A Civilização desafiada pelo Antropoceno, por Bruno Latour

antropoceno

Publicado no Le Monde, 16.03.2015.

Tradução de André Magnelli e Rafael Damasceno

A Civilização Desafiada pelo Antropoceno

Admiramos no Museu do Quai-Branly[1] os maravilhosos restos de múltiplas culturas que desapareceram para sempre. Nós as observamos hoje de uma forma completamente diferente. Por que? É porque, a partir de agora, são as culturas às quais pertencem os visitantes que parecem ameaçadas de desaparecimento. Eis que muda, então, o olhar, uma vez que aparece agora uma espécie de conivência um pouco trágica entre os visitantes contemporâneos e os povos antigos.

Ou antes, é a noção de cultura, como estando separada da natureza, que parece mais incerta. A imprensa nos lembra todos os dias, com efeito, que nós deveríamos dirigir nossos olhares em direção a um conjunto de seres – os ventos, os mares, os céus, os furacões, as sementes, as genealogias, as montanhas ou os vulcões -, que encontramos mencionados a todo momento no texto das manchetes, que nos explicam as peças a descobrir nas vitrines. Não podemos deixar então de dizer a nós mesmos: “Olha, eles também buscavam, pelo desvio destas obras admiráveis, entrar em relação com estas forças cuja presença pesa de novo sobre nós”. Se eles estavam desmunidos diante delas, nós também o estamos aparentemente.

Este sentimento de conivência se acentua ainda mais se visitamos em Lyon o novo Museu das Confluências.[2] No fim desta ponte de sedimento, não há somente a Saône e o Rhône, que se reúnem, mas – o que é mais raro – as coleções ditas etnográficas e as ditas científicas e técnicas. Nas mesmas salas, lado a lado, descobrimos as mais estranhas espécies que a evolução dos vivos deixou nas rochas e os mais estranhos objetos que os exploradores e missionários trouxeram de suas expedições a estes povos que o império da modernização estava em vias de fazer desaparecer. Ainda há dez anos, uma tal justaposição teria parecido, senão escandalosa, ao menos superficial, estética. Ela teria divertido. Ora, não sorrimos mais de forma alguma. Comparamos. Ponderamos. Aprendemos.

É que os visitantes que se amontoam se tornaram, há pouco tempo, e em grande número, os contemporâneos do que os geólogos propõem chamar o Antropoceno – a época da Terra da qual eles dizem, trazendo argumentos bastante pesados, que é o humano que a modela com mais amplitude. E eis aí o suficiente para mudar o olhar sobre os tempos antigos. Se podíamos olhar com uma nostalgia divertida os traços daqueles que tinham medo de que o céu caísse sobre suas cabeças, observamos, a partir de agora, com uma espécie de humildade compartilhada, os futuros traços destes que sabem que podem, com efeito, fazer o céu cair sobre as cabeças…

Aliás, os visitantes podem testar esta inversão de olhar passando na “câmara das maravilhas”, que é uma reconstituição meticulosa de um gabinete de curiosidades que um rico colecionador tinha podido reunir na virada da revolução científica.

Tudo aí está, com efeito, misturado: as maravilhas da natureza, da mitologia, das culturas e das técnicas. Mas esse gabinete do século XVI reage sobre o museu do século XXI. Não se trata mais de se maravilhar, mas de compartilhar uma situação onde tudo se mistura de novo e onde é preciso tentar sair daí – para evitar desaparecer. Daí a atenção um pouco inquieta das multidões que afluem para as ciências e que um dia souberam se distinguir do resto da cultura, mas que se acham nela de novo mergulhadas. A experiência é bastante perturbadora: passamos de um gabinete de curiosidades em que tudo se misturava a um gabinete de um novo gênero em que é preciso de novo tudo compor. Entre os dois, um longo parêntese que nos parece, a partir de então, muito antigo, quando as ciências e os mitos andavam a maior parte do caminho como sendo distintos sem jamais se cruzar – pensava-se.

Essa exigência de compor tudo de novo, nós jamais a experimentamos melhor, nos dias de hoje, do que com a negociação sobre o clima que acontecerá [aconteceu] em dezembro de 2015, em Paris. Esta conferência (COP21) parece tão enigmática quanto as salas do Museu das Confluências. Ao falarmos de redução de CO2, estamos falando certamente de ciência; mas quando se fala em “dividir o fardo” entre os países que são desenvolvidos e aqueles que clamam pelo desenvolvimento, eis que nós mergulhamos nas questões de justiça e responsabilidade histórica; mas nos é dito – o que complica ainda mais as coisas – que há vinte anos os Estados discutem e não chegam a nada, e que seria necessário um acordo de responsabilidade individual e cidadã. Mas como? Com qual força? Com quais repertórios afetivos, intelectuais, quais instrumentos? Com quais conhecimentos nós supomos estar à altura de tais questões?

Ao colocar-nos sob a injunção do Antropoceno, nos é afirmado que é necessário compor as questões de natureza e cultura, os resultados das ciências e as exigências éticas e políticas, mas nada nos é dito sobre como afrontar essas misturas, sobre como confrontar esses desafios ou nos equipar para superá-los. O conhecimento por si só, é claro, não é suficiente. O consenso dos pesquisadores não desencadeou uma ação decisiva. Quanto mais eles sabem, mais hesitamos e evitamos agir. Trata-se então de outra coisa. Trata-se de uma outra maneira de ocupar a Terra e de se reconectar a essas forças das quais se ocupavam as culturas antigas e que nós não sabemos como considerar hoje em dia.

Então as ciências aparecem com toda a sua força antropológica: essa capacidade inata de fazer falar as coisas que nos cercam e de torná-las perceptíveis aos nossos olhos por meio de instrumentos, modelos, cenários, assembleias e disciplinas acadêmicas. Ainda é necessário poder torná-las compatíveis com os outros dispositivos políticos, no caso, os humanos. Se chegássemos a juntar os recursos da arte às ciências, nós começaríamos a ter um pouco de esperança. O Antropoceno então deixaria de ser a descoberta um pouco desesperadora de que os humanos se tornaram uma força geológica, para ser o indício de uma composição completamente diferente: a de uma civilização possível.

[1] Ver o site do Musée du Quai-Branly

[2] Ver o site do Musée des Confluences

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