Os evangélicos, as drogas e a cientifização reflexiva

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Por Carlos Gutierrez

“Os evangélicos são conservadores e, por isso, contra a legalização das drogas”. Tal frase já foi repetida por cientistas sociais, militantes progressistas e, muito provavelmente, pelos próprios evangélicos (mas sem se identificarem como conservadores, óbvio). Qualquer um que acompanhe as movimentações desse grupo social, seja dentro dos espaços do Estado, ou no mundo da vida, percebe um posicionamento incisivo desses atores no que tange à questão das drogas. A presença deles nesse debate público levanta muitas críticas, mas não tenho aqui a intenção de apontá-las, ou desenvolvê-las. Proponho que deixemos a indignação para um momento posterior, para os embates do e no mundo da vida, a fim de que possamos nos aprofundar nessa questão e tentar compreendê-la para além de um viés crítico, a fim de não corrermos risco de aprisionar a análise nas grades da normatividade. Nesse breve recorte etnográfico, discutiremos as distintas perspectivas que atores evangélicos ligados à Igreja Universal do Reino de Deus apresentam face às drogas, assim como a incorporação de um léxico técnico-científico para elaboração de seus julgamentos, deixando de lado referências puramente religiosas. Desde já, podemos traçar uma hipótese para essa transformação argumentativa: a inserção dos evangélicos em redes mais amplas de interdependência, o que exige maior autocontrole dos indivíduos com relação à expressão religiosa e uma incorporação de discursos validados socialmente, para a tradução dos anseios do grupo em um contexto social pós-secular.

Antes de apresentarmos os dados etnográficos, convém realizar uma breve introdução teórica acerca dos autores utilizados para nossa problematização. O primeiro deles é Nicolas Dodier. O sociólogo francês, um dos principais expoentes da segunda fase do pragmatismo francês, cunhou diversos conceitos em sua obra que perpassa a análise acerca da prática médica no trabalho, a relação entre homem e objetos técnicos e, mais recentemente, arenas de disputa jurídica. Atemo-nos a algumas ideias-chaves: a noção de dispositivo e mundos de ação. O primeiro, já presente no início da carreira do autor, é clarificado em seu trabalho mais recente (Barbot e Dodier, 2016). Foucault entende o dispositivo como um conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas. Em suma, o dito e o não dito são os elementos do dispositivo. O dispositivo é a rede que se pode tecer entre estes elementos (Foucault, 2000, p. 244).

Dodier se interessa pela coerção efetuada por um dispositivo, isto é, situações específicas que obrigam os atores a agir, a julgar e a promover avaliações. Entretanto, guardada as semelhanças e influências, a noção desenvolvida por Dodier (2016) compreende como fundamental a finalidade atribuída pelos atores ao dispositivo e também seu julgamento em torno dele e nele sobre ideias, pessoas e coisas ligadas a esse dispositivo. Além disso, Foucault empreende uma análise de dispositivos em uma escala macroestrutural como, por exemplo, dispositivo de sexualidade. De certa forma, o conceito empregado por Dodier aproxima-se mais dos dispositivos de prova científica de Latour e Calon, estendendo esse conceito às fábricas, prática médica, linhas de montagem, etc. Em nossa análise, os atores estão implicados em uma série de dispositivos, os quais apresentam uma sequência de enventos que os constrangem a agir, produzindo uma série de avaliações positivas, ou negativas, sobre muitas coisas. A ação dos indivíduos face os dispositivos é o que Dodier denomina como trabalho normativo, sobre o qual sua teoria porta maior importância, uma vez que seu interesse não está pautado na capacidade sociológica de definição do dispositivo e seus componentes, mas sim nas atribuições e julgamentos dos atores sociais.

Outro conceito desenvolvido pelo autor nos interessa, o de “mundos de ação” (1993, 1993a). Partindo da noção de “mundo comum” de Boltanski e Thevenot (1991), Dodier propõe que a análise sociológica não se dê no “mundo social”, ou seja, um universo partilhado e construído pelo cientista social, em um processo de agregação e totalização dos atores, não levando em conta o as interações dessas pessoas em diversos mundos heterogêneos. A ação tem como característica a heterogeneidade e os indivíduos passam por diversos regimes, mobilizando argumentos e justificativas de diversos mundos. Por isso, seu construto busca escapar da rigidez homogeneizadora de um social construído a priori para acompanhar as interações dos atores no momento presente. Logo, os interesses de um agente pelos seres do momento e as relações e julgamentos que eles estabelecem. O autor exemplifica essa noção por meio de seu trabalho de campo em L’Expertise médicale. Em uma mesma empresa, um médico ao estabelecer suas análises clínicas em seu consultório está em um determinado mundo, mas também precisa, por vezes, apresentar relatórios e participar de reuniões junto com o setor de prevenção de acidentes, ou seja, um mundo distinto. Muitas vezes, diversos objetos como, por exemplo, uma ficha de avaliação ganha contornos e significados distintos e no embate entre esses mundos é necessário uma tradução para que os outros atores possam compreender.

Nosso segundo autor chave é Ulrich Beck. O finado sociólogo alemão produziu como maior obra “Sociedade de Risco” (2011). Segundo ele, a sociedade industrial, caraterizada por sua divisão de classes e produção de bens, deu lugar à sociedade de risco, com a produção de novos riscos, muitas vezes impossíveis de prever, que afetam a humanidade em escala global. A própria modernidade produziu diversos desses riscos como, por exemplo, destruição ecológica, crises financeiras, uso de pesticidas, tecnologia nuclear, etc. A ciência e a tecnologia ficam encarregadas de realizar uma gestão dos riscos, mas as inovações científicas produzem novos riscos e, muitas vezes, não conseguem prevê-los.
Dessa forma, segundo o autor, a sociedade, a economia e a vida pessoal são agora organizados pela questão do risco e sua gestão. De acordo com Beck, o problema da divisão de riquezas dá lugar ao partilhamento dos riscos na modernidade. Esse cenário mais “caótico” e problemático leva a uma maior participação dos atores sociais, com seu engajamento em relação aos riscos produzidos ou em vias de se produzir.

Sendo assim, a primeira modernização (industrial) tem como ponto de partida a tradição, enquanto que o atual processo de modernização (reflexiva) parte da sociedade industrial e científica. No que tange à ciência, Beck nos apresenta uma reflexão interessante. Em um primeiro momento de modernização científica, a ciência reina triunfante em relação à tradição e perspectiva religiosa, tendo o monopólio total da reflexão e da produção da verdade. Entretanto, o próprio desenvolvimento ímpar da ciência levou ao aparecimento de novas disciplinas científicas, subáreas de conhecimento que passaram a se contradizer e a própria ciência passou a ser alvo da reflexão, com a produção de críticas ao próprio processo científico. Nisso, os leigos, de receptores da racionalidade científica passam a ser coprodutores de conhecimentos, pois agora podem selecionar uma “verdade científica” (entre tantas possíveis) e lutar por sua divulgação contra outras correntes científicas. Assim, os atores tornam-se participantes ativos na emancipação da ciência pela ciência ao terem um papel fundamental no emprego dos resultados científicos, alterando até mesmo a lógica da condição de produção científica.

Por fim, a teoria de Norbert Elias acerca do processo civilizacional indica como a sociedade moderna se distancia das outras em relação a sua organização social. Essa organização específica geraria maior interdependência e diferenciação entre as pessoas, o que implicaria maior autocontrole na vida social. O surgimento da sociedade de corte é um exemplo no aparecimento da civilidade e do controle severo das vontades e emoções. A modernidade exigiria do indivíduo uma propriedade psicológica específica, uma arte de observar os outros e a si mesmo e, a partir daí, corrigir suas próprias ações. Isso altera completamente a economia psíquica do indivíduo moderno.

Vício tem Cura

Todo o domingo, às 15 horas, uma boa parte dos templos da Universal no Brasil e no mundo oferecem o “tratamento”, termo usado pela própria denominação para se referir à reunião do “Vício tem Cura”. Acompanhei-a no Cenáculo de Santo Amaro, na Avenida João Dias. As reuniões ocorrem em um edifício no estacionamento, atrás da grande catedral e dos estúdios de TV, no mesmo local em que participei da força-tarefa do Força Jovem para produção de cartazes para o evento “Caminhada por uma vida sem drogas”.
Aos domingos, o local recebe homens e mulheres de diversas regiões da cidade, almejando a cura de seu vício. Desde o ponto de ônibus no corredor, era possível ver diversas mães com filhos, muitas vezes contrariados a acompanhá-las, assim como algumas pessoas que apresentavam tremores, ou um olhar fixado e com sudorese intensa. Eramos encaminhados por obreiros que ficavam na porta do templo, já orientados a receber os participantes do tratamento. Ao entrarem na pequena edificação, alguns ajoelhavam-se diante o altar, choravam e clamavam a Deus pela libertação, relatando seu sofrimento e sua angústia, assim como muitas mães e pais que portavam a foto de seus filhos.
O bispo Formigoni, responsável pela iniciativa, entrou no púlpito e pediu que todos fizessem uma primeira oração para destruir o que havia de mal para que começassem o tratamento. Após a reza inicial, começou a falar sobre drogas.

“Pessoal, falar de droga hoje é falar sobre o maior problema de saúde pública no mundo. Posso falar que tem droga que tem ação depressiva, excitante, alucinógena. Isso pode levar qualquer um a largar tudo e cair numa Cracolândia por conta do vício. Gente, vocês sabem o que é vício? A psiquiatria define o vício como uma doença psicossomática incurável e progressiva. A medicina diz que não tem cura, os psiquiatras reconhecem que não há cura. Os Estados Unidos gastaram 30 bilhões de dólares no último ano em campanhas para ajudar dependente e não funciona”

É interessante ressaltar que o bispo utiliza um repertório técnico-científico para descrever a droga e também o vício. Do mesmo modo, recorre a argumentos de uma determinada corrente do saber médico para reiterar a ineficiência de tratamentos baseados em medicações ou internações. “Ah, mas vai desintoxicar um ano. Amigo, estudos científicos já provaram que depois de seis horas a cocaína já foi eliminada pelo sangue. Vai desintoxicar o que?”

“O êxito das ciências torna a demanda mais independente da oferta. (…) Com sua diferenciação interna, as ciências transformaram-se – também as ciências naturais – em lojas de autoatendimento para clientes endinheirados e carentes de argumentos. Com a transbordante complexidade de cada descoberta científica, oferecem-se simultaneamente aos compradores distintas oportunidades de escolha dentro de e entre grupos de especialistas (…) Leigos e políticos podem, no entanto, escolher não somente entre grupos de especialistas, eles podem também lançá-los uns contra os outros dentro de cada área e entre as áreas, ampliando assim a autonomia ao lidar com os resultados.” (BECK, 2011, p. 264).

O caso do bispo ilustra bem a análise do sociólogo alemão, ou seja, um ator leigo, incorporando argumentos de um determinado ramo da ciência média para fazer valer seu ponto de vista e, assim, construir uma determinada realidade social. No caso, a de que o vício é incurável pela medicina, o que leva a crer que o problema só pode ser espiritual. “Para entender o vício, você precisa entender como o espírito do vício atua na mente do dependente químico, fazendo com que ele tenha vontade. Tem gente que fica 300 dias em uma clínica, sai e vai usar droga. Isso é um espírito”. Percebemos como os atores então mobilizam distintos repertórios normativos, o da psiquiatria, ciência e o da espiritualidade, sendo acionados conforme as expectativas normativas dos agentes (Dodier, 2016).

No contato com esse dispositivo do tratamento “Vício tem cura”, os atores classificam internações e o próprio vício de forma distinta, se comparados ao trabalho normativo realizado em relação a esses fatores em outros dispositivos. Aqui, as internações são vistas como algo inútil e sem eficácia. Em um depoimento, um rapaz conta ao Bispo Formigoni que passou por três internações e voltou a usar drogas todas as vezes, sendo liberto apenas pelo tratamento. “Mas é isso mesmo, a pessoa vai para clínica e não adianta. Uma vez pedi para uma repórter ligar para as clínicas e perguntar se havia algum caso de cura. Nenhum. Todo mundo volta a usar droga”, afirma Formigoni.

A explicação psiquiátrica para a incurabilidade do vício é mobilizada então como uma prova de que só pode ser algo metafísico. “Se a medicina não cura, não consegue explicar, só pode ser um espírito e precisa ser resolvido espiritualmente”. Os outros atores presentes concordam com a fala do bispo e a corroboram em seus testemunhos: a vida no vício, as tentativas de internação, de medicação e as constantes recaídas. “Bispo, sabe porque internação não resolve? Porque você pode ficar preso dez anos, mas vai continuar com vontade”, relata um liberto da cocaína. Formigoni concorda e diz que isso mostra que o “Narcóticos Anônimos” também não funciona, pois eles não são capazes de eliminar a vontade e essa parece ser a grande chave para compreensão do espírito do vício, pois é ele quem cria a vontade constante do uso da substância.

Então, uma vez mais o repertório médico-psiquiátrico é mobilizado para explicar a dependência. “Tem muitos estudos científicos que afirmam que a droga não causa dependência química. Isso quer dizer o que? Que não é algo do corpo que te exige a usar, que tem uma química ali que o corpo necessita, mas sim é algo espiritual. O espírito, a entidade do vício quer aquilo”. Sendo assim, parte dos atores não julga a droga como uma condição para o vício. “Eu já fui viciado em muitas coisas que muita gente não considera droga, como a prostituição. Eu deixava todo meu dinheiro em prostíbulo. O vício não é o pó, a cocaína, mas o espírito que domina a mente. Se fosse a substância, o medicamento que a clínica dava resolvia, mas a vontade continua!”, conta Formigoni.
É interessante perceber como o trabalho normativo e as referências mobilizadas variam conforme os dispositivos. O argumento da droga como algo inerte, em um debate com antiproibicionistas, por exemplo, seria rechaçado pelos atores evangélicos como uma proposta absurda. Porém, em situações colocadas por outro dispositivo, os mesmos atores utilizam esse repertório normativo para julgar as drogas. Assim, podemos falar de uma reflexividade estratégica (Dodier, 2014) que se manifesta por meio de um trabalho normativo relacionado aos interesses dos atores.

Isto posto, no que consistiria então o tratamento proposto pelos atores? Formigoni dá a resposta por meio de sua própria trajetória. Segundo ele, foi viciado em lança-perfume, cocaína, maconha, álcool, prostituição, chá de cogumelo, LSD, crack e só conseguiu parar com tudo no dia em que aceitou a palavra. “Aí foi imediato, no mesmo momento, na hora eu parei. Não tive mais vontade. Quer ver?” Formigoni convida então as pessoas viciadas para irem ao altar para uma breve sessão de exorcismo. Uma fila é formada e homens e mulheres são entrevistados pelo bispo sobre quais drogas usam. Então, ele ao obreiro para trazer maconha, cocaína e cerveja. Primeiramente, o bispo mostra a droga ao “viciado” e pede para sentir o cheiro e conferir se é de verdade. A resposta é afirmativa. “Você tem vontade de cheirar? De dar um trago nessa maconha?” Eles dizem que sim e riem. Então, começam a passar pelo exorcismo. Alguns tombam no chão e se contorcem, o que exige a ajuda de obreiros e uma nova exorcização. Depois, calmos, são convidados a experimentar a droga. Os ex-viciados começam a sentir ânsia de vômito diante da outrora desejada substância. O público aplaude e Formigoni realiza uma oração para libertação geral.

Segundo ele, mais de 70 mil pessoas já foram curadas com o tratamento, o que está registrado em uma lista, com nomes, números de CPF e assinatura de cada um. Porém, Formigoni explica que para conseguir a cura, a pessoa precisa querer. “A primeira coisa é assumir que é viciado. Tem muita gente que fala: ah sou usuário, uso quando quero. Mentira! Você tenta usar só uma vez quando viu, ficou a noite toda na droga. O vício te controla, então você é viciado. Precisa assumir”.

Para o bispo, boa parte dos usuários de droga encaram o viciado como a pessoa que está em situação de rua, mas nunca se percebem enquanto tal. Isso pode ser explicado, em sua visão, pelo fato de boa parte dos viciados pertencer a classes mais altas que julgam que o vício é uma exclusividade dos pobres. “Vício não escolhe cor, classe social, ou idade. Te controla e te faz perder o controle da sua vida”. Depois, afirma que apesar de libertos, os “ex-viciados” precisam continuar a vir e a frequentar, pois o espírito do vício está sempre à espreita e é preciso se proteger dele.

Todos oram uma última vez e deixam a Igreja calmamente. Alguns entram no templo maior, a fim de assistir a outro culto, enquanto que outros dirigem-se à avenida João Dias. Durante a inauguração do Templo de Salomão, em 2014, Formigoni fez uma fala sobre as drogas para as autoridades presentes (governadores, presidente, prefeitos, ministros, etc.) antes do culto celebrado por Edir Macedo. Repetiu aos presentes seu julgamento sobre o vício e a ineficácia das internações, usando para tanto o repertório normativo científico da psiquiatria. Posicionou-se também em relação aos esforços dos governos na questão das drogas: “se o Brasil pegar todo o PIB e investir em clínica de desintoxicação, não vai conseguir recuperar um único viciado. É inútil. Nessas clínicas não tem nenhum recuperado, sempre tem recaída.”.

Acredito que ficou claro como os atores mobilizam repertórios distintos e, à primeira vista, até aparentemente contraditórios entre si. Devemos ressaltar que muitos dos atores que frequentam o tratamento da Universal e que são contrários às internações, ou que as julgam ineficazes, fazem parte do projeto político do Partido Republicano Brasileiro e que e em um contexto mais público, defendem o procedimento psiquiátrico e engajam-se na luta por verbas para internações. O grupo Juventude contra o Crack, iniciativa de Jean Madeira, vereador (PRB-SP) do município de São Paulo e pastor licenciado da Igreja Universal, empreende uma série de ações contra o as drogas como, por exemplo, realização de manifestações, participação em fóruns e audiências, etc. Durante a gestão do PRB nas Secretarias de Desenvolvimento Social do Estado de SP, assim como na Secretaria de Esporte, Lazer e Juventude, a juventude do partido, ligada em sua maior parte à Igreja Universal, participou ativamente na elaboração de políticas públicas para a questão das drogas. Nesse período, houve uma forte aproximação com as clínicas de desintoxicação e a importância delas como principal medida na questão das drogas. O estabelecimento de parcerias entre o poder público e as clínicas de recuperação para usuários de drogas foi a principal bandeira do partido e seus militantes, o que também se refletiu na realização de eventos de homenagem a diretores e responsáveis por essas entidades na Câmara Municipal e na Assembleia Legislativa.

Claro que muitas dessas clínicas são “comunidades terapêuticas”, mas as mesmas não são um consenso para os atores. Conforme colocado anteriormente, Madeira e alguns membros do Juventude Contra o Crack são favoráveis a esse modelo de clínica. Porém, Formigoni e outros membros da Universal também as criticam. Em seu programa “Vício tem Cura”, uma reportagem denunciou os maus-tratos nas clínicas de recuperação, inclusive nas terapêuticas, com imagens de tortura e relatos de agressões físicas e psicológicas. “Está provado, clínica não cura”, afirmou Formigoni após o relato.
No programa televisivo “Vício tem Cura”, veiculado pela TV Record e também disponível em canal no YouTube, Formigoni e outros pastores são apresentados como “especialistas” e não como bispos. A iniciativa é anunciada como uma terapia gratuita e aberta a todos, sem vínculo com religião. A Igreja Universal do Reino de Deus é citada como a instituição que acolheu o programa. Aqui percebemos o efeito de dissuasão, isto é, a tentativa dos atores de dissuadir o pertencimento à Universal. Para tanto, constroem o projeto como iniciativa “não-religiosa” e aberta a todos, um “tratamento”, comandado não por bispos, mas sim por “especialistas”. Formigoni afirma que “não me importa sua religião. Isso aqui não tem nada de religioso é aberto a todos para ajudar as pessoas”.

O deslocamento dos atores por diversos mundos de ação (Dodier, 1993) é uma noção importante para compreender o referencial mobilizado pelos atores, assim como a dificuldade da “tradução” de seus julgamentos diante outra audiência. A passagem de um mundo para outro pode ser tensa, especialmente, se os atores não estão preparados às coações das relações a produzir (Dodier, 1990a). Para compreender os efeitos de passagem de um regime de ação a outro, seguimos essa “metamorfose” de julgamentos. Pudemos observar, por meio dos exemplos citados, como mundos de ação diferentes podem inserir os mesmos elementos em conjuntos diferentes. A tabela abaixo indica como quatro itens são retratados de forma distinta nos mundos considerados:

Seres considerados (no caso, palavras)
Igreja Universal (Vício tem Cura)
PRB e dispositivos na esfera política
drogas
Substâncias, mas também sexo, jogo, pornografia, comida, etc.
Substâncias químicas (lícitas ou ilícitas)
dependência
Existe, mas não é causada pela droga, mas sim pelo espírito do vício.
Causada quimicamente pela droga.
internação
Ineficaz, desnecessária, tortura.
Ação fundamental para tratamento.
Psiquiatria
Revela que o vício é incurável e que não existe dependência.
Trata o vício, demonstra a dependência química.

Devemos ressaltar que nesse caso específico, todos atores considerados são oriundos da Universal, mas nem todos participam ou participarão de forma incisiva do universo político. Talvez, por isso, a tensão seja maior quando os atores do “Vício tem cura,” que não participam do PRB, se deslocam em direção ao outro mundo de ação e são expostos a dispositivos heterogêneos, tendo que justificar suas posições. Inversamente, quando os atores ligados ao projeto político visitam a terapia do “Vício tem Cura”, a passagem de um mundo para outro praticamente não é revelada ao pesquisador e não há nenhuma tensão. Ao contrário, esses “atores políticos”, ajudam no processo de “tradução” do argumento espiritual no plano da política.

Em 2016, o secretário estadual de Desenvolvimento Social de São Paulo, Floriano Pesaro (PSDB-SP), recebeu em seu gabinete os Bispos Formigoni e o Pastor Lara, assim como o secretário de Esportes, Lazer e Juventude, Jean Madeira (PRB-SP), que intermediou o encontro. A reunião ocorreu a portas fechadas, sem acesso ao público, mas a Secretária de Esportes, Lazer e Juventude divulgou uma nota acerca do encontro. Trata-se de um material muito interessante à análise, pois a o deslocamento dos atores do “Vício tem Cura” em direção a outro mundo de ação exigiu, por parte da equipe de Madeira, a tradução de diversos termos e promoveu uma tensão, já que os mesmos elementos expostos na Tabela 1 pertenciam a esses mundos de ação diferentes, mas colocados em intersecção pelo dispositivo da reunião.

A nota define Formigoni e Lara como “especialistas” e não conforme os cargos que ocupam na Igreja Universal. Segundo o informe, a reunião ocorria após a apresentação do tratamento “Vício tem Cura” para Geraldo Alckmin (PSDB-SP), que se colocou à disposição para uma ação conjunta com o seu secretariado. Em sua declaração oficial para a Secretaria, Formigoni não mencionou em nenhum momento o espírito do vício, ou a descrença com relação às internações, tampouco sua filiação religiosa:

“Sabendo que o vício não é apenas um problema pessoal, mas acima de tudo de ordem pública, e que temos obtido muito sucesso através desse tratamento, nós colocamos à disposição do secretário de desenvolvimento social, Floriano Pesaro, o programa, com o objetivo de beneficiar toda a sociedade, e principalmente aqueles que sofrem com os vícios e seus familiares!” (Rogério Formigoni)

A nota então explica o que é o “Programa Vício tem Cura”, mas antes cita o Programa Recomeço, principal política pública do governo Alckmin no que tange à questão de auxílio a usuários de drogas, explicando o funcionamento do projeto e disponibilizando um link para o site. Logo abaixo, a nota explica que o tratamento é realizado para combater a raiz do vício, por isso, seu foco não é no organismo, mas sim na mente dos viciados. “Se a dependência do adicto fosse química, ele conseguiria a cura se desintoxicando. Mas, mesmo depois de ter passado por uma desintoxicação, ele volta ao uso da substância, porque a força do vício está na mente do viciado”. O ponto de vista do “Vício tem cura” foi exposto, mas, claramente, suavizado, se comparado às falas de Formigoni na Igreja. Devemos frisar que o deslocamento entre diversos mundos de ação colocou os atores em uma situação tensa, obrigando-os à conciliar duas classificações distintas em torno da questão da desintoxicação no mesmo texto: a posição do Programa Recomeço, pró-internações, e a contrária do Vício tem Cura.

Em nenhum momento o “espírito do vício” foi mobilizado como motivo para o consumo de drogas. “A depressão, a baixa autoestima, a insegurança, os sentimentos de impotência e o nervosismo” foram elencados como “fatores que levam o viciado novamente ao uso da substância”. No outro mundo de ação, esses sintomas também são considerados, mas como consequência do trabalho do espírito e não como uma causa em si. Na esfera política, o argumento foi traduzido, eliminando a referência a motivações espirituais, garantindo que a argumentação não fosse tomada como “religiosa” por outros atores. Segundo a notícia do site, a metodologia do tratamento é baseada na fé, o que despertaria na mente do usuário uma “energia, uma força capaz de eliminar da mente dele todos os sentimentos contrários que até então o escravizava”. Isso traria de volta a “confiança, a determinação” para “reconstrução da vida”. O texto faz questão de frisar que não se trata de “religião”, mas que o tratamento ocorre na Igreja Universal, pois foi a única instituição que cedeu espaço para receber dependentes e codependentes.

A nota ainda afirma que o programa Vício tem cura realizou palestras em escolas e ginásios estaduais, com a distribuição do livro “A Última Pedra”, obra autobiográfica de Formigoni, em que narra sua trajetória no mundo das drogas e sua posterior libertação, quando conheceu a Igreja Universal. Devemos ressaltar o trabalho dos atores para “traduzir” o grupo e suas práticas para um contexto pós-secular. De acordo com Habermas, o sistema político deve ter filtros para impedir que “razões religiosas” entrassem no parlamento.

“Entretanto, os limiares constitucionais que se colocam entre uma esfera pública política ‘selvagem’ e as corporações estatais criam, na confusão das vozes dos círculos de comunicação pública, certos filtros, os quais, no entanto, são cunhados apenas para dar vazão a contribuições seculares. No parlamento, por exemplo, a ordem agendada deve permitir ao presidente retirar da ordem do dia posicionamentos ou justificativas religiosas. Para não se perder os conteúdos de verdade de exteriorizações religiosas, é necessário, por isso, que a tradução já tenha ocorrido antes, ou seja, na própria esfera pública política”. (Habermas, 2007, p.149)

O trabalho não tem pretensão normativa, porém, deve-se ressaltar como os próprios atores atribuem importância ao processo de tradução na construção de um argumento secular e público para garantir seu “conteúdo de verdade”. Além disso, os atores antecipam-se às críticas oriundas de outros agentes, contrários à participação religiosa, por meio dessa monitoração reflexiva em torno da ação e também da tradução de discursos religiosos/espiritualistas em seculares. “Sabe como é o preconceito das pessoas com a Igreja, não dá para falar e mostrar, não pode. Muita gente desprezaria, ou não iria querer saber, só por ser algo ligado a igreja”, explica Nelson, militante do PRB.

Para compreender melhor a pluralidade no trabalho normativo e as tensões produzidas nas passagens bruscas entre mundos de ação, a metodologia da desagregação torna-se uma ferramenta eficaz para esse trabalho. Por meio dela, podemos analisar como os atores passam de um mundo a outro, revelando uma heterogeneidade de situações escondidas nas unificações para retratar a ação de atores coletivos. Quando consideramos “os evangélicos” como totalidade, ou seja, um “ator coletivo” que age com relação a certos temas, deixamos de apreender diversas sequências de ação e também como os indivíduos combinam diferentes regimes de ação pelos quais atravessam. Isso leva a uma invisibilidade dos atores individuais, que são relegados a segundo plano, e também a um desconhecimento dos procedimentos pelos quais os indivíduos se afirmam frente às entidades coletivas. Conforme visto no tópico anterior, atores evangélicos mobilizam diversos repertórios diversos e tem julgamentos distintos acerca de uma série de questões, o que os leva também a agir de forma diferente nesses mundos. Logo, a desagregação permite compreender a complexidade e heterogeneidade das classificações e engajamento dos atores e, consequentemente, a participação dos evangélicos na produção do social, justamente porque não nos interessamos em compreender os “evangélicos” por meio do social, mas sim entender como o social é (também) construído por eles.

Tomemos outro dispositivo: a Liga da Prevenção. Em 2015, especialistas da área de psiquiatria e psicologia e lideranças na área de prevenção às drogas uniram-se para criar esse movimento, que prevê reunir o maior número possível de pessoas que participam da prevenção às drogas e álcool no Estado de São Paulo. A partir daí, pretendem trocar experiência e conhecimentos para a realização de ações de prevenção de baixo custo, além da disponibilização de cursos e capacitações para os membros na área de dependência química. Para celebrar a criação do grupo, uma solenidade foi realizada em novembro de 2015, na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, reunindo especialistas e militantes no combate às drogas. A mesa contou com o deputado estadual Luiz Carlos Gondim (SD), o secretário Jean Madeira, bispo Cláudio do projeto “Vício tem Cura”, a médica Luzemir Lago e o psicólogo Sérgio Castillo.

No auditório Franco Montoro, com capacidade para 150 pessoas, encontro uma grande variedade de participantes: jovens com corte coroinha e camisetas de estilo funk, roqueiros do grupo “Rock e prevenção”, policiais militares, psicólogos e profissionais de saúde que conversavam entre si, assessores parlamentares e evangélicos de diversos grupos. Próximo da frente do palco, senta-se um grupo de cerca de dez jovens e adultos, portando a camisa preta “A última pedra”. Rapidamente, são identificadas por duas senhoras evangélicas (o que viria a saber posteriormente) como “o grupo antidrogas da Universal”. Decido então, conversar com uma jovem do grupo:

P: Vocês são de um projeto da Universal?

R: Sim, somos do Última Pedra.

P: Mas o nome anterior não era Juventude Contra o Crack?

R: Sim e depois foi “Dose mais forte”. Cada vez que um pastor ou bispo diferente assume o grupo há uma troca no nome, para ficar a “marca” do atual. Aí o bispo formigoni assumiu e colocou o nome a ultima pedra, que é o mesmo do livro. Muito forte aliás.

P: Como é o trabalho de vocês?

R: A gente vai na Cracolândia, levamos auxílio, propomos a internação, distribuímos quentinhas, bíblias, cobertores, kits de higiene pessoal e levamos uma palavra de fé, para motivação, transformação daquela situação. A gente também vai a escolas para falar um pouco sobre drogas, contar sobre o nosso passado na droga, mostrar ao jovem o que é esse mundo.

P: Você foi envolvida com o que?

R: Cocaína, maconha, LSD e também usava remédios para dormir. Tava voltando de uma rave e aí minha mãe estava frequentando e decidi ir na reunião de libertação do Bispo Formigoni. Nunca me esqueço. Na segunda sessão eu tava curada já e pronta para ajudar na obra. Eu saía muito, aprontava, só queria saber de festa e droga. Hoje faço algo mais produtivo da minha vida.

O grupo volta a conversar entre si, discutindo onde colocar o banner da terapia da Universal e acabam optando pela frente do palco. O grupo discutia uma performance coletiva para o momento em que o bispo Cláudio citasse a presença de curados na plateia. A ideia era levantar imediatamente e dizer em voz alta: eu fui curado! Quando anunciaram a ideia ao bispo, por telefone, este foi enfático: a Assembleia não era a igreja e eles deveriam apenas levantar os braços. Alguns ficaram decepcionados, mas decidiram seguir as instruções. Comecei então a conversar com duas senhoras, ambas voluntárias em comunidades terapêuticas. Elas afirmam que são evangélicas, da Igreja Batista, e ligadas ao Projeto Cristolândia e que o tratamento em que acreditam é “reza e roça”, em meio a risadas. Segundo elas, o interesse em participar das drogas é “ficar por dentro dos cursos”. Ambas já haviam realizado diversos cursos de prevenção com psicólogos e psiquiatras.
Para as duas amigas, é importante conhecer informações da “área médica” a fim de ter mais “bagagem” sobre os perigos das drogas, para convencer os jovens. “Se você chegar falando de Jesus, dizer que é errado, que os pais não gostam, eles nem ligam. Precisa mostrar como destrói a pessoa, o mal que faz para a saúde”. Uma delas, Elisângela, realizou estágio em uma comunidade terapêutica, sem a presença de médicos e com tratamento baseado exclusivamente na fé. Atualmente, ela procura emprego em uma clínica, ou como assistente social para atuar junto a usuários de droga. Porém, em seu currículo, essa informação a respeito de sua experiência é ocultada. “Não coloco porque podem me associar a algo não legalizado, pois ali não tinha médico, nem psicólogo. Eu acho que tem que ter um médico supervisionando, mas tem que ter a fé. Tanto que o sucesso de tratamento é muito maior”, explica.

Percebemos por meio dessa breve etnografia como os atores incorporam saberes científicos para elaborar seus julgamentos e justificar suas posições. A opção por certos discursos em detrimento de outros é explicada pela maior validade social do argumento no mundo da vida. Ao acompanharmos esses atores por diferentes mundos de ação, percebemos a heterogeneidade de posições e percepções entre os evangélicos (tão homogeneizados pela crítica) com relação à temática das drogas e como suas avaliações podem ser diferentes entre si, gerando tensões entre os atores. Uma hipótese que poderia explicar essa diversidade de visões e a maior reflexividade com relação à linguagem utilizada é a inserção desses evangélicos em redes maiores de interdependência e interação (Elias, 2001), que exigiria, por conseguinte, maior autocontrole e monitoração. Nisso, os agentes passariam a incorporar novos saberes e formas discursivas, a fim de conseguir traduzir sua mensagem e atingir grupos sociais mais amplos, conforme preconiza Habermas (2007). Entretanto, esse processo não se dá de forma homogênea, mas sim parece seguir um certo padrão lógico com relação aos mundos que os atores tem acesso, o que explicaria a discrepância de julgamentos entre os membros da Universal que participam do projeto político e aqueles que se atém mais ao universo interno da instituição. A tensão então surge no momento em que esses são convidados a participar de outro mundo de ação e ali expõem suas perspectivas. É importante ressaltar que a desagregação do coletivo proposta pela noção de mundos de ação de Dodier revela algo que deveria ser óbvio: evangélicos não são apenas evangélicos. São políticos, militantes de movimentos sociais, torcedores de times de futebol, membros de associações de bairro, estudantes, etc. Dessa forma, participam ativamente de diversos mundos, carregando consigo experiência e referenciais normativos muito distintos, o que explica a pluralidade nesse caso e também em outros. Conforme descrito no texto, diversos atores percebem o discurso religioso como inválido em certos momentos (falar com jovens em ações de prevenção, discussão de políticas públicas, justificação da proibição, etc.), o que os leva a buscar argumentos científicos, tidos por eles como mais adequados para esses fins. Porém, com a fragmentação da produção científica (BECK, 2011), a própria ciência não tem mais o peso e pretensão de verdade que teve no início da modernidade, havendo então uma gama de opções de produções científicas que serão mobilizados ativamente por eles e também contra eles.

Evidentemente, a “identidade” evangélica ocupa um papel extremamente relevante na formação psicossocial desses indivíduos e também no seu trabalho normativo face a distintos dispositivos, mas acredito ser inviável atribuir todos os seus julgamentos e avaliações a uma forma de religiosidade. Caso contrário, estaríamos entregues a uma visão reificadora e homogeneizadora dos evangélicos e seríamos incapazes de perceber a diversidade de seus modos de ação, sua capacidade de adaptação discursiva e autocontrole em relação às situações sociais.

Referências bibliográficas:

BARBOT, J; DODIER, N. 2014, Que faire de la compassion au travail? La réflexivité stratégique des avocats à l’audience. In: Sociologie du travail, 56(3), 365-385.
___________________________, “La force des dispositifs”. In: Annales HSS, avril-juin 2016, n°2, p. 421-448.

BECK, U. Sociedade de Risco: Rumo a uma outra modernidade. São Paulo: Editora 34, 2011.

BOLTANSKI, L; THEVENOT, L. De la justification: les économies de la grandeur. Paris: Gallimard, 1991.

CORREA, Diogo. Do problema do social ao social como problema: elementos para uma leitura da sociologia pragmática francesa. Revista de Ciências Sociais, n.40, abril de 2014, pp. 35-62.

DODIER, N., 1993, L’expertise médicale. Essai de sociologie sur l’exercice du jugement, Paris, Métailié.
___________. 1993a, “Les appuis conventionnels de l’action. Eléments de pragmatique sociologique”, Réseaux, n°65, 63-86.

ELIAS, N. A sociedade de corte: investigação sobre a sociologia da realeza e da aristocracia de corte. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

FOUCAULT, M. Sobre a História da sexualidade. In:_____. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2000. p. 243 – 27.

HABERMAS, J. Entre Naturalismo e Religião. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2007.

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