Economia Ecológica, por Herman Daly & Joshua Farley (Annablume, 2016)

economia ecológica

DALY, Herman & FARLEY, Joshua. Economia Ecológica. São Paulo: Annablume, 2016. 

Prefácio à Edição Brasileira

Peter May, Presidente da ECOECO

Rio de Janeiro, 19 de julho de 2016

É uma honra ser convidado para escrever o prefácio para este livro-texto dos nossos mentores Herman Daly e Joshua Farley, sobre a “transdisciplina” de Economia Ecológica (EE), que está na sua 2ª edição, aprimorada e expandida. Diga-se de passagem, que não se trata da primeira e nem será a última reedição dos livros-textos nesta área, pois a EE é uma área que está sujeita a um processo contínuo e constante de revisões, debates e desconstruções, levando a criação de “spinoffs” de vários tipos (tais como a associação de Pesquisa e Decrescimento lançada na Europa, ou a Sociedade Internacional de Economia Biofísica, recém-criada nos EUA). Assim, como os autores bem descrevam na sua introdução, o livro em pauta representa uma interpretação das ideias discutidas entre colaboradores desta transdisciplina, e o que ela oferece como meio para entender os processos econômicos e sua interação com os ecossistemas que os envolve.

Ao contrário de outras áreas afins, a Economia Ecológica não se apoia em um monismo, onde crenças básicas definem o mote da disciplina, tais como: “comércio livre é melhor do que proteção doméstica”, ou “bem-estar social será maximizada pela garantia de concorrência livre entre firmas”, crenças que não permitem divergências dos princípios fundamentais, porque se fosse permitido, a casa toda cairia. Muito pelo contrário, o mote, se houver, da Economia Ecológica é o pluralismo, junto com o ceticismo prudente (relativo à crença de que somente pelo crescimento ilimitado e inovação tecnológica desenfreada será possível superar os limites biofísicos de um planeta finito, por exemplo): um outro mundo, sem dúvida, é possível. Diferente de outros livros que adotam a roupagem de EE para se distinguir das ênfases dadas a estas simplificações na economia neoclássica, este livro ajuda o estudante de economia e áreas afins a entender quais ideias nas teorias convencionais da economia permanecem como boas contribuições, tanto do lado micro como do macro. Ao mesmo tempo, permite refletir sobre o que observamos ou o que gostaríamos de ter como pressupostos para uma nova economia num mundo cada vez mais cheio.

Diferente da primeira edição, no lado micro, esta possui um capítulo que trata especificamente de comportamento humano. Desde a primeira edição, estudiosos dos problemas socioambientais têm despertado para o fato evidente de que o comportamento humano é raramente explicado unicamente pela ideia do “homo economicus”, ou seja, de um ser “racional”, interessado apenas em maximizar seu bem-estar, usualmente através da máxima “ter mais de tudo”. Em vez disso, há outros aspectos da vida que podem ser tão ou mais importantes que o desejo de possuir coisas. Entre esses encontram-se a cooperação, a comunicação e a coletividade, aspectos chave e não sujeitos às mesmas regras da economia convencional, expressos nas obras e experimentos comportamentais de Elinor Ostrom, cuja contribuição é evidente nesta nova parte do livro.

Finalmente, também em contraste com a primeira edição, esta traz à tona uma preocupação que ambos os autores compartilham: as sucessivas crises financeiras associadas à globalização e suas implicações para EE. Acima de tudo, a obra do Daly representa uma preocupação em criar as bases para uma macroeconomia ecológica. Este autor já tinha expressado em outros trabalhos seu desconforto com a liberalização dos fluxos financeiros internacionais. Frequentemente, citava Keynes, que advogava controles sobre a livre mobilidade do capital entre países, que para Daly implicava uma corrida para o fundo do poço, resultando em dumping ecológico e exploração do trabalho barato dos países em desenvolvimento.

Farley, na sua participação no Congresso da Sociedade ECOECO em Araraquara em 2015, apresentou uma palestra keynote focado nos problemas implícitos do controle bancário e as políticas necessárias para evitar novamente o meltdown financeiro. Como foi claramente evidenciado neste livro, e nos demais trabalhos dos autores, há uma urgência na definição de políticas fiscais e monetárias que reforcem os aspectos positivos da economia, e evitem suas maiores falhas.

Em suma, me alegra verificar novamente como as palavras sucintas e claras de Herman Daly esclarecem os ensinamentos evidentes em cada página deste livro. O seu lema é estimular pensamento e debate, longe de repetir um gospel repetitivo. Que este tesouro ilumine os caminhos dos jovens pensadores de língua portuguesa, na busca de um mundo de escala sustentável, distribuição equitativa e, na ordem, eficiente na sua alocação de recursos.

Introdução

Provavelmente, a melhor introdução ao nosso livro será a conclusão de um outro livro. E esse outro livro seria o Something New Under the Sun, do historiador J. R. McNeill [1]. McNeill defende que o Pregador de Eclesiastes continua na maior parte certo, mas não totalmente – não há, de fato, “nada de novo sob o Sol” no reino da vaidade e da maldade. Mas o lugar da humanidade no mundo natural não é mais o que era. O grande e devastador impacto da escala humana sobre o resto da criação é, realmente, algo novo sob o Sol. E isto amplia significativamente as consequências da vaidade e da maldade. As descobertas de McNeill ajudam a colocar a economia ecológica em um contexto histórico e a explicar por que razão ela é importante [2]. As suas conclusões merecem ser citadas na íntegra:

O comunismo aspirou se tornar a principal crença universal do século XX, mas uma religião mais flexível e sedutora o substituiu quando este fracassou: a busca por crescimento econômico. Capitalistas, nacionalistas – na verdade quase todos, incluindo os comunistas – cultuaram este mesmo altar porque o crescimento econômico encobria uma multidão de pecados. lndonésios e japoneses tolerariam uma corrupção interminável, enquanto o crescimento econômico durasse. Os russos e os europeus orientais se comportaram de forma torpe em seu estado de vigilância. Americanos e brasileiros aceitaram vastas desigualdades sociais. Os males sociais, morais e ecológicos foram mantidos no interesse do crescimento econômico; na verdade, os seguidores desta crença propunham que apenas mais crescimento poderia resolver esses males. O crescimento econômico tornou-se a ideologia indispensável do Estado em quase todos os lugares. Como?

Esta religião do Estado tinha profundas raízes em séculos anteriores, pelo menos na China imperial e na Europa mercantilista. Mas o seu completo êxito aconteceu somente após a Grande Depressão dos anos 1930…. Depois da Depressão, a racionalidade econômica superou todas as outras preocupações, exceto a segurança. Aqueles que prometeram entregar o Santo Graal se tornaram sumo sacerdotes.

Estes eram economistas, em sua maioria economistas anglo-americanos. Eles ajudaram a ganhar a Segunda Guerra Mundial expandindo e gerindo as economias
americana e britânica. O domínio internacional dos Estados Unidos depois de 1945 garantiu uma ampla aceitação das ideias norte-americanas, especialmente na economia, onde o sucesso norte-americano era mais visível. Enquanto isso, a URSS fazia proselitismo dentro da sua esfera geopolítica, oferecendo uma versão do fetiche do crescimento administrada mais por engenheiros do que por economistas.
Os economistas americanos aceitaram, jubilosos, os créditos pelo fim da Depressão
e pela gestão das economias de guerra. Entre 1935 e 1970 adquiriram enorme prestígio e poder porque, ou assim parecia, podiam manipular a demanda através de pequenos ajustes nas políticas fiscal e monetária de modo a minimizar o desemprego, evitar crises e garantir o crescimento econômico perpétuo. Esses economistas se infiltraram nos corredores do poder e nos bosques da academia, forneceram consultoria especializada no país e no exterior, treinaram legiões de acólitos em todo o mundo, escreveram colunas para revistas populares – agarraram todas as oportunidades de espalhar o evangelho. O seu sacerdócio tolerou muitas seitas, mas todas embasadas em seus fundamentos. As suas ideias se adequaram tão bem às condições sociais e políticas da época que muitas sociedades se prenderam a ortodoxia. Tudo isto era relevante porque os economistas pensavam, escreviam e prescreviam como se a natureza não existisse.

Isto era peculiar. Os primeiros economistas, sobretudo o reverendo Thomas Malthus (1766-1834) e W. S. Jevons(1835-1882), se esforçaram bastante para levar em consideração a natureza. Porém, com a industrialização, a urbanização e a ascensão do setor de serviços, a teoria econômica de 1935-60 se consolidou, sem questionamentos, como uma abstração na qual a natureza era vista, em sua totalidade, como um armazém de recursos à espera de ser utilizado. A natureza não se expande, nem se contrai e se ajusta quando modificada. A economia, outrora uma ciência lúgubre, tornou-se uma ciência jovial. Um economista americano, em 1984, fez uma previsão otimista de 7 bilhões de anos de crescimento econômico – apenas a extinção do Sol poderia obscurecer o horizonte. Ganhadores do Prêmio Nobel podiam afirmar, sem qualquer risco para as suas reputações, que “o mundo pode, efetivamente, progredir sem os recursos naturais”. Estas eram declarações extremas mas, essencialmente, uma visão canônica. Se o monoteísmo judaico-cristão tirou a natureza da religião, os economistas anglo-americanos (desde aproximadamente 1880) tiraram a natureza da economia.

Estará McNeill correto em sua avaliação de que “a prioridade global de crescimento econômico foi sem dúvida a ideia mais importante do século XX?” É difícil imaginar uma prioridade mais importante. Ainda são muito poucos os que questionam a prioridade de crescimento econômico. [3] Contudo,muitos estudantes têm perdido o interesse pela economia pelas razões também apresentadas por McNeill, isto é, devido a total abstração da natureza pelos economistas e a sua extrema devoção ao crescimento econômico enquanto summum bonum. Apesar desta aversão ser compreensível, seria muito triste se os únicos estudantes que estudaram economia fossem aqueles que não compreendem os limites fundamentais da disciplina, ou aqueles que, compreendendo que algo estava errado, não tivessem energia ou coragem para tentar reformá-la.

O professor McNeill se referiu especificamente à economia ecológica na sua citação aos “verdadeiros hereges” que ficaram de fora deste âmbito até o fim do século. O propósito do nosso livro-texto é tentar mudar essa situação deplorável – ajudar a próxima geração de economistas a levar em consideração a natureza e os seus limites. Atingir este objetivo exigirá uma fusão de conhecimentos e metodologias de diversas disciplinas a fim de criar uma abordagem transdisciplinar à economia. Tal abordagem é necessária se desejamos compreender os limites da natureza e criar políticas que permitam à nossa economia se desenvolver dentro desses limites. Porém, para obter algo mais do que resultados aleatórios, devemos direcionar os meios disponíveis para fins específicos. McNeill convincentemente afirma que o consumo material cada vez maior gerado pelo interminável crescimento econômico é o acordo final aceito pela maioria da sociedade moderna. Esta ênfase em um fim impossível e provavelmente indesejável é, indiscutivelmente, uma falha muito mais séria da economia tradicional do que a compreensão limitada dos meios.

O Apelo para Mudança

Conforme estamos escrevendo este livro, existem notícias de grupos de estudantes de Economia em universidades francesas e britânicas que estão se rebelando contra o que está sendo ensinado. Estes estudantes formaram uma Sociedade de Economia Pós-Autista. O diagnóstico implícito que fazem é muito adequado, uma vez que o autismo, que seria a economia convencional, é caracterizado por uma “subjetividade anormal; uma aceitação da fantasia ao invés da realidade”. A economia ecológica procura fundamentar o pensamento econômico com base nas realidades e restrições dos nossos ambientes biofísico e moral. Os atuais “pressupostos canônicos” [4], de desejos insaciáveis e recursos infinitos, que conduz a um crescimento eterno, simplesmente não estão fundamentados na realidade. Suas terríveis consequências são evidentes. E isso, realmente, é algo novo sob o Sol.

No início da economia ecológica, esperava-se que o ecologista iria assumir o território do economista e se livraria das falhas de uma economia que negligenciava a natureza. Embora os ecologistas tenham feito várias contribuições importantes, somos forçados a aceitar a avaliação de McNeill de que a sua influência tem sido basicamente decepcionante – a maioria tem sido relutante em “macularem a sua ciência com as incertezas dos assuntos humanos”. As razões pelas quais muitos ecologistas parecem ter tido dificuldade em lidar com a política serão objeto de reflexão no Capítulo 2. Embora a ecologia não partilhe das mesmas imperfeições da economia, ao estudar os ecossistemas como se estivessem isolados dos assuntos humanos num planeta com seis bilhões de seres humanos também sugere uma inclinação para aceitar a fantasia ao invés da realidade. A economia ecológica, portanto, não é simplesmente levar a luz da ecologia para dentro da escuridão da economia. Ambas as disciplinas necessitam de uma reforma fundamental para que seu casamento funcione.

Esta visão autista não está também limitada a economia e a ecologia. A maior parte das universidades, hoje em dia, ensina os alunos dentro dos limites estreitos das disciplinas tradicionais. Ao invés de treinar os alunos para analisar um problema e aplicar todas as ferramentas necessárias para resolvê-lo, as universidades normalmente treinam os alunos em um conjunto de ferramentas específicas da disciplina que então deverá ser aplicado a todos os problemas. A dificuldade decorre do fato de que os problemas mais críticos que enfrentamos hoje surgem da interação entre dois sistemas altamente complexos – o sistema humano e o sistema ecológico que o sustenta. Estes problemas são muito complexos para serem abordados a partir da perspectiva de uma única disciplina, e os esforços para fazê-lo ou devem ignorar os aspectos do problema que estão fora da disciplina ou aplicar ferramentas inadequadas para resolvê-los. A “subjetividade anormal” (autismo) é o resultado inevitável da educação em uma única disciplina. Aplicar os conhecimentos de uma disciplina em uma outra pode servir para eliminar as fantasias que cada uma sozinha está inclinada. Por exemplo, como poderia um economista familiarizado com a ecologia ou a física defender o crescimento infinito em um planeta finito? Uma pesquisa científica de resolução de problemas eficaz deve produzir uma linguagem mutuamente inteligível para a comunicação entre as disciplinas. Caso contrário, cada disciplina permanecerá isolada em seu próprio mundo autista, incapaz de compreender o mundo ao seu redor, e muito menos resolver os problemas que o afligem.

Uma Ciência Transdisciplinar

Os economistas ecológicos devem ir muito além da fusão somente da ecologia e da economia. Os problemas complexos de hoje requerem uma síntese complexa correspondente de conhecimentos e ferramentas das ciências sociais, das ciências naturais e das ciências humanas. Nós vemos frequentemente pesquisas científicas em que as equipes de pesquisadores com formação em diferentes disciplinas enfrentam separadamente um único problema e depois se esforçam para combinar os seus resultados. Isto é conhecido como pesquisa científica multidisciplinar, mas o resultado é muito parecido com o de homens cegos que examinam um elefante, cada um descrevendo o elefante de acordo com a única parte do corpo em que tocam. A diferença é que os cegos conseguem facilmente compartilhar suas informações, enquanto que as diferentes disciplinas acadêmicas não têm sequer uma linguagem comum com a qual os seus profissionais possam se comunicar. A pesquisa científica interdisciplinar, em que os pesquisadores formados em diferentes disciplinas trabalham juntos desde o início a fim de enfrentarem conjuntamente um problema, permitindo-lhes reduzir a barreira da linguagem à medida que avançam, é um passo na direção certa. Porém, enquanto as universidades têm disciplinas, o mundo real tem problemas. A economia ecológica procura realmente promover uma pesquisa científica transdisciplinar na qual os profissionais aceitam que as fronteiras disciplinares são construções acadêmicas irrelevantes fora da universidade e permitem que o problema que está sendo estudado determine o conjunto de ferramentas adequado, e não o contrário.

Assim como uma pesquisa científica de resolução de problemas eficaz requer um conjunto de conhecimentos e ferramentas de várias disciplinas, que ao definir os objetivos para os quais deveríamos nos esforçar, facilitaria a discussão aberta sobre o conjunto de valores das diferentes ideologias. Infelizmente, as duas ideologias dominantes do século XX parecem não terem tido a diversidade suficiente dentro dos seus conjuntos de valores para estimular esta discussão. Especificamente a antiga URSS e o Ocidente, embora divergissem em aspectos importantes, compartilhavam, como primeira prioridade, o compromisso fundamental com o crescimento econômico. A ideologia determinista dos marxistas, conhecida como materialismo dialético, recusava quaisquer apelos à moralidade ou à justiça. O “novo homem socialista” surgiria apenas sob condições objetivas de enorme abundância material, que por sua vez requer o máximo de crescimento econômico. O egoísmo burguês apenas desapareceria com o desaparecimento da própria escassez. Nos Estados Unidos e no Ocidente, de modo geral, a maior parte da sociedade não rejeitava os apelos à justiça e à moralidade, mas chegaram a acreditar que os nossos recursos morais eram bastante escassos comparados com os nossos recursos naturais e capacidade tecnológica. A nossa estratégia foi a de crescer primeiro, na esperança de que um bolo maior seria mais fácil de dividir do que um menor [5]. Mas, na prática, o “fetiche do crescimento” de McNeill dominou ambos os sistemas, e ambos foram negligentes com os custos do crescimento.

O crescimento infinito em um sistema finito é um objetivo impossível e eventualmente levará ao fracasso. A URSS falhou, primeiro por causa do seu sistema de planejamento central que, juntamente com a sua negligência dos direitos humanos, era mais ineficiente do que os mercados descentralizados e o maior respeito pelos direitos humanos existentes no Ocidente. A URSS era menos consciente dos custos ambientais e sociais do crescimento do que o Ocidente, e por isso entrou em colapso mais cedo. Por causa da sua maior eficiência, o Ocidente conseguiu continuar indo um pouco mais nesta sua busca impossível. Entretanto, também entrará em colapso, sob o peso acumulado do custo do crescimento. Contudo, até agora, o colapso da URSS tem sido entendido pelo Ocidente apenas como uma validação de sua eficiência superior. A possibilidade de que a eficiência apenas ganha tempo e que o crescimento ilimitado deve eventualmente fracassar também no Ocidente é algo que ainda não tem sido considerado. As alternativas para este objetivo equivocado de crescimento infinito e de consumo material ilimitado serão discutidas ao longo deste texto.

Uma Visão Geral do Texto

A Parte I deste livro é uma introdução ao tema da economia ecológica. A economia ecológica não busca apenas explicar como o mundo funciona, mas também propõe mecanismos e instituições que o faça funcionar melhor. O Capítulo 1 explica o objeto de estudo básico da economia neoclássica e ecológica a fim de mostrar o escopo completo desta nova transdisciplina chamada economia ecológica. Definido o território, estabelecemos os princípios sobre a natureza fundamental do sistema que nos propomos analisar. O Capítulo 2 começa descrevendo a visão central (pré-analítica) da economia ecológica, em que o sistema econômico é uma parte ou um subsistema de um ecossistema maior que o sustenta. Este ponto de vista contrasta coma visão fundamental da economia neoclássica, segundo a qual o sistema econômico é uma entidade completamente autossuficiente em si mesma. Se procuramos obter um sistema que funcione melhor, precisamos conhecer os recursos disponíveis para nós – os meios – e os resultados desejados – os fins. O Capítulo 3 está focado no espectro de fins e meios, um passo essencial para a compreensão de uma ciência que se define como um mecanismo para conectar os meios escassos aos fins alternativos.

A Parte II está focada no Todo que contém e sustenta o subsistema econômico, isto é, a Terra e sua atmosfera. Nestes Capítulos, investigamos profundamente a natureza do Todo – o ecossistema global que nos sustenta fornecendo os recursos que alimentam o processo econômico e os sumidouros onde descartamos os nossos resíduos. O Capítulo 4 estabelece a importância fundamental da baixa entropia (matéria e energia útil e ordenada) na produção econômica e a inevitabilidade da sua conversão, através do processo econômico de alta entropia, em resíduo inútil e desordenado. O Capítulo 5 trata das formas tangíveis nas quais a baixa entropia se manifesta, os bens e serviços abióticos fornecidos pela natureza, e examina as suas características específicas relevantes para o mercado. O Capítulo 6 faz o mesmo para os recursos bióticos. O Capítulo 7 demonstra que muitos dos bens e serviços fornecidos pela natureza eram anteriormente superabundantes, e por isso fez pouca diferença o sistema econômico dedicado a alocação de recursos escassos os ter ignorado. Agora, no entanto, conforme discutimos nesta introdução, esses recursos se tornaram escassos, e sua alocação tornou-se extremamente importante.

A Parte III inicia o nosso exame da parte do todo que estamos mais interessados, o subsistema econômico. Descrevemos os elementos úteis da teoria econômica neoclássica e os integramos na economia ecológica. A microeconomia, a macroeconomia, ou o comércio internacional, nos fornecem material suficiente para anos de estudo, e este texto transmite apenas os aspectos essenciais.

Os Capítulos 8 e 9 introduzem a microeconomia, o estudo dos mecanismos de alocação eficiente de recursos escassos específicos entre fins alternativos específicos. Explicam as propriedades auto-organizadoras de uma economia de mercado competitiva, através das quais milhões de tomadores de decisões independentes atuam livremente de acordo com o seu próprio interesse, que podem gerar os resultados notáveis aludidos no início do Capítulo 1. Estes capítulos explicam, também, como as funções de utilidade e de produção neoclássica têm de ser modificadas para retratar as preocupações da economia ecológica.

No Capítulo 10 damos um passo atrás para, a partir da análise microeconômica tradicional de alocação, examinarmos as características específicas que os recursos devem ter para que possam ser alocados eficientemente pelo mecanismo de mercado. Constatamos que poucos dos bens e serviços fornecidos pela natureza exibem todas essas características. As tentativas de alocar recursos que não possuem as características apropriadas através de mercados desregulamentados geram resultados ineficientes, injustos e insustentáveis. Em vez do autointeresse individual criar uma mão invisível que maximiza o bem-estar social, a alocação de mercado de bens não transacionáveis em mercado cria um pé invisível que pode chutar o bem comum no traseiro. Uma análise cuidadosa das características dos recursos escassos relevantes para o mercado é um prelúdio essencial para a formulação de políticas. Assim, o Capítulo 11 aplica os conceitos de falhas de mercado para os recursos abióticos, e o Capítulo 12 aplica estes mesmos conceitos para os recursos bióticos.

No Capítulo 13, direcionamos a nossa atenção para o comportamento humano, com três objetivos principais. Primeiro, esperamos esclarecer os fins desejáveis da atividade econômica através da avaliação de como as coisas e as atividades contribuem para termos uma vida plena e satisfatória. Segundo, os modelos econômicos tradicionais são construídos com a premissa de que o homem é insaciável, racional e um maximizador de utilidade auto-interessado. Tal comportamento é um sério obstáculo para o desenvolvimento de mecanismos de cooperação necessários para lidar com as falhas de mercado descritas nos Capítulos de 10 a 12. Olhamos para as evidências empíricas referentes a estas premissas e verificamos uma falta de provas em relação as mesmas. Por fim, avaliamos as evidências empíricas referentes ao comportamento cooperativo. Concluímos que a cooperação é uma parte integrante do comportamento humano, e que é um tanto suprimida pelas economias de mercado, mas que pode ser induzida de forma eficaz através de uma variedade de instituições diferentes. Esta é uma conclusão fortuita, dada a evidência de que o comportamento cooperativo é necessário para resolver os problemas mais graves que enfrentamos atualmente. Na Parte IV, nos voltamos para a macroeconomia. Conforme dissemos anteriormente, a economia ecológica vê a economia como uma parte de um sistema finito maior. Isto significa que o objetivo tradicional da política macroeconômica – crescimento econômico ilimitado da dimensão física – é impossível. Assim, na economia ecológica, a escala ótima substitui o crescimento como meta, seguida pela distribuição justa e alocação eficiente, nessa ordem. Escala e distribuição são questões basicamente macroeconômicas. Portanto, além dos instrumentos de política fiscal e monetária que dominam a discussão nos textos tradicionais, vamos introduzir políticas que podem ajudar a economia a atingir uma escala ótima [6]. O Capítulo 14 se concentra nos conceitos macroeconômicos básicos de PNB e bem-estar. Começa pelo exame da contabilidade econômica, ou a mensuração dos fins desejáveis, que varia desde o produto nacional bruto até a avaliação das necessidades humanas. O Capítulo 15 discute o papel do dinheiro na nossa economia. O Capítulo 16 se concentra na questão da distribuição dentro e entre gerações, e o Capítulo 17 desenvolve de forma sucinta o modelo macroeconômico básico de como o comportamento de poupança e investimento combina com a oferta e a demanda de moeda para determinar a taxa de juros e o nível de renda nacional. Depois, relacionamos o modelo macroeconômico às iniciativas políticas concebidas para se atingir os objetivos da economia ecológica de escala sustentável e distribuição justa.

A Parte V aborda o comércio internacional. Nos Capítulos 18 e 19 discutimos como as diferentes economias interagem e a questão problemática referente a integração econômica global. Consideramos especialmente as consequências da integração global para a elaboração de políticas. O Capítulo 20 examina as questões financeiras, com ênfase na especulação e crises financeiras, e examina as implicações da globalização para a política macroeconômica.

A Parte VI se concentra na política. O Capítulo 21 apresenta os princípios gerais da concepção da política. O Capítulo 22 avalia uma série de opções políticas específicas que afetam principalmente a escala, o Capítulo 23 avalia as políticas que afetam principalmente a distribuição e o Capítulo 24 avalia as políticas que afetam principalmente a alocação. Em nosso Capítulo final, Olhando para o Futuro, mais uma vez refletimos sobre os pressupostos éticos da economia ecológica. Fazemos um apelo para o retorno aos primórdios da economia como uma filosofia moral explicitamente voltada para a melhoria da qualidade de vida desta e das futuras gerações.

Em resumo, a teoria microeconômica neoclássica surgiu primeiramente como um esforço para explicar a economia de mercado. A macroeconomia surgiu em resposta ao fracasso da teoria microeconômica em explicar e responder as recessões e as depressões. A economia ecológica está surgindo em resposta aos fracassos da microeconomia e da macroeconomia em lidar com a escala insustentável e a distribuição desigual. A economia ecológica assume uma posição mais inclusiva e ativista. Descrevemos a natureza dos recursos escassos e os fins para os quais devem ser usados, e prescrevemos de forma proativa as instituições apropriadas para a sua alocação eficiente em um contexto social de distribuição justa e escala sustentável. Temos a instituição alocativa básica do mercado – que necessita de melhorias, mas pelo menos existe. Não temos nenhuma instituição para limitar a escala, e em relação as nossas instituições que regulamentam a distribuição (políticas antitruste e tributação progressiva), permitimos que estas atrofiassem. Sabemos que a construção de instituições é uma tarefa política e que a “política é a arte do possível”. Trata-se de um sábio conselho conservador. Porém, este ditado também proíbe a tentativa de impossibilidades físicas verdadeiras em um vão esforço de evitar as “impossibilidades” políticas aparentes. Quando confrontado com o infeliz dilema de escolher entre uma impossibilidade física e uma política, é melhor tentar o politicamente “impossível”.

Notas

[1] New York: Norton, 2000, pp. 334-336.

[2] Para uma outra discussão sobre o lugar da economia ecológica no contexto intelectual e histórico recente, ver Peter Hay, MainCurrents in Western Environmental Thought, Bloomington: Indiana University Press, 2002, Capítulo 8.

[3] Para uma interessante história política sobre como o crescimento veio a dominar a política norteamericana no pós-guerra, ver R. M. Collins, More: The Politics of Growth in Postwar America, New York: Oxford University Press, 2000.

[4] Canônico significa literalmente “de acordo com a lei religiosa” e normalmente significa de acordo com o uso aceito.

[5] Apesar de que para um grupo grande e poderoso no Ocidente, a primazia do crescimento e a crença nos poderes do mercado se transformaram em concepções comuns de moralidade em suas cabeças. Ayn Rand, uma filósofa e autora muito influente, que conta com Alan Greenspan (ex-presidente do Banco Central norte-americano e indiscutivelmente um dos homens mais poderosos do mundo) como um dos seus fervorosos admiradores, defende que o altruísmo é um mal e que o egoísmo é uma virtude. (Selfishness: A New ConceptofEgoism, NewYork: Signet, 1964). Milton Friedman, da escola de Chicago e vencedor do Prêmio Nobel de Economia, argumenta no mesmo sentido: “Poucas tendências poderiam minar tão profundamente as bases da fundação da nossa sociedade livre, como a aceitação por parte dos altos funcionários das empresas de uma responsabilidade social que não seja a de ganhar o máximo de dinheiro possívelpara os seus acionistas” (Capitalism and Freedom, Chicago: University of Chicago Press, 1962, p. 135).

[6] A escala ótima é o ponto onde os benefícios marginais do crescimento adicional são exatamente iguais aos custos marginais da redução da função do ecossistema que este crescimento impõe. Como mostraremos no texto, vários fatores podem afetar a escala ótima.

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