991].

_______. Vida e Morte da Imagem. Uma História do Olhar no Ocidente. Petrópolis, RJ: Vozes, 1992.

_______. Manifestes Mediologiques. Paris: Gallimard, 1994.

_______. O Estado Sedutor: As Revoluções Midiológicas do Poder, Petrópolis, RJ: Vozes, 1994 [1993].

_______. Transmitir. O Segredo e a Força das Ideias. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000 [1997].

_______. Introduction à la Médiologie. Paris: P.U.F., 1999.

_______. Acreditar, Ver, Fazer. Bauru, SP: EDUSC, 2003 [1999].

_______. Deus, um Itinerário. São Paulo: Companhia das Letras, 2004 [2001].

_______. Le Feu Sacré. Fonction du religieux. Paris: Arthème Fayard, 2003.

_______. Le Moment Fraternité. Paris: Gallimard, 2009.

_______. Les cahiers de médiologie. Une anthologie. Paris: Cnrs éditions, 2009.

Régis Debray se lâche. Publié le 24/09/2015 à 13:46 | Le Point

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