Por que o frango atravessou a rua? Exercícios (bestas) de estilo (1)

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Por Gabriel Peters

Pierre Bourdieu

Se abordagens subjetivistas têm razão em dizer que o frango atravessou a rua porque escolheu fazê-lo, faltam a elas as ferramentas analíticas para acessar os princípios não escolhidos dessa escolha, isto é, as disposições práticas, duravelmente inculcadas pela exposição prolongada do frango às condições de existência associadas a uma posição objetiva no espaço social, graças às quais a travessia do frango, sem ser fruto do cálculo explícito ou da obediência consciente a regras, mas sim das intuições tácitas de um saber estruturado por experiências pregressas e estruturante de experiências ulteriores, pôde ser objetivamente ajustada a determinados fins (casu quo, chegar ao outro lado da rua) sem resultar seja da busca expressa desses fins, seja da sua determinação mecânica inconsciente. 

O jovem Marx

Quando, após uma aurora longamente adiada, o frango finalmente se reconhece a si próprio como sujeito em uma condição que o expropriava da condição de sujeito, soa o dobre de finados da opressão não violenta que mascarava a violência da sua opressão. Para o frango que começa a libertar-se dos seus grilhões, compreender o princípio da travessia é já realizar a travessia do princípio. Dar-se conta do poder do caminho é dar-se a si mesmo o caminho do poder. O segredo outrora mistificado da força que possibilita a passagem do frango vem à luz como passagem do frango à força. Os filofrangósofos sempre interpretaram a rua; trata-se agora de atravessá-la.  

Max Weber

O destino do frango que comeu do fruto desencantador da árvore do saber é a consciência de que o imperativo ético da travessia da rua jamais pode ser colhido do conhecimento objetivo do mundo, mas brota de compromissos valorativos tão sagrados para o frango que decide atravessar a rua quanto para o frango cujo demônio interior o instiga a recusar-se a fazê-lo.   

Judith Butler

Afirmar que o enunciado segundo o qual o frango atravessou a rua é formativo do próprio fenômeno que o enunciado descreve significa supor que ele compõe tal fenômeno exaustivamente? Ou significa sustentar apenas que não há quaisquer discursos sobre corpos de frangos que não sejam formações adicionais de tais corpos, isto é, dos próprios corpos de frangos cuja referencialidade extradiscursiva é discursivamente afirmada e, portanto, performativamente constituída no discurso? A leitura construtivista moderada que pretendesse estabelecer a fronteira entre o “frango” constituído pelo discurso, de um lado, e a materialidade galinácea que independeria da construção discursiva, de outro, teria de demarcá-la discursivamente. Nesse sentido, a delimitação do que é extradiscursivo no frango seria formada pelo próprio discurso sobre o frango do qual ela busca se desvencilhar.   

Jacques Derrida

O que é esse “frango” que atravessa a rua? E o que significa, afinal, “atravessar”? Não temos qualquer conceito, qualquer significado disponível para designar essa “coisa” que acaba de acontecer, este suposto “evento”. “Algo” ocorreu, algo que não esperávamos que acontecesse, e este algo produziu certos efeitos. O frango atravessou a rua…Será? Frango? Atravessou? Rua? O sentido deste algo, cujos rastros percebemos, assume a inefabilidade de uma intuição sem conceito correspondente, de um limite sem horizonte, de uma unificação sem generalidade, diante da qual nossa linguagem impotente é forçada à pronúncia mecânica de uma interrogação: por que o frango atravessou a rua? Why did the chicken cross the road? Pourquoi le poulet a-t-il traversé la route? O traço dessa pergunta – como o rabisco de uma metáfora, o telegrama de uma metonímia, o grafema de uma catacrese – indica, nos seus esforços fracassados, que não sabemos do que falamos.   

Harold Garfinkel

As atividades nas quais, e pelas quais, o frango organiza sua travessia da rua são idênticas aos procedimentos nos quais, e mediante os quais, ele torna sua conduta visivelmente racional, ordeira, inteligível, justificável etc. aos frangos que percebem, observam, testemunham, relatam, descrevem, comentam, avaliam etc. sua travessia. A competência interpretativa na qual, e através da qual, o frango atravessador se baseia para garantir a inteligibilidade, racionalidade, relatabilidade, justificabilidade etc. de sua prática é, assim, estendida aos membros-observadores na produção colaborativa e local de ordem, lógica, razão, significado, método etc. na – e através da – essencial quididade da sociedade ordinária imortal de frangos. Qualquer aparência “estrutural” das travessias rotineiras de ruas por frangos tem de ser vista como um produto local e contingente dos trabalhos cognitivos, perceptuais, comunicativos, judicativos etc. de frangos que atuam, em concerto, para estabelecer, instaurar, manter, corrigir, restaurar, transformar etc. a ordem social como fenômeno naturalmente observável.  

Jon Elster

Frangos são comumente impedidos de atravessar a rua pelos guardas de trânsito. Não dispomos de enunciados do tipo lei para cobrir o que acontece em todos os cenários em que a travessia dos frangos é bloqueada. No entanto, podemos identificar dois padrões causais frequentes de resposta. Como costuma ocorrer com mecanismos, eles formam um par de contrários: o desejo do frango em atravessar a rua é eliminado pela proibição (“uvas verdes”); a proibição do guarda só faz aumentar o desejo de travessia do frango (“fruto proibido”).

Slavoj Žižek (1)

Não devemos aceitar a interpretação estúpida de que o movimento do frango demonstra a precedência de alguma coisa sobre coisa alguma. Vista dialeticamente, a travessia da rua não é um transbordamento do Real em face do nada, mas, ao contrário, a prova de que o Real é menos que nada e precisa ser suplementado pelo movimento do frango através do asfalto. Este princípio, descoberto por Hegel e desenvolvido por Lacan, é perfeitamente ilustrado na trama de Kung-Fu Panda.

Slavoj Žižek (2)

A visão costumeira pinta o frango como um agente ativo, cujo movimento expressa a riqueza de conteúdos da sua subjetividade. Com Lacan, aprendemos, ao contrário, que o movimento do frango mascara um vazio fundamental. Um frango nunca pode realizar uma travessia que seja sua “própria” travessia, isto é, que não seja uma distorção de quem ele “realmente” é (a travessia é rápida demais, devagar demais, o frango é atropelado etc.). Se o movimento sempre fracassa e reforça a falta que o animou, isto não significa que o frango não seja sujeito, mas que ele é constituído como sujeito pelo próprio fracasso do seu movimento. E não é isto um exemplo perfeito da tríade hegeliana da “negação da negação”? Articulamos uma proposição tentando definir um sujeito (“o frango se exprime como sujeito pela travessia bem sucedida da rua”); a proposição falha, e experimentamos sua contradição absoluta (“toda travessia da rua é um fracasso”); finalmente, a própria contradição define o sujeito como absoluta negatividade (“a travessia fracassada é o frango”).

Slavoj Žižek (3)

É frequente definir o mecanismo retórico da anedota como a transmutação da inocência superficial em uma mensagem obscena, mas o inverso não é muito mais comum? É como aquela piada maravilhosamente estúpida que circulava na Rússia dos tempos da União Soviética. Dois estranhos estão sentados um ao lado do outro em um vagão de metrô. Depois de um longo silêncio, um deles pergunta: “Você já trepou com um frango?” Espantado, o outro responde: “Não – e você, já?” “Não, claro que não! Estava só puxando conversa!”.   

Bertrand Russell (com um aceno a Hume e Popper)

Essa é a história de um peru, contada por um amigo frango que atravessava a rua todos os dias para ir à sua casa. Desde sua chegada à nova moradia, o peru tomava notas a respeito do que lhe ocorria – por exemplo, do fato de que ele era reiteradamente alimentado por volta das 9 da manhã. Treinado como cientista, o peru evitava, no entanto, chegar a conclusões apressadas. Ele também fazia questão de acumular observações em circunstâncias variadas (por exemplo, se o horário em que era servido permanecia o mesmo em dias úteis e feriados, ensolarados ou chuvosos etc.). Finalmente, após uns trezentos e sessenta e poucos dias de observação, o peru concluiu com segurança que continuaria a ser alimentado sempre no mesmo horário, a começar pelo dia seguinte – véspera de natal…

Marshall Sahlins (1)

Na de-sahlinização que é a pseudopolítica interpretativa de Obeyesekere, a travessia da rua pelo frango é explicada por uma “racionalidade prática” que só faz pintá-lo, na verdade, com as cores de um realista burguês. A pretensão mal aplicada de proteger o frango de uma suposta caricatura imperialista não apenas nos priva de compreender como realmente pensam os frangos, mas também destitui os próprios frangos da chance de falarem por si próprios.

Marshall Sahlins (2)

Aos defensores do mito utilitarista da “natureza galinácea”, podemos opor o mandamento: não Hobbes a frangologia do acesso a lógicas culturais específicas! Se as interdisciplinas que são os Studies têm, pelo menos, a virtude de não tratarem a diferença cultural como mero Adorno, não Derrida mais para negar que pouco Foucault da antiga frangologia no seu rastro. Como reza a emenda que fiz a Keynes, a longo prazo estaremos todos mortos…e errados. Portanto, não Comte com a generosidade da história das ideias e não Kant vitória filosófica antes do tempo. Afinal, por que Sartre escreveu tantas páginas sobre o ser? No fim das contas, por nada. Longe de nós está agora o mandamento: não Irigaray as sementes do pós-estruturalismo! E o fundacionismo de outrora nem é mais Popper, explodido que foi por um relativismo que mais parece saído do Kuhn de Feyerabend.  

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