Fantasmas-na-máquina-no-mundo (1): fenomenologia e psico(pato)logia contextual

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Por Gabriel Peters

Fenomenologia e psiquiatria

Uma mirada panorâmica sobre a história da psiquiatria no último século mostrará que, em qualquer momento dado, sempre existiram psiquiatras atraídos pela fenomenologia. De Karl Jaspers e Ludwig Binswanger até Thomas Fuchs e Louis Sass, passando por Eugène Minkowski e Ronald Laing, a influência de orientações fenomenológicas na psiquiatria já conta uns bons cem anos (Spiegelberg, 1972). Grossíssimo modo, essa influência poderia ser descrita como mais ou menos constante, porém invariavelmente minoritária. O influxo da fenomenologia na investigação das psicopatologias contrasta, nesse sentido, com as oscilações radicais de reputação atravessadas, por exemplo, pelas orientações neurobiológicas e psicanalíticas na psiquiatria do século XX (Ghaemi, 2003: 54-77; 311).

Com uma ligeira forçação de barra, pode-se dizer que a psiquiatria, tal como a sociologia, também tem seus três porquinhos clássicos; nesse caso, Emil Kraepelin, Eugen Bleuler e Karl Jaspers. E há pelo menos um vínculo intelectual direto entre os porquinhos sociológicos e os porquinhos psiquiátricos: Jaspers era amigo e fã do nosso velho herói Max Weber (Jaspers, 1977). Mutatis mutandis, tal como Weber havia trilhado uma via média entre monismo naturalista e dualismo interpretativista na epistemologia das ciências humanas, Jaspers defendeu, no seu massudo Psicopatologia geral (1979a; 1979b), que a psiquiatria deveria se manter simultaneamente nos terrenos da ciência natural e das humanidades. Por um lado, ele não se fechou à possibilidade de explicação causal da doença mental por uma via neurofisiológica, como preferiam Kraepelin e seus seguidores. Por outro lado, Jaspers foi um advogado vigoroso da relevância da descrição fenomenológica e de abordagens compreensivas no acesso às experiências interiores dos sujeitos estudados pela psiquiatria.

A despeito da importância histórica de Jaspers, as correntes da psiquiatria que incorporaram sistematicamente as lições da fenomenologia jamais se tornaram hegemônicas no estudo e na terapia das psicopatologias. Não obstante, o termo “fenomenologia” veio a ser frequentemente utilizado por psiquiatras na referência à coleta de informações introspectivas; em outras palavras, na designação da narração, feita pelos próprios pacientes, das vivências em primeira pessoa que servem de material empírico para a pesquisa etiológica e o tratamento psiquiátrico (Sass, 1992: 403). Uma vez que a expressão trata de descrições de experiências subjetivas, o uso do termo não é de todo despropositado. A ideia de que toda análise de psicopatologias inspirada na fenomenologia tenha de envolver uma fidelidade ortodoxa a qualquer dos filósofos associados à tradição, tais como Husserl, Heidegger ou Merleau-Ponty, também pode ser descartada com todo prazer. Entretanto, aquela simples equiparação da palavra “fenomenologia” a catálogos psiquiátricos de experiências vividas em primeira pessoa deixa de um lado um componente importante do legado fenomenológico, qual seja, o compromisso com a descrição abstrata das estruturas básicas da experiência consciente: corporeidade, intencionalidade, percepção, autoidentidade ou “sentido de si”, temporalidade, espacialidade, intersubjetividade e assim por diante (Fuchs, 2002).

Os atos infraconscientes da consciência

Sem implicar uma desvalorização teoricista de vivências singulares, a empreitada fenomenológica mergulha nessas vivências para extrair delas suas formas comuns, as quais subjazem às diferenças nos seus conteúdos específicos. Por exemplo, para melhor entender a percepção sensorial deste ou daquele objeto, a fenomenologia recupera a preocupação transcendental do saudoso Kant e se pergunta: quais são as condições de possibilidade de qualquer percepção sensorial? Fazendo abstração dos diversos objetivos que podemos perseguir em nossas ações, a fenomenologia delineia a estrutura geral dos atos mentais envolvidos na busca de um estado de coisas futuro a partir de nossas condutas no presente. E assim por diante…Almas corajosas que se interessem por enfrentar o mar de complexidade técnica que é a obra de Husserl encontrarão, lá, mais detalhes sobre o método filosófico por ele desenvolvido para captar as propriedades essenciais dos fenômenos que aparecem à consciência. Trata-se da variação eidética: ao imaginar um mesmo fenômeno em modos de aparição propositalmente diversificados, apreende-se a sua essência ou eidos, isto é, o que garante que tais modos distintos de aparição sejam variações do mesmo fenômeno (Husserl, 2006).

Seja como for, também em compasso com a filosofia transcendental de Kant, a exploração fenomenológica da subjetividade a descobre não como uma tela passiva na qual experiências são projetadas a partir de fora, mas como constituinte ativa dos fenômenos que aparecem a ela. A descrição pormenorizada dos atos pelos quais a subjetividade constitui os objetos da sua experiência revela que aqueles atos são, ao mesmo tempo, tremendamente complexos e, no mais das vezes, tácitos; isto é, invisíveis ao foco explícito da consciência. Assim falou Husserl:

A existência prática diária é ingênua. Ela é imersão no mundo já dado, seja pela experiência, pelo pensamento ou pela valoração. Enquanto isso, todas essas funções produtivas internas da experiência, em virtude das quais as coisas físicas estão simplesmente aí, transcorrem anonimamente. O experienciador não sabe nada sobre elas e, de modo similar, nada sobre seu pensamento produtivo. (…) Os números, os complexos predicativos de assuntos, os bens, os fins, os trabalhos se apresentam em virtude da performance oculta” (Husserl, 1973: 152-153).

As experiências mais prosaicas do nosso cotidiano, como o reconhecimento da fisionomia de um amigo ou o percurso até a cozinha para pegar um copo d’água, se revelam, a um olhar mais detido, tarefas cognitivas e práticas espantosamente habilidosas. Precisamente porque as competências que empregamos em tais experiências são tão fluentes, sequer precisamos prestar atenção explícita a elas. É graças às “performances ocultas” da nossa mente que, por exemplo, batemos o olho em um rosto e o reconhecemos como o de nosso amigo. As “funções produtivas internas” envolvidas nessa experiência ordinária vão desde a integração instantânea de estímulos sensoriais particulares em um todo organizado e inteligível (p.ex., já reconhecemos os olhos e o nariz como partes de uma Gestalt: a face de nosso amigo) até o acesso também instantâneo a um banco de memória no qual esse rosto está “armazenado”. A reconstrução de tal experiência subjetiva mostra, ademais, o entrelaçamento efetivo entre dimensões da subjetividade que costumamos separar analiticamente, como a cognição e os afetos (p.ex., na vivência interior, o reconhecimento cognitivo do rosto de alguém de quem gostamos é imediatamente ligado a uma emoção agradável).

De qualquer forma, tão intrincadas são essas operações infraconscientes da consciência que Husserl julgou haver descoberto nada menos do que um novo “continente infinito” a ser explorado por sua filosofia. Tal perspectiva permite ir além da superfície da consciência em direção a dimensões dos atos e vivências mentais que são infraconscientes, ainda que não “inconscientes” no sentido psicanalítico da expressão. Como pretendemos mostrar ao longo dessa série de posts, se aplicada à descrição de sintomas ditos “psicopatológicos”, a fenomenologia pode redescobri-los como variações naquelas “performances ocultas” pelas quais as “funções produtivas” da mente constituem a experiência do mundo em seus aspectos mais básicos. Tal como a antropologia pode mostrar que nossos hábitos mentais mais espontâneos (p.ex., o modo como compreendemos o tempo e o espaço) são culturalmente variáveis, a exploração da “loucura” como experiência vivida também amplia nosso conhecimento da pluralidade de modos do “ser-no-mundo” humano. Como dissemos antes, tal exploração pode (e deve) escapar tanto à obtusidade de uma psiquiatria que só percebe na loucura dor e deficiência, passando ao largo de sua complexidade interior, quanto a uma visão “romântica” que só percebe o que a loucura possui de lucidez e inventividade, ignorando o que ela acarreta de sofrimento.  

Fenomenologia sem parênteses

Central à fenomenologia desde os seus primórdios é o postulado da intencionalidade da consciência que Husserl tomou de empréstimo a Franz Brentano, isto é, a tese de que toda consciência é consciência de algo. Bourdieu (2001: 62) celebrou esse postulado como o recurso primeiro que facultaria à fenomenologia superar o solipsismo do “homo clausus[i] cartesiano e, assim, mostrar o vínculo originário entre subjetividade e mundo. Se esse juízo é válido para as reflexões de Husserl a respeito do “mundo da vida”, um montante significativo dos escritos do fundador da fenomenologia esposa, no entanto, um cartesianismo radical. Para Husserl, a descrição pormenorizada dos atos mentais através dos quais a consciência constitui os conteúdos da sua experiência requer colocar provisoriamente “entre parênteses” as preocupações epistemológicas com a realidade objetiva de tais conteúdos. Ainda que este procedimento, famosamente conhecido como epoché fenomenológica, tenha sido pensado pelo autor como uma preliminar necessária à compreensão da abertura da consciência para o mundo, diversos adeptos da fenomenologia pós-husserliana consideram que ele serviu de pretexto para manter a mente encerrada sobre si própria: “Husserl nunca chegou ao concreto e permaneceu emperrado, até o fim, no solipsismo de suas meditações transcendentais” (Vandenberghe, 2013: 88). Se ele teve a virtude de mostrar in minutiae que a subjetividade humana organiza ativamente os objetos da sua experiência, foi sobretudo com a guinada existencial promovida pelos fenomenólogos pós-husserlianos que essa atividade interior foi situada em uma existência “mundana” (Heidegger) e “carnal” (Merleau-Ponty) partilhada com outros.

Falo sobre essa guinada no próximo post.   

Referências

BOURDIEU, P. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001. 

FUCHS, T. “The challenge of neuroscience: psychiatry and phenomenology today”. Psychopathology, v.35, p. 319-326, 2002.

GHAEMI, N. The concepts of psychiatry: a pluralistic approach to the mind and mental illness. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 2003. 

HUSSERL, E. Meditações cartesianas. The Hague: Martinus Nijhoff, 1960.  

________Experience and judgment. Evanston: NorthWestern University Press, 1973.

________On the phenomenology of the consciousness of internal time (1893-1917). In: BERNET, E. Edmund Husserl: collected works. Dordretch: Kluwer, 1991. 

________Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica. Aparecida, SP: Ideias e Letras, 2006.

HEIDEGGER, M. Ser e tempo. Petrópolis: Vozes, 2006. 

JASPERS, K. Método e visão de mundo em Weber. In: COHN, G. (Org.). Para ler os clássicos. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1977.

 ________Psicopatologia geral: psicologia compreensiva, explicativa e fenomenologia (vol.1). Rio de Janeiro/São Paulo: Atheneu, 1979a.

________Psicopatologia geral: psicologia compreensiva, explicativa e fenomenologia (vol.2). Rio de Janeiro/São Paulo: Atheneu, 1979b.

MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

SASS, L. Madness and modernism: insanity in the light of modern art, literature, and thought. New York: Basic Books, 1992.

SPIEGELBERG, H. Phenomenology in psychology and psychiatry. Evanston, Northwestern University Press, 1972.

VANDENBERGHE, Frédéric. What’s critical about critical realism? Essays in reconstructive social theory. London: Routledge, 2013.

[i] A expressão é de Norbert Elias

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