O Clima, um Novo Horizonte Político, por Bruno Latour

terroirs2.jpg

Por Bruno Latour

Tradução: Rafael Damasceno

Revisão e apresentação: André Magnelli

O artigo “O Clima: um Novo Horizonte Político” foi publicado por Latour originalmente no Le Monde, no dia 12 de janeiro de 2016. No início deste ano “horrivelmente magnífico”, Latour escreve em um contexto de ascensão de Donald Trump no cenário político americano, de fortalecimento do Front national na política francesa e, por último, para alívio geral, após a realização da COP21 em Paris, da qual resultou o histórico acordo climático e a nova política ambiental do governo Obama. Em um contexto como o atual, em que Trump chegou ao poder retrocedendo nas políticas ambientais do governo anterior, e em meio às eleições francesas com um segundo turno entre Emmanuel Macron e Marine Le Pen, vale a pena retornar às reflexões de Latour sobre o horizonte político aberto pelo novo regime climático, pondo-nos o desafio de redescobrir quem é progressista e quem é reacionário.

O Clima, um Novo Horizonte Político  

Nós tínhamos o hábito, anteriormente, de desfrutar de um “tempo magnífico” ou de sofrer com um clima apodrecido. Há vários meses, nós nos beneficiamos de um tempo “horrivelmente magnífico”. Isto é verdade para a metereologia, mas o é também para a política. O momento é horrível e formidável: graças à coincidência das ações terroristas, da ascensão do Front National (partido francês de extrema direita) e da conclusão da COP21, é possível sabermos, enfim, onde nós estamos e à qual política nós deveríamos nos consagrar.

Até aqui, a maior parte das referências para julgar se uma posição era “progressista” ou “reacionária” se estabeleciam ao longo de um único vetor: sentir saudades das antigas regiões e seus terroirs [1], ou apostar na globalização. Entre estes dois extremos, havia uma linha contínua que se impunha a todos: só variava a posição no decorrer do vetor. Na vanguarda da frente de modernização havia os defensores do progresso e, atrás, os povos atrasados.

Com a contradição bem conhecida segundo a qual esse vetor representa os costumes ou os mercados, pode-se defender a emancipação dos costumes contra a globalização da economia – grosso modo, a esquerda tradicional – ou querer a liberalização dos mercados e resistir à emancipação dos costumes – digamos a direita moderada. No entanto, podemos desejar a emancipação conjunta dos costumes e dos mercados – o ideal de modernização frenética partilhado pelos setores “avançados” tanto de esquerda como de direita. Ou, enfim, lutar contra os dois.

Para que tudo isso funcione como referência, é necessário ainda que as elites creiam, elas mesmas, na existência de um mundo, de um globo que possa vir a ser – se conseguirmos alcançá-lo – aquele de um planeta universalmente modernizado. É aqui onde é necessário acrescentar a análise habitual da esfera política a essa outra esfera: o planeta fez sua entrada na política.

Erro de direcionamento [2]

A importância histórica da COP21 nos permite tomar consciência de uma outra direção: o planeta Terra não se parece com o globo da globalização. Para o dizer de maneira brutal: não há planeta correspondente à Terra prometida pela globalização. Houve um erro de “manobra”. Deste fato, as posições não podem mais se orientar unicamente segundo a polarização clássica que vai do global ao local, do nacional ao universal, da identidade aos “grandes espaços” do mercado mundial. A política clássica podia funcionar enquanto as elites deixassem crer que este mundo definitivamente existia, um mundo em cuja direção nós íamos nos modernizando.

Mas, aqui estão três décadas em que essas elites deixaram de crer neste mundo. Os que perceberam primeiro que esse mundo não existia não foram somente os ecologistas, mas também aqueles que chamamos “climatocéticos”. Contrariamente ao que se pensa, em sua negação não há nada de arcaico ou de falta de conhecimento. Com efeito, eles viram muito bem que se não há planeta correspondente ao mundo na direção do qual nós pretendíamos nos modernizar, então é preciso se defender se fechando numa fortaleza de desigualdades. O imenso movimento que permitiu aos 10% mais ricos se tornarem o 1% e depois o 0,1% não faz sentido se não compreendermos que as elites abandonaram toda a esperança de algum dia dividir seu território com aqueles que elas exigem que se modernizem ou que pereçam.

« Que nos deixem ao menos les terroirs! »

Para compreender que mudamos de época, basta comparar o sorriso de ódio de Donald Trump (« Vous êtes virés ! » ou « You’re fired! » ) ao sorriso hollywoodiano de Ronald Reagan. Já não é mais possível se fazer acreditar como nos anos 1980: de otimistas, as elites se tornaram sinistras; de cativantes, elas se tornaram defensivas. Se a América continua a desenhar nosso futuro, aquilo que propõe o Partido Republicano (entre outros) é de dar frio na barriga. Visto que as massas compreenderam perfeitamente que as elites não creem mais na modernização, é necessário recorrer rapidamente ao pouco de identidade ainda disponível.

Da Hungria à França, da Itália à Inglaterra, da Rússia aos Estados Unidos, muitos se comportam como se eles dissessem: “Na falta do globo, que nos deixem ao menos les terroirs!”. Raça branca, linguiça de porco, nação, bandeira, califado, família, não importa o quê, mas que não nos deparemos com nada. Todos aos botes salva-vidas! Evidentemente, essas comunidades são imaginárias; não resta mais que um pedaço dessas antigas terras atomizadas pela globalização. Mas utopia por utopia, é compreensível que recorramos àquelas que nos parecem menos distantes e menos desenraizadas [hors-sol]. É neste ponto de inflexão que nós nos encontramos, momento fatal e decisivo: há uma outra definição de apego a uma terra ou pátria que não a de território-terroir ou a de território-globo? Existe um terceiro vértice que permitiria redistribuir todas as posições e evitar a tragédia presente de uma batalha entre a utopia da globalização e a utopia das identidades nacionais?

Esse triângulo ainda não foi desenhado, eu sei bem, mas à linha que junta o território-terroir ao território-globo,  parece legítimo acrescentar, a partir de agora, as duas linhas que unem esses dois polos tradicionais ao terceiro vértice do triângulo: o território-Terra (ou planeta, ou , ou Gaia, pouco importa o nome). É isso que chamo de novo regime climático.

Redescobrir quem é reacionário e quem é progressista

Claro que o planeta unido durante a surpreendente COP21 não tem mais que poucos traços em comum com o espaço moderno, tanto indiferenciado quanto ilimitado, na direção do qual a globalização estava supostamente nos levando. Ele tem um clima, um solo, limites de fronteiras, toda uma geopolítica que pouco se assemelha tanto às velhas carteiras de identidades quanto ao globo do antigo mundo dito “natural”. Esse terceiro vértice não abre uma “terceira via” entre a identidade e o universal (nem mesmo entre o socialismo e o capitalismo, esses dois projetos sem “terra”). Mas sua presença, seu peso e sua novidade são capazes de chacoalhar o quadro da política. Ele obriga a redefinir o solo ao qual pertencemos, e a redescobrir quem é reacionário e quem é progressista. De toda maneira, se não chegarmos a nos reterritorializar muito rápido sobre esta Terra, será, infelizmente, a uma guerra de terroirs que deveremos nos deparar. Eu não me lembro de uma Saint-Sylvestre em que o tempo tenha estado tão “horrivelmente bonito” nem de um retorno às aulas e às atividades políticas que nos deixe tão pouco tempo entre uma eleição presidencial decisiva e a urgência de se reapropriar do clima de uma maneira tão política.

Notas

[1] O termos francês “terroir” é de impossível tradução para o português. Ele denota, ao mesmo tempo, localidade, região e costumes. A Organização Internacional da Vinha e do Vinho diz, a respeito dele, que: “Terroir é uma palavra francesa sem tradução em nenhum outro idioma. Significa a relação mais íntima entre o solo e o micro-clima particular, que concebe o nascimento de um tipo de uva, que expressa livremente sua qualidade, tipicidade e identidade em um grande vinho, sem que ninguém consiga explicar o porquê”. Para informações didáticas sobre o termo, ver o site Adega.

[2] Latour utiliza o termo “erro de ‘aiguillage’”, sendo tal termo uma palavra que denota a manobra que, numa ferrovia, as agulhas fazem para desviar o trem de seu curso. Optamos por traduzir aqui por erro de “direcionamento”.

 

Anúncios