Verbete: Pós-Modernismo, ou o Decálogo da Desconstrução, por Frédéric Vandenberghe

Texto de Frédéric Vandenberghe*

Traduzido e adaptado por André Magnelli

Este é um verbete heterodoxo bem no estilo do sujeito de que trata. Comecemos antes de tudo por uma confissão: após horas de trabalho e muitos finais de semana, eu sou pós-moderno; mas, no meu trabalho e no meu pensamento, eu não sou. Situando-me no movimento da segunda e da terceira geração da teoria crítica, eu me descreveria antes como “arqueo-modernista”. Intoxicado, contudo, não consegui deixar de apresentar o pós-modernismo à moda pós-moderna; só que farei isso a partir de uma crítica modernista e materialista. De modo lúdico e polêmico seguirão assim as definições e críticas: sem ter demasiado cuidado com as conveniências acadêmicas.

Tendo em vista que o pós-modernismo é, antes de tudo, um anti-pensamento reativo, não podemos falar dele sem cair na polêmica. Se o pós-modernismo se concebe como crítica da herança europeia, a crítica do pós-modernismo aparece, em seguida, como uma filosofia das Luzes que retoma o combate contra as trevas. Post-festum, após a festa, o pós-modernismo se revela como um neo-medievalismo do presente. Agora que o pós-modernismo do século passado passou como uma epidemia gripal — a French Flue, afetando sobretudo os literários americanos na falta de teoria e de filosofia — podemos, sem dúvida, melhor perceber e avaliar as devastações que ela fez nos meios dos pequenos intelectuais ociosos, que querem escrever filosofia tal como se escreve um romance policial. Vinte anos após a grande recusa das meta-narrativas, nós nos damos conta de que o pós-modernismo é, no fim das contas, um pensamento restaurador. Com Habermas e Bourdieu, nós poderíamos mesmo pensar numa revolução conservadora. Como explicar de outra forma o retorno vigoroso e a restauração do antigo que caracteriza a filosofia contemporânea saída do pós-modernismo?

— após a recusa dos “amanhãs que cantam” da filosofia hegeliano-marxista, constatamos o retorno da filosofia política liberal, mas também da comunitarista. Como no século XVIII, fala-se de novo da sociedade civil e da representação parlamentar, enquanto que os neocomunitaristas apelam para a responsabilidade, a confiança e o bom senso cívico. No fim do percurso, Claude Lefort junta-se com Fukuyama, enquanto que Laclau e Mouffe reencontram Carl Schmitt, o maior e mais brilhante filósofo do direito do último século, que tem o inconveniente de ser… fascista (não nas margens, como Heidegger, mas sim totalmente fascista – “nazi-filósofo”, dizia com justiça Zarka);

— após a introdução forçada de motivos estéticos na filosofia, constatamos um retorno à ética. Contra o universalismo da moral kantiana, que vale para todo mundo e, portanto, para ninguém, celebra-se a hermenêutica das diferenças a fim de particularizar, personalizar e estetizar a ética. Na ética estética, a alteridade vem, doravante, antes da identidade. Outrem, meu próximo, é tão inefavelmente outro que eu não posso apreendê-lo; sua diferença sendo ontológica, eu me torno seu refém e, antes mesmo de reconhecê-lo como meu igual, ele me obriga a respeitá-lo na sua alteridade absoluta.

— enfim, ironicamente, podemos constatar que a crítica dos fundamentos do conhecimento e a celebração da incerteza conduziram a um retorno vigoroso do religioso. O rosto de Outrem adquire os atrativos messiânicos do Todo Outro, das Ganz Andere, como dizia o velho Horkheimer.[1] Tendo em vista abalar o transcendental, o pós-modernismo redescobriu a transcendência. Da teologia negativa de Derrida até a afirmação da teologia pontifical por Vattimo, passando pelo pensamento pagão de Sloterdijk, o pensamento se precipita e se abole em Deus. A menos que este seja o Diabo, como em Maffesoli.

O pós-ismo, movimento anti-filosófico

Agora que a onda passou, e pode ser classificada como um negócio do passado que busca restaurar o passado, podemos enfim tentar definir o indefinível pós-modernismo. Ignorando distinções entra as diferentes correntes, eu proponho a seguinte hipótese de trabalho: O “pósismo” [“postisme”] é um movimento anti-filosófico da modernidade tardia, surgido nos anos 80 do século passado, que introduz a crítica da representação estética contra o realismo da epistemologia a fim de solapar os próprios fundamentos do pensamento herdado.[2] Na medida em que as pretensões expressivas da representação estética são incompatíveis com as pretensões de verdade da teoria do conhecimento, não podemos reconciliá-las, mas se pode fazê-las jogar uma contra as outras, tratar a filosofia como arte e desconstruí-la atacando, alternadamente, seu fundacionalismo, universalismo, racionalismo, idealismo, representacionismo, humanismo, essencialismo, em suma, seu falogocentrismo castrador. Sendo o saber desclassificado como uma forma de poder, celebra-se a pluralidade das interpretações, irredutíveis, mas todas compossíveis. No fim do percurso, a verdade aparece como um supermercado.

Retrospectivamente, percebemos que esta ruptura estética com o modernismo filosófico representa, a bem dizer, um momento no interior do próprio modernismo e da filosofia europeia – o momento da crítica da crítica dos fundamentos da modernidade ou, se se quiser, o momento da crise da crise do pensamento modernista, que corresponde ao triunfo do capitalismo tardio. Com efeito, se dividimos o pensamento moderno em três momentos — o primeiro momento de emergência com Descartes e continuando até Kant; o segundo momento dos “três H”: Hegel, Husserl e Heidegger; enfim, o terceiro e último momento de desconstrução das fenomenologias com Adorno, Lyotard, Lévinas e Derrida — nós nos damos conta de que a crítica da meta-narrativa da emancipação coincide com o momento em que a crítica do sistema é recuperada pelo próprio sistema e em que a filosofia se junta à arte para se tornar, tal como ela, uma mercadoria. Antecipo, portanto, a minha hipótese sociológica, que tomo emprestada, para a ocasião, da crítica literária marxista de Fredric Jameson: O pós-modernismo é, com efeito, a lógica cultural do capitalismo tardio.[3] Surgindo como uma crítica do capitalismo, ela constitui, de fato seu aliado. Nada mais desconstrutivo do que o capitalismo! “Não faça o ponto, faça a linha”, dizia Deleuze — e passe no caixa. O capitalismo é deleuziano — original, flexível, rizomático.

Três constelações discursivas

Agora que a tese do pós-modernismo enquanto acompanhamento do neo-capitalismo foi levantada como uma hipótese sociológica de trabalho, observemos, um pouco mais de perto, este pensamento-mercadoria, e sejamos um pouco menos polêmicos e um pouco mais analíticos. No interior da nebulosa pós-moderna, eu gostaria de distinguir, de modo escolar, três constelações discursivas que têm ocupado sucessivamente a cena intelectual desde os anos 80 (digamos desde que Lyotard publicou seu pequeno relatório sobre a condição pós-moderna solicitado pelo governo de Québec). Conforme estes debates tenham lugar nas artes e nas humanidades, eu os nomearei respectivamente pós-modernismo, filosofia pós-moderna e pós-modernidade. Tal como num jogo de dominó, o pós-modernismo estético põe em movimento o pós-modernismo filosófico, que não é sem repercussões sobre a teoria sociológica da pós-modernidade. Introduzindo motivos estéticos na filosofia, o pós-modernismo artístico repercute na sociedade sob a forma mercantil de uma estetização da mercadoria e de uma culturalização da economia.

O pós-modernismo nas humanidades e nas artes

Enquanto retomada da velha querela dos antigos e dos modernos, o debate sobre o pós-modernismo apareceu, antes de tudo, no domínio da arquitetura, das artes plásticas e da literatura, com o fim de tematizar as características da arte contestatória trans-vanguardista dos anos 60 e 70, que buscam ultrapassar a “grande partilha” entre a arte burguesa e a arte popular, entre a arte aurática e a arte de camelô, para falar como Adorno. À diferença da arte modernista, animada pela teleologia vanguardista do novo, a arte pós-modernista se apresenta como uma “arqueologia do presente”. Tomando emprestado as velharias e fragmentos do catálogo artístico da humanidade, que ele recorta e recola por bricolagem num conjunto heteróclito, a arte pós-modernista anula o tempo e o espacializa. O artista pós-modernista reduz tudo a um texto no qual se pode citar, grampear, cortar, colar à vontade para o reunir como um hipertexto sem início e sem fim, sem pé e sem cabeça. Tomando emprestada uma metáfora cara a Michel Serres, poderíamos dizer que o pós-modernismo dobra o tempo como se dobra uma carta ou um lenço, tendo por resultado que os elementos os mais distanciados no tempo se encontram aproximados no espaço. De modo mais geral, podemos caracterizar a arte pós-moderna, se não o próprio pensamento pós-moderno, por uma rejeição da distinção (no sentido de Bourdieu) e uma busca diligente da indistinção. Toda distinção, toda oposição, toda categorização binária (presente/passado, distinto/vulgar, belo/feio, masculino/feminino, humano/animal, etc.) pode e deve ser decomposta e desconstruída, ultrapassada e recomposta num tecido sem costura, numa espécie de hipertexto onde tudo pode e tudo deve se melar e se misturar — um templo grego e o hipertech americano, as colunas de Buren e o sutiã-garganta de Madonna, uma citação truncada de Derrida e a Terceira Sinfonia de Mahler, remixados num riff repetitivo eletrônico. O artista pós-moderno é um D-Jay ou uma D-Jane que, como na música tecno contemporânea, pode queimar e mixar todos os fragmentos imaginários numa sequência musical que faz as massas se mexerem.

Do ponto de vista sociológico, a arte pós-modernista aparece como uma regressão sistêmica. Invertendo três séculos de arte autônoma, o pós-modernismo busca ultrapassar a oposição entre a arte e a vida, abolindo a autonomia da obra de arte. Em gratidão a seu ambiente, a arte não se opõe mais à economia, à religião ou à política, mas se deixa voluntariamente colonizar por elas. Comparada à arte das vanguardas modernistas, a arte pós-moderna se caracteriza por um alto grau de desdiferenciação intersistêmica e um fraco grau de racionalização intrassistêmica. Relativamente autônoma em relação aos outros subsistemas, a arte moderna seguia suas próprias leis sem concessões ao público. A teleologia da inovação da arte modernista conduziu a uma arte pura e purificada, incompreensível para as massas — em pintura, chegou-se à cruz negra sobre fundo branco de Malevitch, em música ao 37 minutos e 40 segundos de silêncio imposto de Stockhausen, em arquitetura às “máquinas de viver” de Le Corbusier, das quais Brasília constitui o plano piloto. De acordo com Christopher Jencks, podemos datar e localizar o advento do pós-modernismo em arquitetura com precisão: St. Louis, Missouri, 15 de julho de 1972, às 15 horas e 32 minutos.[4] É então que o projeto Pruitt-Igoe, conjunto de torres de concreto, caixas de viver funcionalistas, foi dinamitada. Reformulado em termos brasileiros, no dia em que o governo decidir recolocar a capital no Rio de Janeiro, o modernismo receberá o golpe de misericórdia e o Brasil positivista tornar-se-á, enfim, pós-modernista.

Se a arte moderna é uma arte pura e purificada, a arte pós-moderna é uma arte diluida. Desdiferenciada, ela não segue mais suas próprias leis, mas se acomoda a seu ambiente e se funde nele, abolindo a distinção entre a arte aurática e a cultura popular. O resultado disso é uma involução voluntária da história da arte, que abole e inverte as sequências desenvolvimentais. Tudo e não importa o que pode ser assimilado e recomposto. A música eletrônica oferece um bom exemplo disso. Não apenas Beethoven pode vir após Bartók, mas também podemos mixar com os cantos Bororo e o jingle da publicidade da Coca-Cola. Desdiferenciada, a arte pós-moderna se abre à economia e se transforma em mercadoria. A arte moderna é igualmente mercantilizada, mas, diferentemente da arte pós-moderna, ela era mais e outra coisa que uma mercadoria. A arte pós-moderna, ao contrário, não é nada mais que mercadoria. Da mesma forma que a mercadoria é a arte mercantilizada, a arte é a mercadoria estetizada. Com o pós-modernismo, é toda a cultura que acaba por se tornar mercadoria. Veja MTV ou vá ao shopping. Colonizada pelo mercado, a cultura torna-se mercadoria ao mesmo tempo que a economia se torna cultural. Ela não produz mais bens, mas palavras e signos. Baudrillard viu bem, mas seria preciso ir mais longe e apresentar uma análise materialista consequente da cultura. Sociólogos, geógrafos e críticos literários, tais como David Harvey, Fredric Jameson, Michel Freitag, Zygmunt Bauman, Scott Lash e John Urry, fizeram-na. A conclusão deles é que o pós-modernismo é a cultura da sociedade pós-industrial e da economia pós-fordista.

A filosofia pós-moderna

No início, a análise da cultura como texto permanecia no seio de um marxismo althusserio-gramsciano fortemente semiotizado. A referência é os Cultural Studies de Birmingham, com Stuart Hall como figura de proa. Quando os Cultural Studies atravessaram o Atlântico para chegar nos departamentos americanos de literatura comparada, tudo se tornou texto e o textualismo deu lugar ao que nós conhecemos doravante como pós-modernismo. O pós-modernismo, versão barata e vulgar do pós-estruturalismo, é uma filosofia para literatos e ensaístas, que introduz a arte na filosofia para acabar com a grande filosofia. Tal como um refrão, encontra-se nela três temas infinitamente repetidos e constantemente reproduzido.

Primeiro tema: desconstrução da Razão. A razão é totalitária. Para unificar o real, ela deve o identificar, conceituar e simplificar, eliminando as ambivalências e diferenças, em suma, tudo o que não entra no sistema: as emoções, as margens, os acontecimentos, as contingências, a pluralidade, a multiplicidade, a irracionalidade, tudo isso que é, doravante, celebrado como o outro da razão.

Segundo tema: o fim das meta-narrativas. Com o desaparecimento da filosofia onto-teo-teleológica da história, que dá lhe um sentido, a história estoura numa multidão de fragmentos narrativos e discursivos que resistem ao sentido. Transformada em texto, a realidade inteira torna-se um campo discursivo e intertextual de representações e de significações flutuantes, que são cortadas de um referente extralinguístico e não mais remetem a nada outro que a elas mesmas.[5]

Terceiro tema: a morte do Sujeito. O sujeito não é nem autônomo, nem soberano, nem unificado. Atravessado pelas pulsões e representado na linguagem, o sujeito se dissolve, se fragmenta e se dispersa através de uma cadeia de representações midiáticas (bancos de dados, publicidades, novelas televisivas), que “interpelam-no” como sujeito. O resultado dessa “subjetivação” por representação é uma multidão de “mim-eu” ocasionais que não podem ser unificados. Na medida em que o sujeito “explode”, a psicanálise muda de sujeito e se transforma em esquizo-análise da pessoa, sendo essa compreendida no sentido literal enquanto uma máscara através da qual alguma coisa fala e ressoa.

O decálogo desconstrutivo

Independente de se tratar da nova nova crítica da Razão, da História ou do Sujeito, a crítica pós-moderna sempre se apresenta como uma iteração metódica do tema da identidade e da diferença. Com efeito, tal como a fenomenologia, a desconstrução não é uma teoria, mas um método, ou, antes, uma série de métodos e de técnicas que, de um modo ou de outro, revelam e expõem a não-identidade do pensamento e do pensador, se é que ele é pensador.[6] Mas como desconstruir um pensamento ou um pensador? Vejamos portanto! É preciso destranscendentalizar, imanentizar, desmaisculizar, pluralizar, processualizar, diluir, desconstruir, textualizar, contextualizar e relativizar o pensamento.

  1. Destranscendentalize! Faça descer as ideias do céu e mostre que o Ego transcendental é um “duplo empírico-transcendental” (Foucault), que, tal como um pintor, está sempre já posto nos reflexos da reflexão e nas redes da sensação e que não pode se representar sem seu outro, sem sua sombra.
  2. Imanentize! Elimine as forças transcendentes, as estruturas profundas e os atores invisíveis, que sustentam ou sobrecarregam o pensamento, a sociedade ou a história, e reduza o todo a uma única dimensão e a um único plano, o “plano de imanência” (Deleuze).
  3. Desmaiusculize! [Émajusculez!] Recuse toda filosofia que se escreve com maiúsculas. Deus, a História, a Sociedade, o Sujeito, todas essas quase-pessoas são só hipóstases do pensamento, meta-sujeitos que assombram a ontologia como fantasmas e que se tem de decapitar e castrar [émasculer].
  4. Pluralize! Não escreva jamais no singular. Os substantivos são sempre plurais. Não há verdade, ciência, história, natureza, cultura, etc., mas sim verdades, ciências, histórias, naturezas, culturas, em suma, multidões.
  5. Processualize! Salvo exceção, como Althusser, não há sujeitos sem processo. É preciso transformar todas as entidades em processos e relações performativas que produzem por metalepse as entidades como origem presumida da relação. As entidades não preexistem à relação, mas a relação as constitui como entidades que estão religadas entre elas por relações de intro-ação.
  6. Desconstrua! Construa uma oposição hierárquica, demonstre que a mediação passa pelos extremos e inverta a hierarquia fabricando um meio termo que inclui os extremos.
  7. Dilua! Não há essência e, sobretudo, não há essência humana. Como em perfumaria, só há essências que se tem de diluir e misturar. Não oponha a Natureza à Cultura, a Sociedade à Técnica, o Humano ao animal, à máquina ou à coisa, mas busque naturezas-culturas, conjuntos maquínicos, homens-lobos e organismos cibernéticos.
  8. Textualize! Ponha todos os sujeitos e os substantivos entre aspas e os considere invariavelmente como representações. “Não há fora do texto” (Derrida), tudo e todo o mundo é posto na linguagem e só representa uma posição e sujeito no interior da linguagem.
  9. Contextualize! Considere cada texto como um inter- ou hipertexto e recoloque o texto no seu contexto local de emergência histórica, linguística, geográfica, sócio-lógica, étnica.
  10. Relativize! Mostra que todas as ideias e todas as verdades são social e culturalmente construídas e que elas são, portanto, relativas a seus contextos. Erros aquém dos Pirineus, erros e contexturas além.

Em conjunto, estes Dez Mandamentos constituem o decálogo desconstrutivo. Qualquer que seja a injunção da desconstrução, enquanto métodos e técnicas de leitura, de interpretação e de escrita, elas respondem todas a um único e mesmo imperativo anti-categórico: Decante o pensamento! Para decantar e deskantianizar o pensamento, basta o pôr “em suspenso” e “sob rasura” , a fim de mostrar que o autor não faz o que ele diz e não diz o que ele faz. A crítica pós-moderna consiste em mostrar que um autor escreve sempre com duas mãos. Como na Bíblia, a mão esquerda não sabendo o que faz a mão direita. Se um autor afirma, por exemplo, a universalidade do pensamento, a crítica vai estabelecer que se trata aí de um pensamento bem particular; se ele busca fundar seu pensamento universal na razão, a crítica vai mostrar que a razão pressupõe e exclui a loucura e inclui a paixão da dominação, e assim por diante, até o ponto em que o pensador seja, enfim, reconhecido pelo que ele não é — a saber, um pensador-dominador-colonizador-opressor, ou seja, um professor que merece ser demitido.

Henri Vaugrand. Dékantianisez (ironie aftéromaffesolique), 2006

A pós-modernidade em sociologia

Embora não tenham faltado tentativas para desconstruir a sociologia, os sociólogos compreenderam, de forma bastante rápida, que a sociologia da pós-modernidade não podia ser uma sociologia pós-moderna. Certamente, houve e sempre haverá sociólogos simpáticos, tal como, por exemplo, Michel Maffesoli, que buscam analisar e compreender a sociedade a partir da socialidade e da proximidade da vida cotidiana, como uma espécie de churrascaria em grande escala. Tudo começa na mística e termina na política, dizia Péguy. Em Maffesoli, a política torna-se erótica e a mística termina na lama. Mas, paradoxalmente, estas tentativas desencadeadas para pós-modernizar a sociologia são incapazes de compreender a pós-modernidade. Porque, com efeito, enquanto que tudo indica que as sociedades modernas estão em vias de conhecer uma transformação estrutural e uma mudança de escala, a sociologia pós-moderna e decorativa insiste sobre os detalhes, o trivial, o frívolo e o local. Consequentemente, a visão global das transformações econômicas, geopolíticas, culturais, ecológicas, etc., não podem senão lhe escapar. Analisando as transformações do modo e das relações de produção e de consumo de bens, de males, dos serviços e dos conhecimentos que intervieram no último quarto do século XX, os sociólogos chegaram à conclusão de que a cultura é doravante a base e não mais a superestrutura da sociedade. A cultura, o conhecimento, as ciências são as forças principais de produção. O capitalismo cultural é inovador. Constantemente em busca da novidade e da diferença, produzindo para um mercado cada vez mais especializado e para um público sempre mais diferenciado, o capitalismo cultural e cognitivo é um capitalismo pós-industrial e pós-fordista. Embora o capitalismo cognitivo tenha afinidades com o pós-modernismo, seria errôneo dizer, no entanto,  que as sociedades teriam entradas na pós-modernidade. Aqui, como alhures, é preciso recusar a ruptura pseudo-histórica enquanto uma facilidade do pensamento. A reestruturação do capitalismo e a revolução tecnológica transformam a sociedade, mas elas não rompem com as instituições da modernidade. A acumulação do capital, a centralização do poder, a desmaterialização da produção e a individualização do consumo constituem uma radicalização da modernidade. A fim de marcar a continuidade com as instituições da modernidade, sociólogos coo Ulrich Beck, Manuel Castells, Alain Touraine, Anthony Giddens e Zygmunt Bauman falam de modernidade tardia, segunda modernidade ou baixa modernidade. A analogia com o conceito marxista de Spätkapitalismus ou de capitalismo tardio é intencional, porque, se queremos compreender a ontologia do presente, não podemos dispensar uma análise do capitalismo. Embora o neoliberalismo apareça no retorno e assistamos, doravante, a uma escalada assustadora  dos neo- e dos teo-conservadorismos de todos os tipos, o capitalismo está mais forte do que nunca, enquanto que a crítica social parece ociosa. De acordo com Boltanski e Chiapello[7], mas encontramos uma análise similar nos operaístas italianos como Negri, Virno e Lazaratto, esta fraqueza da crítica social contemporânea vem do fato de que o capitalismo se transformou e se fortificou incorporando as lições da crítica radical dos pensadores de 68. Revoltando-se contra o capitalismo rígido, burocrático e alienante de papai, seus filhos e suas filhas exigiam mais liberdade, criatividade e flexibilidade. Confrontado com a crise de acumulação dos anos 70, o capitalismo industrial se reorganizou e flexibilizou, passando, assim, como Gramsci havia previsto, de um modo de produção fordista para um modo pós-fordista. O capitalismo pós-fordista é um capitalismo flexível, desburocratizado, desdiferenciado, competitivo, organizado em rede, que se desconstrói e se reconstrói constantemente para melhor se adaptar aos mercados. É um capitalismo que desviou a crítica do pós-modernismo e que a utilizou, a seu favor, para se pós-modernizar. Nesta perspectiva, o pós-modernismo não aparece mais como uma crítica da modernidade, mas sim como uma crítica selvagem do capitalismo que foi desviada num sentido liberal e recuperada pelo capitalismo. É bem por isso que o pós-modernismo deve ser estudado e levado a sério. Esta retaguarda do pensamento constitui um excelente laboratório de observação que permite melhor compreender as reestruturações do capitalismo global. Mas, para estudar o capitalismo global, é preciso deixar de lado as premissas do pós-modernismo. Os sociólogos bem compreenderam isso. Desde os anos 90, eles abandonaram o debate sobre a pós-modernidade e passaram para uma análise da globalização ou, como se diz na França, da mundialização. Um outro mundo é possível… Após o pós-modernismo viria, portanto, o socialismo, não mais num único país, mas mundialmente, como cosmopolitismo. É sobre esta nossa utópica que eu gostaria de terminar.

* Tradução, levemente adaptada por André Magnelli, do original: VANDENBERGHE, F. L’aftérologie et le décalogue de la déconstruction. X-Alta, v. 9, p. 195-206, 2006. Imagem de destaque: Henri Vaugrand. Décalogue Déconstrutif, 2006.

[1] Cf. Rudolf J. SIEBERT,  Le Relatif et le Transcendant. La sociologie critique de la religion de Max Horkheimer, traduzido do inglês (Estados-Unidos) por Fabien Ollier e Henri Vaugrand, prefácio de Henri Vaugrand, Paris, L’Harmattan, 2005.

[2] Cf. Frédéric VANDENBERGHE , « Post-isme ou positivisme ? Une comparaison entre les théories de la réification et les théories de la postmodernité », traduzido do inglês por Henri Vaugrand,  X-Alta, n° 5, « Vers un discours de la nouvelle servitude volontaire », octobre 2001, p. 39-50

[3] Cf. Fredric JAMESON ,  Pós-modernismo – a lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo: Editora Ática: 2002. Ver igualmente Frédéric VANDENBERGHE. Pós-humanismo ou a lógica cultural do capitalismo tardio. Postscriptum de Uma história filosófica da sociologia alemã. Alienação e reificação, 2 vol (volume 1: Marx, Simmel, Weber, Lukács; volume 2: Adorno, Horkheimer, Marcuse, Habermas). São Paulo: Annablume (no prelo), tradução de André Magnelli, revisão de Thiago Panica e Rachel Barquette.

[4] Cf. primeira frase em Christopher JENKS,  The Language of Post-Modern Architecture , New York, Rizzoli, 1977.

[5] Cf. X-Alta , n° 6, « Police & corps du texte », outubro, 2002.

[6] Cf. Fabien OLLIER e Henri V AUGRAND, « Nouvelle servitude volontaire du penser »,  X-Alta, n° 5, « Vers un discours de la nouvelle servitude volontaire », outubro, 2001, p. 5-8.

[7] CF. Luc BOLTANSKI et Ève CHAPIELLO,  Le Nouvel Esprit du capitalisme , Paris, Gallimard, 1999.

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Henri Vaugrand. Violons le Soi, 2006

 

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