Homenagem a Ricardo Benzaquen de Araújo (1952-2017)

benzaca

Em homenagem ao professor Ricardo Benzaquen de Araújo, o Blog do Sociofilo traz, nesta quarta-feira de cinzas em que se completa um mês de seu falecimento, uma série de depoimentos de amigos, colegas de trabalho, orientandos e alunos, dentre os quais Maria Alice Rezende de Carvalho, Luiz Eduardo Soares, Luiza Larangeira da Silva Mello, Kelly Pedroza, Eduardo Fernandes Nazareth, Glauber Lemos, Paulo Henrique Granafei, Paulo Henrique Cassimiro e Felipe Charbel.

Maria Alice Rezende de Carvalho

Faleceu Ricardo Augusto Benzaquen de Araújo (1952-2017), Ricardo Benzaquen, um dos mais notáveis intelectuais brasileiros de sua geração.

Ricardo viveu em luta com seu corpo. Indisciplinado em algumas dimensões da vida e absolutamente rigoroso em outras, é difícil traduzi-lo sem essa chave. E lutar, aqui, não tem apenas o sentido de oferecer combate à doença ou à dor, mas também o de driblar a sua condição física, fazendo dela um tipo de informação, uma “cultura” fertilizadora da sua experiência subjetiva. Aliás, parte do seu carisma vinha exatamente do cultivo dos seus sintomas – quem não ouviu falar de sua lendária proeza, que consistia em dormir dando aula e voltar a falar no ponto exato em que havia interrompido a explanação?

Tópico reiterado em comentários recentes sobre Ricardo Benzaquen tem sido o da sua inesquecível atuação como professor. O hexis corporal do mestre – que se traduzia numa forma de se sentar dobrado sobre a barriga, sublinhando o cansaço pela noite mal dormida; no recurso constante à leitura de trechos de livros em sala de aula; na visão prejudicada por óculos defasados em muitos graus; na rapidez de raciocínio, que resultava no atropelo das palavras – religou várias gerações de alunos a uma cena universitária weberiana e a um tipo de maestria posta em desuso pela universidade atual. De modo que o elogio à prática de Ricardo Benzaquen como professor não serve apenas à sua memória: a “técnica corporal” que ele encenou por décadas o inscreve em uma comunidade docente – da qual já participam muitos de seus ex-alunos – que valoriza a relação feliz entre exigências da institucionalidade acadêmica e deleite criativo.

O trânsito entre objetivo e subjetivo foi, de fato, seu grande programa; e Georg Simmel o autor de sua predileção. Até a década de 1990, Georg Simmel era assimilado no debate acadêmico como o sociólogo que expôs a crise da boa articulação entre o externo e o interno, que prevalecera durante parte dos séculos 17 e 18. Tal conexão, de acordo com Simmel, havia sido obstruída pela intensificação da divisão social do trabalho, que ampliou desmesuradamente o mundo objetivo. A partir de meados do século 19, portanto, a possibilidade de aperfeiçoamento interior dos sujeitos se esgotara: eles não mais seriam adubados, fertilizados, como na metáfora romântica dos jardins, porque na nova “civilização das metrópoles” seus núcleos internos seriam radicalmente transformados. Para Simmel, a era das mercadorias não dá lugar ao colorido e ao desenvolvimento peculiar de cada experiência; o homem da multidão, indiferenciado e submetido à proliferação de estímulos do mundo objetivo, é dirigido de fora para dentro, sem o feliz equilíbrio entre o externo e o interno.

Esse foi o Simmel recepcionado pela Escola de Chicago e que, entre a segunda guerra mundial e os anos 90 do século passado, conformou um grande campo de estudos sobre sociabilidades no mundo urbano, especialmente nas metrópoles. Foi com ele que Ricardo se defrontou quando, em março de 1975 começou a cursar o mestrado em antropologia social do Museu Nacional. Até aquele momento, como revelou a entrevistadores da Revista de História da Biblioteca Nacional, havia sido formado “em uma instituição muito próxima do marxismo […] e começara a trabalhar com autores ligados à sociologia francesa”. Ricardo, de fato, havia estudado na Escola de Aplicação da UFRJ (1967-1970) e no Departamento de História da PUC-Rio (1970-1974), em um contexto de aberto endurecimento da ditadura militar no Brasil, quando também avançaram os estudos marxistas em algumas escolas-chave da elite intelectual carioca. Ao lado disso, a tradição sociológica francesa ajudou a compor um ambiente acadêmico vincado pelas teorias da estruturação, nas quais, para Ricardo, “as categorias e classificações eram bem armadas e definidas”. Por isso, naqueles anos, “[…] ler Casa-Grande & Senzala foi uma experiência inesquecível”, a que se associou o contato com as obras de autores como Simmel e Gabriel Tarde, que “continham uma fluidez e uma ambigüidade ausentes na tradição do marxismo e da escola sociológica francesa”.

Sua dissertação, contudo, não foi sobre Gilberto Freyre. Em 1980, Ricardo Benzaquen concluiu seu mestrado com “Os gênios da pelota: um estudo do futebol como profissão”. Sob a orientação de Gilberto Velho, a dissertação aciona as discussões de um grupo de alunos e professores do Museu Nacional sobre o individualismo, entendido como categoria básica da sociedade ocidental. A dissertação é preciosa, embora pouco conhecida, pois não chegou a ser publicada. Há vários aspectos que poderiam servir como fio condutor para a apresentação do trabalho – um deles, a noção de que o mundo do futebol é regido por valores individualistas, sendo o jogador brasileiro, mais do que o europeu, a expressão exasperada da individualização, na medida em que dele se espera o brilho pessoal, singular, em contraste com o estilo de jogo mais coletivo que tem assentamento em outros contextos nacionais. Metodologicamente, já está ali, como se vê, a questão do equilíbrio entre dimensões contrapostas, tais como singularidade vs. equipe; talento vs. disciplina, que atuam na conformação do jogador e que não são excludentes – construção analítica que Ricardo emprestará à obra Gilberto Freyre no premiado livro Guerra e PazCasa Grande & Senzala e a obra de Gilberto Freyre nos anos 30.

O enfrentamento com Gilberto Freyre, originalmente, foi tenso. Seu texto lhe parecia confuso, pois não oferecia grandes planos da vida social. Além disso, como registrou Benzaquen, “[…] sua prosa era marcada por certo tipo de narrativa oral, que ia e voltava:[…] tive dificuldade [para] compreender a melhor maneira de lidar com aquilo.” A familiaridade com Freyre, porém, foi sendo conquistada com a ajuda de Simmel, mais precisamente de uma segunda onda de recepção simmeliana, que trouxe textos do autor ainda pouco conhecidos e inscritos no contexto da vida intelectual alemã, nos quais o diálogo com as artes e movimentos de vanguarda prescrevia a positividade de paradoxos e ambivalências. O ponto, aqui, encurtando muito o argumento, diz respeito a uma nova modulação das análises de Simmel sobre as metrópoles ocidentais, considerando que o homem da multidão não tinha como destino necessário o seu esmagamento pela cultura objetiva, a atrofia da dimensão subjetiva e a melancolia. Em uma série de grandes cidades, o sujeito não vive a homogeneização característica das metrópoles.  Roma, por exemplo, é um lugar em que diferentes planos se combinam – o alto e o baixo, o antigo e o moderno, sem que a “experiência do choque”, mencionada por Walter Benjamin, se instale…

Com Freyre, Ricardo apontou um Brasil constituído por heranças culturais que nunca se combinaram completamente. “Elas se aproximam, entram em contato umas com as outras, dialogam fortemente entre si, mas nunca perdem as suas características específicas, definidoras – o que faz do Brasil um país de natureza instável, já que essas diferenças permanecem vivas. […] É o que Gilberto vai chamar de ‘riqueza de antagonismos’”. Com Freyre, Ricardo apreendeu uma vida social muito mais frouxa, anárquica, em que as paixões jogam um papel crucial. E o livro que escreveu – Guerra e PazCasa Grande & Senzala e a obra de Gilberto Freyre nos anos 30 – é tão importante porque, não somente explicitou a perspectiva freyreana do “antagonismo em equilíbrio”, mas porque consagrou um modo de articular vida e obra do autor, sublinhando como se objetivam, no texto, as tensões presentes na experiência intelectual brasileira dos anos de 1930. Como todos os “clássicos” em ciências sociais, Guerra e Paz é um modo de pensar, um desenho intelectual, que, nesse caso, fala de Freyre & Benzaquen.

Luiz Eduardo Soares

Ricardinho,
pequena homenagem à sua memória

Essas lembranças são uma pequena homenagem à memória de Ricardo Benzaquen de Araújo, amigo da vida toda. Se me incluo no relato, é porque, em vez de uma descrição distante e objetiva de sua obra, prefiro dar o testemunho dos efeitos de sua presença em minha vida.

Conheci Ricardo nos pilotis da PUC, no Rio de Janeiro, no início dos anos 1970. Eu, calouro, ele já na metade do curso; eu em Letras, ele em História. A despeito das escolhas diferentes, logo nos encontramos nas admirações comuns, entre elas, e com destaque, o professor Luiz Costa Lima. Lembro das conversas animadas com uma tribo muito interessante, que incluía Sérvulo Figueira, George Lamaziére e Eduardo Viveiros de Castro. Apesar da atmosfera carregada –afinal, vivíamos os anos mais sombrios da ditadura–, havia ali uma vitalidade apaixonante. Éramos ambiciosos, irônicos e críticos corrosivos de quase tudo, e nos divertíamos, sem perder a conexão com o sentido dramático do tempo. 
Pessoalmente, eu não queria muita coisa, só mudar o mundo, e Ricardo, cujos sonhos de mudança não eram menos ardentes, tinha, mais que eu, os pés no chão e a cabeça no lugar: ele me dava a mão e me devolvia à realidade, em sua extraordinária complexidade, suas contingências, variações, incertezas, em sua imprevisibilidade. Ele me ensinava, sem assumir tom professoral, que entre cores opostas e polos antagônicos havia todo um gradiente, cuja percepção exigia sensibilidade refinada e adestrada pela erudição. Ricardo mostrava que sob a grandiloquência das ideologias germinava a despotencialização do pensamento, debaixo do manto sagrado das utopias heroicas oculatavam-se pesadelos totalitários. Nossa amizade era o mais poderoso antídoto às tentações da Hybris. Por outro lado, o ceticismo de Ricardo era risonho e leve, delicado e afetuoso, nunca ríspido, jamais arrogante, e não conduzia ao imobilismo ou à resignação. Esse híbrido formava um cristal precioso, uma obra holográfica que resultaria em auto-construção original e luminosa. Por isso, desde o primeiro dia e para sempre, Ricardinho.

Só havia uma nota destoante: Ricardo era o vascaíno do grupo, o que contrastava com suas inclinações céticas. Ele nascera para ser botafoguense, dizíamos; um acidente infantil provavelmente confundira, em seu espírito, os pretos e brancos.

Voltaríamos a nos encontrar no PPGAS do Museu Nacional, estudando antropologia, e, bem mais tarde, compartilhando laços afetivos e intelectuais com Otavio Velho, seu orientador no doutorado, meu orientador no mestrado, nosso mentor e amigo. Durante 14 anos, entre 1987 e 2000, como professores do antigo IUPERJ, fomos vizinhos de sala, separados por uma divisória fina e frágil. Passávamos dias e, tantas vezes, noites, lado a lado, às vezes os fins de semana, compartilhando o cafezinho e conversas intermináveis. Desde então, penso em nosso convívio como uma única e longa conversa que se estende e desdobra, sem fim, apenas interrompida para os ossos do ofício. Mesmo quando a vida nos afastou, sua voz ressoava, risonha e melancólica, me alertando para o fato de que nada está resolvido, jamais suficientemente compreendido, e, por isso, convém evitar julgamentos e sentenças definitivas. Conhecimento é ciclo infinito da leitura dos leitores de sucessivas gerações e da escuta paciente das palavras. Ricardinho exerceu a erudição como poucos em nosso país, não como atletismo da soberba, mas, ao contrário, como antídoto à onisciência.  
Agora, o intervalo, a conversa interrompida, resta a tarefa de ajudar tantos irmãos, órfãos de sua amizade, a fazer ecoar o rumor generoso, doce e amargo, de sua sabedoria e de seu amor.

Luiza Larangeira da Silva Mello

A Bildung ricardiana

Jean-Pierre Vernant nos conta que, na Grécia arcaica, a relação dos homens com a morte estava estreitamente relacionada a sua concepção de pessoa. Como entre os gregos dos tempos homéricos “cada um existe em função de outrem, sob o olhar e pelos olhos de outrem […], a verdadeira morte é o esquecimento, o silêncio, a obscura indignidade, a ausência de fama. Ao contrário, existir é – esteja-se vivo ou morto – ser reconhecido, estimado, honrado”. Hoje, a ideia de que a existência de alguém possa ser assegurada pela memória de seus feitos parece-nos imperfeita e insuficiente. Talvez por isso, embora as inúmeras homenagens que se seguiram à morte do professor Ricardo Benzaquen, nas últimas semanas, possam trazer algum conforto para aqueles que o conheceram, elas não são capazes de preencher o imenso vazio deixado pelo desaparecimento de sua presença viva e imediata. Elas nos ajudam, entretanto, a pensar a ferida aberta pela morte do amigo e do professor tão querido (Ricardo usava recorrentemente, em suas aulas, o verbo “pensar” no sentido de aplicar um penso, fazer um curativo, juntar as duas bordas de uma ferida para curá-la, enquanto juntava no ar os dois dedos indicadores para que seus alunos formassem a imagem mental desse uso tão peculiar da palavra…).

Pensar a morte de Ricardo Benzaquen nos leva, quase inevitavelmente, a pensar o papel formador que teve na vida de seus alunos, de seus orientandos, de seus amigos, de suas filhas. Ricardo foi responsável pela Bildung de algumas gerações de intelectuais, transmitindo-nos seus conhecimentos através de uma tópica tanto peculiar e idiossincrática quanto extremamente erudita. Entre seus topoi, estavam a teoria dos humores, a plasticidade, os “exercícios espirituais”, a sinceridade e a autenticidade, o amor e a amizade, a aspiração, a vocação, a flexibilidade do self, a sprezzatura, o caráter blasé, o corpo místico do rei, a bela morte. Provenientes de autores tão diversos quanto o pseudo-Aristóteles do Problema XXX.1, Ernst Kantorowicz, Stephen Greenblatt, ou Pierre Hadot, entre outros, esses motivos, criativamente apropriados por Ricardo, convertiam-se em artifícios hermenêuticos que nos ajudavam a lidar com os mais diferentes temas de estudo. A familiaridade com essa “tópica ricardiana” nos proporcionava uma reconfortante sensação de pertencimento; fazia com que nós, seus alunos e amigos, sentíssemo-nos de algum modo especiais, como iniciados em um culto de mistério que se reconhecem por um sorriso, uma expressão, alguma marca exterior ilegível para a maioria. Mas, paradoxalmente, a generosidade de Ricardo com o conhecimento, expressão de sua vocação de formador, fazia com que o “mistério” estivesse ao alcance de todos os que assistiam a suas aulas, ouviam suas palestras (ou seus sempre instigantes comentários a palestras de outrem); de todos que batiam um papo com ele em mesas de café, de almoço ou de jantar. Assim, a tópica de Ricardo era seu dom, oferecido gratuitamente, e incorporado, adaptado, modificado por aqueles que ele formava.

Um de seus topoi favoritos provinha do Velho Testamento: a imagem de Deus modelando o homem do barro e soprando em suas narinas o pneuma criador, o ânimo, a vida (e Ricardo imitava com suas mãos o gesto divino da modelagem desse Adão imaginário). Essa imagem costumava acompanhar a leitura da Oração sobre a Dignidade do Homem, de Pico della Mirandola. Ricardo nos dizia que esse homem modelado no barro, uma vez vivificado pelo pneuma divino, passava a modelar-se a si mesmo, aproximando-se, segundos suas ações, escolhas, virtudes e vícios, da beatitude dos anjos ou da estupidez das bestas ¾ mais comumente alternando entre diferentes estados e graus de beatitude e estupidez. Não espanta que esse fosse um topos caro a um professor que era capaz de modelar seus alunos usando as fôrmas de sua tópica particular e, ao mesmo tempo, generosamente, infundir-lhes o pneuma que lhes garantia sua autonomia intelectual, sua capacidade de se automodelar.

Kelly Pedroza

Conheci Ricardo Benzaquen em 2007, quando ingressei no Programa de Pós-Graduação em Sociologia do Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro). Ricardo foi meu orientador no Mestrado e no Doutorado. Sempre gentil, sempre com pressa, Ricardo orientava muitos estudantes, ministrava disciplinas tanto na graduação (em História, na PUC-Rio), quanto na pós-graduação. Na primeira disciplina que cursei – Teoria Sociológica I -, ministrada por ele, conheci o rigor acadêmico, a erudição e a generosidade de Ricardo.

Eu fiz parte de uma geração de pós-graduandos caracterizada pelo ingresso bastante jovem no mestrado, vindos diretamente da graduação, muitas vezes sem experiência profissional na área além das atividades de iniciação científica. Na verdade, não me encaixava exatamente neste perfil: fui ao mesmo tempo estudante universitária e trabalhadora e, já no mestrado, iniciava minha trajetória de docência na educação básica.

A docência já ocupava um espaço importante na maneira pela qual eu compreendia minha atuação nas Ciências Sociais, mas ser aluna e orientanda de Ricardo Benzaquen reafirmou o sentido desta minha escolha. Reafirmou a humanidade e a potência da docência, além dos seus imensos desafios. No período em que convivemos, entre 2007 e 2015, Benzaquen dedicava-se prioritariamente às atividades de sala de aula e orientação. Queixava-se, em diversas situações, do pouco tempo que lhe sobrava para realizar pesquisas e escrever. Mais do que uma condição localizada, particular, seu incômodo dizia respeito a algo maior, à mudança de perfil da profissão e aos limites cada vez mais problemáticos entre produção de conhecimento e exigência de produtividade na docência superior.

Se a carreira acadêmica contemporânea exigia rapidez na produção, Ricardo propunha passos lentos, mas persistentes. A cada mapa conceitual que garantia a mim algumas certezas sobre Teoria Social, ele embaralhava as referências, as áreas; abria janelas, ao invés de encerrar as Ciências Sociais em gavetas. E os momentos privilegiados onde isso acontecia eram as aulas, as reuniões de orientação. As lembranças que tenho de Ricardo são as do grande professor; das suas aulas, de suas histórias. Ainda que mergulhado em um contexto profissional difícil, Benzaquen não sucumbiu ao pragmatismo no trato com os estudantes e orientandos.

Em algumas dimensões, as Ciências Sociais são belas: com Benzaquen, a manifestação desta beleza acontecia no estar junto, nas aulas, na história contada com humor, nos comentários rigorosos ao texto escrito, na contribuição primorosa aos trabalhos dos estudantes. Era impressionante ouvir o que Ricardo tinha a dizer sobre algo; e era particularmente especial ouvi-lo apresentar um texto seu, pois sua presença amplificava toda a força de uma argumentação erudita, criativa e habilmente construída. Com Ricardo, a beleza das Ciências Sociais manifestava-se na figura do grande professor.

Eduardo Fernandes Nazareth

Já faz mais de dez anos quando ainda no começo do mestrado, no então Iuperj, conheci Ricardo Benzaquen; digo pessoalmente, porque pra mim ele já era uma “referência bibliográfica”. É que eu havia estudado na graduação um importante antropólogo brasileiro da década de 1930, Arthur Ramos.

Dediquei-me ao aspecto racial de sua obra, razão pela qual Gilberto Freyre e especialmente a inovadora interpretação de Ricardo acerca de sua obra eram já conhecidos por mim. De modo que, diante daquele momento do mestrado em que deveria encontrar um orientador, Ricardo evidentemente seria uma tentativa óbvia. Já não me lembro ao certo como foi, mas marcamos uma conversa. Só me lembro daquela sensação mais viva quando se inicia de ir falar com a “bibliografia”. Não sabia o que esperar.  Só consigo me recordar vagamente da tensão por conversar com alguém que pra mim era, como disse, referênciabibliografia. Mas o que ficou mais forte em minha memória foi o contraste entre os meus temores e minha insegurança e a sua amabilidade, sua cordialidade e simpatia, mas acima de tudo seu respeito para com aquele jovem que adentrava a sua pequena sala próxima à escada de caracol no segundo andar do sobrado do que é hoje o Iesp.

Benzaquen se tornaria meu orientador. Nossos encontros eram sempre enriquecedores. Notava-se sempre o grande esforço pessoal do orientador e sua cativante preocupação com o orientando. Ricardo era sempre muito simpático, generoso, afetuoso e agradável. Os encontros não eram tão frequentes quanto gostaria; eram muitos os orientandos, do Iuperj, da Puc. Se não podíamos nos encontrar, no entanto, o telefone estava sempre à disposição. Não foram raras as vezes em que conversamos por 20, 30 minutos. Estava sempre disposto a ajudar ao máximo no desenvolvimento e na riqueza do trabalho. O que não significava que deixasse de ser rigoroso com o padrão de excelência. Muito pelo contrário. Mas mesmo diante de um texto que precisava melhorar bastante, de um raciocínio equivocado, o respeito, a simpatia, a compreensão e até o carinho que emanavam da sua sinceridade. De minha parte, minha dissertação não foi lá grande coisa, em razão do tempo, das circunstâncias… Ricardo só me ajudou, sem me poupar de merecidas e sempre construtivas críticas, é claro. Tudo isso foi muito importante para conclusão da dissertação a tempo de tentar a tão desejada (e alcançada) passagem direta para o doutorado. Mas talvez a marca mais decisiva que Ricardo deixou sobre a minha trajetória tenha sido ter aberto a possibilidade de tratar com seriedade de um tema caro a mim e fundamental a minha formação pessoal, o esporte.

Na época em que nos conhecemos, Ricardo ensaiava uma tentativa de retomar o tema do futebol, com o qual se envolvera no seu mestrado. Ele era um apaixonado pelo esporte bretão. Ter tido contato com ele nesse momento foi definitivo do caminho que trilharia. No segundo ano do mestrado ele me perguntou se eu não gostaria de escrever sobre esporte. Naquela ocasião eu achei que não teria tempo hábil para começar atratar de um novo assunto. Mas a ideia ficou. De certo modo ele me fez crer que o esporte, mais do que uma memória dos grandes tempos ou uma paixão viva, poderia ser um objeto de estudos sociologicamente riquíssimo e com o qual, segundo ele, eu parecia me identificar. Minha tese de doutorado (mais tarde premiada e publicada) seria sobre esportes coletivos. Foi uma virada muito importante pra mim, em vários sentidos. Obrigado, Ricardo! 

Glauber Lemos

A pedido dos amigos do SocioFilo, é com pesar que escrevo estas linhas para homenagear o professor Ricardo Benzaquen, o Ricardinho, que nos deixou no primeiro dia deste fevereiro de 2017.Tive a honra e o privilégio de ser seu aluno em disciplinas ministradas no antigo Iuperj, no atual Iesp e na PUC-Rio, além de orientando do mestrado em sociologia. É a partir dessa curta convivência que extraio a importância do professor para as ciências sociais brasileiras e para a trajetória de todos aqueles que passaram por suas aulas.

Graduado em História, com mestrado e doutorado em Antropologia pelo Museu Nacional (UFRJ), Ricardo Benzaquen, com alguma ironia, se referia ao início de sua carreira acadêmica como a de um “professor de História Clássica e Medieval”, como se fosse possível para seu rigor particular conciliar em uma mesma disciplina estes dois períodos históricos. Para além de sua erudita formação de historiador, desde suas primeiras pesquisas fica evidente o interesse por temas da realidade brasileira, tendo realizado estudos que se concentraram sobre fenômenos como o futebol e o movimento Integralista de Plínio Salgado.

Contudo, não há dúvidas que a maior contribuição intelectual de Benzaquen para nossas ciências da sociedade tenha sido resgatar, através de sua tese de doutoramento que posteriormente seria vertida em premiado livro, a obra e o pensamento de Gilberto Freyre. A despeito das tendências que reduziam o pernambucano a um caricato defensor do regime militar, autor desprezível a quem não valeria a pena dedicar um trabalho acadêmico, Ricardo Benzaquen se estabelecera como um dos grandes intérpretes do pensamento social brasileiro ao se debruçar sobre a sofisticada obra Casa Grande & Senzala e extrair dela um conjunto de sentidos que até então permanecia soterrado por uma série de meias verdades e críticas equivocadas escritas a respeito de seu autor.

Ao longo de aulas e conversas com o professor Benzaquen, frequentemente ele se referia a Freyre como um escritor que causara nele surpresa tremenda, uma confusão de argumentos que o tirara dos esquemas conceituais com os quais seu treinamento nas ciências sociais, fortemente influenciado pelo marxismo francês, havia se habituado. Foi da leitura desafiadora de Freyre que resultou “Guerra e Paz: Casa Grande & Senzala e a Obra de Gilberto Freyre nos anos 30” (1994, Ed. 34), sem dúvidas o melhor livro já publicado sobre o escritor pernambucano. Neste trabalho Ricardo Benzaquen combina com excelência seu conhecido rigor metodológico e a singular erudição humanística em uma crítica que reabriu os horizontes interpretativos da tradição freyriana, incorporando-o de forma definitiva ao modernismo brasileiro. Mas o legado do querido professor não se encerraria neste trabalho.

Seus cursos, bem como diversos de seus ensaios publicados dispersamente em coletâneas e revistas, são representativos de um conjunto variado de interesses. A erudição dava a tônica de suas disciplinas, que contrariavam quaisquer esquemas sistemáticos para apresentar aos alunos suas visões sobre a modernidade, as noções de pessoa e de indivíduo, a vida intelectual em fin de siécle (lembro-me de um curso a respeito do tema denominado “Vida sem Espírito”), ou do modernismo brasileiro. Há, ainda, as leituras singulares de textos que já há muito eram considerados clássicos das ciências sociais. Foi assim, por exemplo, que redescobri Max Weber, a partir da releitura de A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, e principalmente da seminal conferência Ciência como Vocação, ambas realizadas por Benzaquen em suas aulas de Teoria Sociológica I, no Iuperj.

Foi assim, também, que conheci a fundo os trabalhos de Georg Simmel, Ernst Kantorowicz, Carl Schmmit, Erich Auerbach, Walter Benjamin, Stephen Greenblatt, Luiz Costa Lima, Claude Lévi-Strauss, Marcel Mauss e tantos outros autores que circulavam entre as ementas das disciplinas organizadas por Ricardinho. Essa, talvez, tenha sido a mais intensa experiência acadêmica com a qual eu travei contato. Até então, formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Pernambuco, eu enxergava o meio acadêmico como um grande aquário onde peixes minúsculos, pequenos, médios, grandes e gigantes conviviam em uma experiência profundamente hierárquica.

Era um mundo sem som ou fúria. Apenas peixes tentando galgar espaço na próxima etapa da infindável carreira do homo lattes, traduzindo a si mesmos em artigos escritos e publicados como atum enlatado produzido em fábricas de turnos infinitos. O professor Benzaquen foi o primeiro a me mostrar que nessa hierarquia de peixes e enlatados há mais a se conhecer. Melhor do que ninguém, ele me fez compreender algo que passa desapercebido aos sentidos dos peixes no aquário: o que é a água.

E foi assim, com a humildade e a sabedoria dos justos, que ele me mostrou o caminho, e que eu até hoje eu me esforço para imitá-lo, mesmo sabendo que isso o ofenderia em sua infinita modéstia. Como expressou um amigo em conversa recente, com a precoce partida de nosso professor, nos restou o lamento de não ter podido expressar para ele as palavras que aqui emprego em sua homenagem.

Que esteja em paz, eterno professor Ricardo Benzaquen. Que sua memória esteja viva nos esforços de cada um de seus alunos.

E que Deus nos conforte a todos diante de sua ausência.

Paulo Henrique Granafei

O Heródoto pós-moderno ou: estilo é aquilo que não se percebe

Existe uma fórmula batida, muito empregada para noticiar a morte de grandes jornalistas: “o fim de um estilo”. Apesar de já se ter tornado um clichê, parece-me ser a descrição mais adequada deste acontecimento, tão triste para a comunidade dos cientistas sociais brasileiros, que é partida precoce de Ricardo Benzaquen. Mas fica a incômoda sensação de que, pelo que representou, para mim como para tantos alunos, para não falar de seus leitores, ele merecia um esforço maior. Eu deveria encontrar um modo mais original de sintetizar o sentido de sua trajetória. Pois, então, vamos tentar: o Heródoto pós-moderno se foi. Ou teria sido ele uma espécie de Forrest Gump, só que com cérebro de Einstein? Ou era uma biblioteca viva? Ou o Goethe tupiniquim? Ou um homem da Renascença extemporâneo? Pensando bem, acho que, na verdade, não era nada disso. Não obstante, ao mesmo tempo, tudo isso. Eis a dificuldade de definir o perfil do intelectual que foi Ricardo Benzaquen – igualmente grande como professor. Não porque fosse didático ao extremo – e ele de fato o era. Mas porque, para ele, uma aula era uma peça tão trabalhada, elaborada e rebuscada quanto pode ser um texto, publicado sob a forma de livro ou artigo, que seu autor tenha na conta de sua obra máxima, de culminância de sua vida. Foi esse o aspecto de sua carreira que mais me marcou e, creio, também o que marcou, de modo mais forte e imediato, a maioria dos que tiveram a sorte de conviver com ele. Embora não fosse de seu círculo mais próximo, também não diria que nosso vínculo fosse dos mais remotos, de tantas vezes que fui seu aluno.  

Uma característica de seus cursos era partirem sempre de uma tese pessoal, de elaboração tão profunda, rica e complexa, que o título nunca era suficiente para esclarecer seu conteúdo, algo que, via de regra, demandava uma longa exposição. A compensar a obscuridade do título, a bibliografia era um eficacíssimo instrumento de cooptação: oferecia combinações de textos as mais inusitadas, invariavelmente clássicos consagrados, a despeito de, muitas vezes, esquecidos – não pela qualidade, mas pela antigüidade. Numa disciplina, podiam conversar Weber e Joaquim Nabuco. Noutra, Simmel podia falar de modernidade e se entender com Carl Schmitt a falar de catolicismo, mais Kantorowicz sobre teologia política medieval. E o frankfurtiano Krakauer só não compareceria para tratar de romance policial por falta de tempo. Nesse particular, o tempo podia ser cruel com seus planos de curso. Pelo que lembro, nunca conseguia cobrir o programa inteiro. Assim, uma vez prometera reunir, numa jam session,  Cervantes, Alfred Schutz e um Weber tratando de China, para um curso sobre a construção do self na Renascença, mas acabou gastando o semestre quase inteiro para tratar de Baldassar Castiglione.

Isso acontecia pela própria maneira como os preparava e ensinava. Fazia sempre uma longuíssima digressão para introduzir cada personagem, obra, autor, conceito, retraçando sua genealogia quase até Adão e Eva. À maneira de Heródoto, o pai da historiografia grega. Quem leu o historiador grego entenderá facilmente a comparação. Para os que não o leram, explico: para tratar da guerra entre gregos e persas, o historiador relatava a história do reino persa desde a origem; para isso narrava a história de suas conquistas, de onde era levado à história de seus conquistados, também desde as origens; entremeando esses relatos com a história de cada líder, por vezes remetendo-se inclusive à história de sua família. A estrutura do argumento de Benzaquen seguia lógica parecida. Assim, por exemplo, em uma disciplina tratando de subjetividade no Brasil Império, era capaz de dar uma aula magistral sobre o debate em torno das origens do capitalismo, passando por Marx e Sombart, para finalmente chegar à “Ética Protestante” de Weber, que depois seria mobilizada e interpretada a partir de outro problema. Se o aluno não tomasse cuidado, corria o risco de perder o fio que costurava as aulas do início ao fim do semestre, fascinado com os arabescos, frisas e rodeios da construção – tal como acontece na leitura de Heródoto. Isso acontecia comigo com frequência. Sou capaz de lembrar e reproduzir o conteúdo de muitas aulas individualmente, mas precisaria estudar minhas anotações para recompor a estrutura de seus cursos. Desconfio que, talvez, o próprio Benzaquen se deixasse levar e envolver por suas digressões, descobrindo detalhes e relações que só se revelavam no momento da exposição.

No início eu tinha a impressão de que era simplesmente prolixo. O que não me impedia, já no primeiro contato, de considerar suas aulas muito bem dadas e altamente informativas. Repito até hoje, para meus alunos, versões resumidas e simplificadas de suas aulas sobre Weber e Sérgio Buarque. Eram tão boas que causavam a impressão de ser a melhor maneira, quando não a única possível, de abordar o seu tema. Tinham a perfeição de uma verdade apodítica. Era como se, nelas, o autor, o texto e o assunto tratados impusessem aquele enquadramento. De tal modo que meu sonho de consumo era, quando viesse a ser professor, dar aulas como aquelas.

À medida que fui fazendo mais cursos com Benzaquen e amadurecendo intelectualmente, fui entender que isso nunca aconteceria. Numa hipótese otimista e inverossímil, eu poderia acumular erudição comparável à sua e, ainda assim, não conseguiria dar um curso, nem sequer uma aula equivalentes. Fui, aos poucos, me dando conta de que a sua abordagem não era a única, nem decorria naturalmente do seu objeto. Era uma opção. Do mesmo modo que aquilo que, à primeira vista, soara como uma tendência a ser prolixo. Não. Aquilo era proposital, era o resultado de um imenso esforço de erudição e de um enfoque muito pessoal e particular de uma questão. Tão bem pensado e executado, que o ouvinte não o percebia, podendo inclusive cair na ilusão de estar diante da única forma concebível de expor o tópico. Era um estilo. Único e irrepetível, como todo bom estilo. Perceptível apenas pelos escolados. Como todo bom estilo.

Portanto resistente a qualquer tentativa de defini-lo. Por aproximação, eu arriscaria dizer que, embora não o fosse de modo exclusivo, Benzaquen era praticante de uma antropologia histórica dos intelectuais. Pelo menos no que eu o acompanhei. Hoje, fica claro pra mim que, ao invés de simplesmente uma fala prolixa, as longas digressões faziam uma glosa dos textos. Fazia isso com um método e uma minúcia característicos de um filósofo, mas para entrar na seara de um historiador. Fazia exegese dos textos, fossem de filósofos ou não, para deles extrair filosofia, mas não para ponderar-lhes o mérito e fertilidade teóricas; queria, antes, trazer à luz as filosofias e conceitos vividos, implícitos nestes textos, facilmente legíveis aos contemporâneos, mas depois esquecidos, imperceptíveis para nós, pósteros. Seu interesse não era a filosofia livresca passível de formalização em axiomas, estritamente obediente a princípios lógicos; o que atraía sua atenção era a filosofia “com gente dentro”, presente não só nas mentes e colóquios dos acadêmicos, mas conformadora e orientadora de sua própria existência. Aquelas idéias que, durante a época de um autor, estavam no ar que respirava.

Uma de suas aulas que mais me marcaram se baseava numa extensa bibliografia, que incluía nada menos que três biografias de Lukács. Benzaquen tratava os escritos de Lukács como o topo de um iceberg, o ponto, visível à posteridade, de uma complexa e intrincada trama de debates e conceitos, envolvendo diversas pessoas de carne e osso, como sua paixão, Irma Seidler, que viria a cometer suicídio, impactando radicalmente a sua obra. A história do envolvimento entre os dois permaneceria objeto de controvérsia entre os biógrafos. Desta ambiência, o professor destacava o conceito de “gesto”, fórmula encontrada por um amplo círculo de intelectuais alemães para lidar com a experiência de viver na modernidade, com o sentimento de desenraizamento e desorientação que produzia. Por trás de viradas decisivas na vida e obra de Lukács estaria esta concepção, que só poderia ser compreendida com base numa reconstituição do contexto histórico em que originalmente se situava.

Era um modo de ensinar que ía para além da sala de aula. Benzaquen era famoso por sua disponibilidade. Era bastante comum passarmos pelo seu gabinete e vermos uma pequena fila de alunos aguardando para falar com ele. Pequena fila em se tratando da quantidade de pessoas; se considerássemos o tempo que iria gastar com cada um, sabíamos que aquilo lhe tomaria uma tarde inteira. Ele, no entanto, parecia não se importar. Não marcava o tempo no relógio, ficava com o aluno o quanto fosse necessário. Às vezes era capaz de dar praticamente uma aula particular, tão erudita quanto as coletivas.

Tive o privilégio de algumas dessas longas palestras em privado. Na última, como ninguém esperasse depois de mim e, pelo horário, ele não fosse mais trabalhar, achei oportuno perguntar sobre sua mãe, idosa, pois sabia que ela vinha passando por problemas de saúde. Perguntei por uma certa preocupação com ele e como maneira de retribuir a atenção. Falou-me um pouco da mãe, das filhas, sem esconder o orgulho que sentia por elas, jogamos um pouco de conversa fora.

Era um modo de expressar minha gratidão. Quando assistia seus cursos, tinha o costume de, terminada a aula, ir até ele para pedir referências e aprofundar um pouco mais algum comentário feito durante a sessão. Apesar de esgotado, ele pacientemente explicava, por mais uns minutos, dava indicações de textos. (Aliás, foi numa dessas consultas, perto de concluir a graduação, que ele me orientou em relação à escolha de área e programa de pós-graduação, colocando as variáveis que eu deveria pesar. Em parte por sua influência, ainda que não o intencionasse, fui convencido a tentar o Mestrado em Sociologia do IUPERJ.) Anos depois, olhando pra trás, eu me arrependia, por pena do professor que tinha de ficar ali, por mais vinte minutos ou meia hora, cansado, querendo voltar logo pra casa, retido por um aluno impertinente. Hoje eu sinto o contrário. Fico aliviado de pensar que procurei aprender o máximo com ele. Se há algo para ser lamentado é o fato de não ter acompanhado seus cursos mais clássicos, como o de Teoria Sociológica Clássica, o de Sociologia Francesa, no IUPERJ, ou outro, tão famoso, sobre Kant e a historiografia contemporânea, na PUC.

Seu estilo de ensinar, nesse sentido, era também uma maneira de ser. Isso o tornava único, como o é todo ser humano e, por extensão, todo professor e todo intelectual. Mas há sempre aqueles que deixam marcas mais profundas que outros, por terem alcançado realizações muito acima da média. E o que nos entristece, quando estes partem, é uma dupla perda: a do grande pensador e a do homem, de carne e osso, que, íntimo ou não, nos era querido. Num momento como esses, eu gostaria de acreditar que após a vida nesse mundo os bons vão para o céu. Isso me permitiria imaginar que, a essa altura, estaria lá ele, felicíssimo, a conversar, sobre os mais diversos assuntos, com Kant, Hegel, Simmel, Weber, Malinowski, Kantorowicz – para citar apenas os que me vêm à mente. Com Lukács, também discutiria alguns de seus temas prediletos, como literatura e teoria sociológica. Aproveitaria a oportunidade para pedir esclarecimentos sobre o conceito de “gesto” e o seu envolvimento com Irma Seidler. Eu poderia crer que, no desenrolar da prosa, ao falar sobre o Brasil, fosse levado a explicar a Lukács, com sua glosa erudita, explorando, como só ele sabia fazer, em toda a sua especificidade, riqueza e complexidade, o conceito que exprime meu sentimento e o de tantos, cuja tradução para estrangeiros é tarefa digna de um bom antropólogo, a saber: o conceito de “saudade”.

Paulo Henrique Cassimiro

Ao Lembrar-me de Ricardo Benzaquen me vem sempre à cabeça aquilo a que ele devotou sua vida e cuja paixão contaminava os alunos que o cercavam: os livros. Ao participar em 2010 da comissão que mantinha os alunos informados do destino da biblioteca do hoje extinto Iuperj no contexto de transição para a nova instituição que nascia, o Iesp,  pude compreender o quanto a excelente biblioteca devia ao trabalho atencioso e incansável de Ricardo. Com o tempo um das minhas atividades favoritas era abrir os livros e procurar nas antigas fichas de empréstimos o nome da primeira pessoa a tomar o livro emprestado: quase sempre Ricardo e Cesar Guimaraes intercalavam-se como primeiros locatários das novas obras adquiridas pela biblioteca. Os livros versavam sobre temas os mais diversos, desde estudos sobre o cristianismo primitivo até ensaios sobre Walter Benjamin e a belle époque vienense. A vastidão de interesses e a ausência de rigorismos disciplinares sempre foi uma das suas características que mais me fascinava: lembro-me que, em uma das muitas conversas que tínhamos no começo de suas aulas, eu comentava com ele sobre a obra de Isaiah Berlin, que lia naquela altura em razão da dissertação de mestrado. Ele me dizia que considerava Berlin um autor superestimado, opinião com a qual eu concordava, lembrando-o, contudo, de um belo ensaio que o emigrado russo havia publicado nos anos 50 sobre Dostoievski e Tolstoi, no qual utilizava as imagens da raposa e do ouriço para comparar os dois tipos de intelectuais: se o ouriço caracterizava-se por concentrar-se no conhecimento de uma coisa muito importante, a raposa era marcada pelo pluralismo e a dispersão de interesses. Aquele momento foi um dos poucos em que ouvi Ricardo falando de si mesmo, ao confessar-me que ele encarava sua trajetória intelectual e acadêmica à semelhança da raposa de Berlin, cercado de muitos interesses e temas diversos, sem estender-se perpetuamente em nenhum deles, sem tornar-se um acadêmico marcado pelo signo do “especialista”, apesar do reconhecimento inquestionável de sua autoridade como o maior especialista brasileiro na obra de Gilberto Freire, rendendo-lhe inclusive um Prêmio Jabuti, raro reconhecimento do “mundo exterior” a um trabalho acadêmico, via de regra recluso dentro dos muros da própria comunidade.

Em Ricardo Benzaquen a erudição vinha sempre acompanhada da generosidade. O trato com os alunos foi sempre marcado pela atenção, o carinho, a dedicação. Em todos os seus orientandos sempre foi perceptível a marca da sua personalidade: o gosto pelas ilações inesperadas, as sutilezas interpretativas, a ausência de limitações disciplinares. Ricardo também era conhecido pelo excelente senso de humor e a sempre divertida auto ironia. Eu sempre acreditei – sem que, contudo, houvesse nenhuma prova real – que seu interesse por autores como Gilberto Freire e Plinio Salgado eram movidos não só pela curiosidade intelectual mas também por um certo desejo de provocação, ao insistir em uma interpretação complexa e compreensiva de autores considerados conservadores em um ambiente acadêmico profundamente marcado por pressupostos ideológicos, como aquele no qual no qual se formou nos anos 70 e 80.

Ao olhar para a estante de livros que se encontra atrás de mim enquanto escrevo essas memórias sobre Ricardo Benzaquen vejo que os signos materiais de minha admiração por ele estão por toda parte: algumas dezenas de livros citados ou recomendados por ele que eu corria a comprar na busca de aproximar-me da sua capacidade, erudição e inteligência; alguns destes tornaram-se essenciais para mim, outros provavelmente nunca li e nem lerei, afastado deles pelo tempo e pelas obrigações acadêmicas. Contudo, o signo maior que Ricardo marcou em mim e em muitos de seus alunos e orientandos foi outro: hoje percebo que meu modo de olhar o mundo do espírito está indissoluvelmente moldado pela influência da sua personalidade intelectual. O modo de me aproximar do texto, o desejo de deixa-lo falar por si só sem impor a ele as ansiedades e inquietações da minha visão de mundo, a compreensão de que a única limitação disciplinar real é aquela da nossa própria incapacidade, são traços da minha personalidade que devo inegavelmente a ele. Junto disso fica a saudade pela convivência divertida e pelo carinho com que Ricardo me recebia, sempre com seu sorriso amigável e constante.

Felipe Charbel
É estranho quando um mestre vai embora. Não sei quantos cursos do Ricardo Benzaquen eu segui, na PUC e no antigo IUPERJ. Com ele, tive aulas sobre Simmel, Koselleck, Gilberto Freyre, Joaquim Nabuco, Lévi-Strauss, Hannah Arendt, Weber, Maquiavel, Sérgio Buarque, Capistrano de Abreu, Edward Gibbon, Quentin Skinner, os diários do Malinowski, a história da melancolia, a metafísica dos zagueiros, a modelagem do self na Renascença, a teoria do trágico em Aristóteles, as comédias de Shakespeare, as disciplinas do espírito em Montaigne, o cuidado de si em Pierre Hadot, a mistura de estilos em Auerbach, a alegoria de tudo em Benjamin. É impressionante, mas uma só pessoa me falou sobre tudo isso, me ensinou tudo isso.
 
O Ricardo sempre tinha alguma coisa a dizer — quase sempre a melhor coisa a dizer — sobre qualquer assunto. Foi uma das pessoas mais inteligentes que conheci. Certamente a mais erudita. A sua curiosidade não tinha limites, e ele gostava de virar a noite estudando e preparando aulas. No dia seguinte, chegava em sala cansado e cheio de sono. Às vezes cochilava, e achávamos aquilo divertido, pitoresco. Alguém o acordava, ele sorria para a turma, abria os braços, dizia “enfim” (ele começava todas as frases com “enfim”), e já descansado conectava tudo com tudo. Fazia uma leitura inesperada do texto e, invariavelmente, voltávamos para casa com a impressão de que aquela tinha sido a melhor aula das nossas vidas. Algumas profissões são impossíveis, o Freud já dizia: a medicina, a política, a psicanálise, a educação. O Ricardo fazia o ensino parecer quase possível.
Foi um grande escritor, um intelectual. Para mim, o seu livro sobre Freyre é a ideia do que uma tese deve ser. Dizem que, quando Max Scheler morreu, o Heidegger teria dito (o Ricardo certamente riria dessa referência a Heidegger, acharia despropositada, por mil razões… enfim….), quando Scheler morreu o Heidegger disse: “Max Scheler está morto. Inclinamos a nossa cabeça diante do seu destino. Mais uma vez, uma forma da filosofia cai na escuridão”. É o que sinto com a morte do Ricardo: o que se apagou foi um caminho do pensar. Ele era o pensamento em estado bruto, o pensamento como um fim em si. É muito estranho quando um mestre vai embora, o mundo fica pobre. Enfim…
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