Antonio Candido, o método crítico e a formação do Brasil: uma leitura feita entre o local e o universal

Blog do Sociofilo

Seção Cartografias da Crítica

Constelação Teoria, Sociologia e Antropologia Críticas no Brasil e na América Latina

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Por

Filipe Barreiros Barbosa Alves Pinto (UFPE)

Rômulo Santos de Almeida (UFPE)

O ofício de intérprete do Brasil

Cada vez mais rara, a tentativa de interpretação do Brasil foi empreendida por diversos pensadores. Poucos, porém, conseguiram realizá-la de forma satisfatória. Talvez porque seja mesmo impossível cumprir essa tarefa. Concluir um entendimento para algo tão complexo e mutável como as dinâmicas sociais de uma nação é se arriscar em algo que nunca poderá ser plenamente realizado. Por isso, acreditamos que uma das características centrais dos grandes intérpretes esteja em abrir espaço para novos questionamentos e na capacidade de fornecer material para novas reflexões. Dessa forma, a melhor maneira de homenagear um intérprete é tentar levar adiante suas inquietações.

Antonio Candido de Mello e Souza (1918-2017) foi um dos pensadores que resolveu enfrentar essa tarefa irrealizável e a melhor maneira de fazer justiça a seu pensamento é manter suas contribuições em constante debate. Neste texto, a proposta é pensar junto com o autor suas próprias questões, tentar entender seus limites e potencialidades.

Interpretar o Brasil à luz da literatura foi seu grande objetivo. Sabia, porém, que isso lhe exigiria determinadas precauções de ordem teórico-metodológica. Tentaremos expor a maneira como ele empreendeu esse trabalho e suas implicações. Para fazer isso, será nosso objetivo compreender a posição do autor no contexto de sua produção, investigar alguns de seus principais conceitos (sobretudo a “dialética do local e do universal” e o “sistema literário”) e refletir como eles forneceram o substrato de sua análise da formação da sociedade brasileira.

Antonio Candido iniciou o seu trabalho de crítico literário na década de 1940, período em que trabalhava para a crítica de jornal, tendo que comentar semanalmente algumas obras indicadas. Entre 1941 e 1944 ele começou a escrever para a revista Clima, ao lado de Paulo Emílio Salles Gomes, Gilda Rocha de Mello e Souza, Alfredo Mesquita, Décio de Almeida Prado, entre outros. Em 1942, ingressou no corpo docente da Universidade de São Paulo, tornando-se assistente do professor Fernando de Azevedo (1894-1974) e colega de Florestan Fernandes (1920-1995). O tempo em que trabalhou como assistente lhe foi fundamental para compreender a importância da educação e da literatura como mecanismos indispensáveis na construção de um projeto de país mais democrático e inclusivo.

Foi também neste período que o interesse de Antonio Candido se voltou para a crítica, deixando parcialmente a sociologia para se dedicar aos estudos literários. A partir de 1943 ele passou a colaborar com o jornal Folha da Manhã, obtendo em 1945 o título de livre-docente com a tese Introdução ao Método Crítico de Sílvio Romero. Finalmente, em 1954, tornou-se doutor em Ciências Sociais com a tese Parceiros do Rio Bonito e, em 1959, publicou a sua obra mais conhecida: Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos. Vale citar também os seguintes trabalhos: Brigada Ligeira (1945); Ficção e Confissão (1954); O observador literário (1954); Tese e Antítese (1964); Presença da Literatura Brasileira (1964); Literatura e Sociedade (1965); Vários Escritos (1970) e outros.

Já então professor de literatura brasileira na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, sua atividade profissional no âmbito da crítica coincide com a formação de uma nova geração de intelectuais e com uma profunda reestruturação do Estado brasileiro, iniciado nos decênios dos anos 1930 e 1940. O surgimento de novos escritores, o crescimento da indústria editorial, a expansão da burocracia estatal e a criação de estruturas corporativas, redefiniram aos poucos os laços com a divisão das atividades intelectuais, cada vez mais especializadas e diversificadas (JOHNSON, 1995). Foi neste contexto de modernização do Estado e da criação de novas instituições que Antonio Candido realizou os seus primeiros trabalhos. Sua atividade intelectual, porém, não se limitou apenas ao mero exercício da crítica literária, unia-se ao seu interesse pela política, tendo integrado a União Democrática Socialista, gênese do futuro Partido Socialista Brasileiro (PSB). Anos depois, no final dos anos 1970, foi, com outros intelectuais, um dos idealizadores da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT).           

O método crítico de Antonio Candido

No que diz respeito a sua filiação teórico-metodológica, o pensador recebeu a influência de diferentes correntes filosóficas e sociológicas, possibilitando-lhe o diálogo com diversas epistemologias. Ainda que a sua curiosidade pela literatura fosse em grande medida motivada por questões muito empíricas, com uma tendência para o concreto, o próprio autor (1974) traça três grandes fases de estruturação teórica do seu pensamento. A primeira correspondeu ao decênio de 1940, período em que se preocupava, sobretudo, com a busca de condicionamentos e causas, adotando a concepção de que as obras literárias deveriam ser explicadas por um determinado sistema de condicionamento oferecido pelo meio. Este aspecto “positivista”, em grande parte fruto da sua formação universitária, apareceu no seu primeiro livro Introdução ao Método Crítico de Sílvio Romero. A segunda correspondeu ao decênio de 1950 e demonstrou uma aproximação maior por outros tipos de abordagem analítica e conceitual. Entrou em contato com a Antropologia Social inglesa, com as ideias de T.S. Eliot e com o “new criticism” americano. Sua preocupação se voltava para o problema da funcionalidade e não apenas com a sequência temporal dos eventos ou das obras, interessando-se menos pela ideia de “condicionamento” e mais pela ideia de “sistema”. Por fim, a terceira fase pertence ao decênio de 1960, caracterizada por uma busca maior pela estruturação, ou seja, o processo por meio do qual o que era condicionante se torna elemento interno. O desafio, portanto, não era pensar apenas o condicionante e o sistema, mas o estabelecimento de uma fórmula através da qual o externo se interioriza.

Foram estas orientações que ajudaram Antonio Candido a matizar o desenvolvimento do seu método crítico; permitindo-lhe observar a relação íntima entre literatura e sociedade, forma e história, texto e contexto social. A partir da primeira fase da periodização elencada acima, ele passaria a firmar a convicção de que os fatos históricos, as condições sociais e os elementos políticos relacionam-se intrinsecamente com a construção da obra literária, constituindo-se como fatores indiscutíveis à compreensão da literatura (SILVA, 2003). De acordo com Odalice de Castro Silva (2003), à medida que o autor escrevia sua Tese sobre a metodologia romeriana, investigava também a contribuição de Álvaro Lins (1912-1970), na época um dos críticos literários mais prestigiados. Este cultivava uma linguagem que examinava a forma literária e buscava entender o funcionamento interno do texto poético. Através de tais referências, paulatinamente Antonio Candido encontrava as bases que iriam proporcionar a construção do seu rigoroso método, ao integrar em sua linguagem a dimensão da História e a dimensão formal. Surgia, assim, uma maneira de interpretação sociológica e crítica que interligava, na tessitura da análise, tanto os fatores sociais e históricos quanto as questões formais e estéticas.

Literatura para ler o Brasil

Como intérprete do Brasil, Antonio Candido se propôs a pensar as linhas mestras de formação da nossa cultura, aqueles elementos capazes de explicar as principais características da sociedade brasileira. Seu objeto de investigação primordial, a literatura, seria capaz de fornecer material primoroso para sua empreitada. Levando em conta as peculiaridades da forma de expressão artística, o intérprete se propôs a imergir nas obras literárias e investigar as “sociedades internas” dos romances. Como exímio sociólogo, empreendeu análises refinadas dessas obras, mas, como crítico literário perspicaz, sabia que não poderia utilizar o mesmo aparato teórico metodológico daquela disciplina. Antonio Candido, então, empreendeu uma espécie de sociologia das sociedades internas dos romances, tentando perceber, a partir da própria construção literária, aspectos relevantes na formação da nossa sociedade.

No livro Formação da literatura brasileira foi essa a tarefa à qual Antonio Candido se propôs a cumprir: realizar uma sociologia das sociedades internas dos romances brasileiros dos séculos XVIII e XIX. Com isso, ele pretendia não apenas compreender melhor a formação de nossa literatura, mas também a constituição da sociedade brasileira. Ao observar essas obras literárias, ele percebeu que há um eixo comum que atravessa a maioria delas: elas são regidas por uma tensão dialética entre o localismo e o cosmopolitismo. Na perspectiva do autor, essa dialética sintetiza a evolução do pensamento e da cultura brasileiros. O Brasil teria, nessa concepção, uma literatura e uma cultura concebidas a partir do embate entre o dado local e os moldes provenientes da tradição europeia, alçados à condição de universalidade. Seria a  partir dessa dialética que a literatura brasileira, em seus momentos de formação,  desenvolveria seu caráter engajado na construção de uma cultura válida no país.

Por isso, para Antonio Candido, os nossos escritores estiveram, em grande parte da formação literária, conscientes da sua função; achavam-se na missão de construir a nação ao fazerem literatura. Assim, “quem escreve contribui e se inscreve num processo histórico de elaboração nacional” (CANDIDO, 1975, p.18). Os árcades (fins do século XVIII, começo do XIX), por exemplo, eram “quase todos animados do desejo de construir uma literatura como prova de que os brasileiros eram tão capazes quanto os europeus” (CANDIDO, 1975, p.26). Depois da independência, o que quer dizer a partir do Romantismo, essa tentativa se acentua e a atividade literária é tida como parte do esforço de construção de um país livre. Consideremos a seguinte citação:

Podemos discernir na literatura brasileira um duplo movimento de formação. De um lado, a visão da nossa realidade que se oferecia e devia ser transformada em “temas”, diferentes dos que nutriam a literatura da metrópole. Do outro lado, a necessidade de usar de maneira por vezes diferente as “formas”, adaptando os gêneros às necessidades de expressão dos sentimentos e da realidade local (CANDIDO, 2010b, p.14-15).

Este dilema formativo é percebido primordialmente como integrante das formas e das composições artísticas de nossos literatos e, posteriormente, generalizado e entendido como peça fundamental de um motor que movimenta a nossa cultura. A dialética do local e do universal seria fator basilar para explicar o desenvolvimento da sociedade brasileira em sua tentativa de autoafirmação e constante constrangimento dessa empreitada, pois incapaz de se adaptar plenamente aos padrões europeus tidos como universais.

Esses elementos, que são fundamentais para compreender o desenrolar da literatura e da cultura brasileiras, podem ser compreendidos também como a própria forma a partir da qual a sociedade brasileira se organizava politicamente. No contexto analisado por Antonio Candido, a questão da independência nacional era candente, o Brasil saía de três séculos de colonização e exploração formal de suas terras e povos para entrar no mercado internacional e se integrar à divisão internacional do trabalho. Essa inserção, entretanto, não corresponde a uma transformação completa na nossa sociedade. Ainda tínhamos uma economia de exploração, baseada em latifúndios, voltada para o mercado externo e realizada a partir da mão de obra escrava. Nesse sentido, o Brasil se inseria no capitalismo global, mas não compartilhava completamente dos valores liberais, na forma como o capitalismo se desenvolvia na Europa.

Para Roberto Schwarz (2001), o máximo exemplo desse descompasso estava na contradição entre liberalismo e o escravismo, que fazia com que houvesse a impressão de que valores como democracia, igualdade, liberdade não teriam lugar entre nós. O Brasil, portanto, se encontrava formalmente independente, mas ainda política e economicamente dependente dos europeus. Esse contexto político-econômico-cultural fazia com que o Brasil vivesse numa tensão entre buscar ser um país grandioso, autossuficiente, independente e, ao mesmo tempo, encontrava empecilhos para tal intento, justamente, por causa da sua situação político-econômica-cultural. Havia, assim, um reconhecimento de que a Europa, sua economia, política, cultura, eram superiores e que precisávamos nos aproximar desses parâmetros. A tensão entre o local e o universal era, portanto, a tensão em que estava posta a sociedade brasileira da época.

Sendo assim, essa dialética não diz respeito apenas ao seu método de análise da literatura e da cultura, mas a maneira como é interpretada a própria estruturação histórica do Brasil, suas dinâmicas e contradições. A dialética do localismo e do cosmopolitismo pode ser vista como parte constituinte da nossa formação conflituosa e dependente. Ajuda também a compreender a maneira através da qual nosso autor analisa as relações entre a cultura e a política, entre a arte e a sociedade.   

O sistema literário como instrumento formativo

Para compreender melhor o processo de formação da literatura brasileira, a partir do pensamento de Antonio Candido, é preciso falar especificamente do processo de desenvolvimento de um “sistema literário”. Ao longo da conformação desse sistema, seria necessário que houvesse produtores literários, um público considerável e um mecanismo transmissor para ligá-los: aquilo que pode ser resumido na tríade autor-obra-público. No Brasil os diferentes elementos dessa tríade seriam unificados a partir da existência de uma tradição que se preocuparia em compor uma literatura nacional e autêntica. Observemos o trecho abaixo:

Quando a atividade dos escritores de um dado período se integra em tal sistema, ocorre outro elemento decisivo: a formação da continuidade literária, – espécie de transmissão da tocha entre corredores, que assegura no tempo o movimento conjunto, definindo os lineamentos de um todo. É uma tradição, no sentido completo do termo, isto é, transmissão de algo entre os homens, e o conjunto de elementos transmitidos, formando padrões que se impõem ao pensamento ou ao comportamento, e aos quais somos obrigados a nos referir, para aceitar ou rejeitar. Sem esta tradição não há literatura, como fenômeno de civilização (CANDIDO, 2014, p.25-26).

De acordo com Antonio Candido, antes dos momentos decisivos da formação literária brasileira (Arcadismo e Romantismo), não havia condições suficientes para caracterizar nossa produção como um sistema. As composições eram esparsas, o público leitor era escasso e, sobretudo, não havia a constituição de um denominador comum capaz de criar uma tradição entre os autores. Havia, até então, o que nosso autor caracteriza como “manifestações literárias”. Nesse sentido, em princípio, não nos destacamos “espiritualmente” da influência europeia, especialmente portuguesa, durante a lenta maturação da nossa “personalidade nacional”. Nas palavras do autor:

A nossa literatura é galho secundário da portuguesa, por sua vez arbusto de segunda ordem no jardim das Musas… Os que se nutrem apenas delas são reconhecíveis à primeira vista, mesmo quando eruditos e inteligentes, pelo gosto provinciano e falta do senso de proporções. Estamos fadados, pois, a depender da experiência de outras letras, o que pode levar ao desinteresse e até menoscabo das nossas (CANDIDO, 2014, p.11).

Esse processo de dependência da metrópole será aos poucos contestado. Com o desenrolar das tensões já apontadas entre o localismo e o cosmopolitismo, fomos tomando consciência da nossa diversidade. Paulatinamente, foram criandas condições de oposição à metrópole, num esforço de autoafirmação que coincidiu com a Independência política e o Romantismo. No início do século XX, esta dialética passa por uma nova radicalização cujo ápice central foi o Movimento Modernista, considerado um momento de “ruptura” com o passado literário e responsável por uma paulatina valorização vanguardista do primitivo. Por meio do “desrecalque localista”, operado pelo contato com as vanguardas europeias, (re)definia-se aos poucos a superação de alguns entraves formativos, que passaram a ser vistos como exemplo das nossas potencialidades, a exemplo da cultura negra e indígena. Na perspectiva do autor, foi nos anos 1920 e 1930 que tivemos o admirável esforço de construir uma literatura universalmente válida por meio de uma intransigente fidelidade ao local (CANDIDO, 2010a, 2014). De qualquer maneira, a preocupação em destacar o elemento do nacional na conformação de uma literatura autêntica permanece presente em seu pensamento. Fica, então, mais claro de que maneira o conceito de sistema é composto na obra de Antonio Candido e como se diferenciaria da ideia de manifestações literárias. Quando fala da formação da nossa literatura, é sobre o sistema literário, que tem como base uma tradição construída a partir da preocupação com a nacionalidade, a que o autor se refere. Vejamos o que ele próprio tem a dizer:

Para compreender em que sentido é tomada a palavra formação, e porque se qualificam de decisivos os momentos estudados, convém principiar distinguindo manifestações literárias, de literatura propriamente dita, considerada aqui um sistema de obras ligadas por denominadores comuns, que permitem reconhecer as notas dominantes duma fase. Estes denominadores são, além das características internas, (língua, temas, imagens), certos elementos de natureza social e psíquica, embora literariamente organizados, que se manifestam historicamente e fazem da literatura aspecto orgânico da civilização. Entre eles se distinguem: a existência de um conjunto de produtores literários, mais ou menos conscientes do seu papel; um conjunto de receptores, formando os diferentes tipos de público, sem os quais a obra não vive; um mecanismo transmissor, (de modo geral, uma linguagem, traduzida em estilos), que liga uns a outros. O conjunto dos três elementos dá lugar a um tipo de comunicação inter-humana, a literatura, que aparece sob este ângulo como sistema simbólico, por meio do qual as veleidades mais profundas do indivíduo se transformam em elementos de contato entre os homens, e de interpretação das diferentes esferas da realidade (CANDIDO, 2014, p.25).

Como já mencionado, no caso brasileiro, o elemento capaz de ligar aqueles pontos é a preocupação com a construção da nacionalidade presente nos momentos de formação do sistema literário e inseridos na dialética do local x universal. Só a partir do interesse em configurar uma literatura autêntica é que tem início o processo de configuração desse sistema. Segundo alguns autores, como é o caso de Luiz Costa Lima (1991), o sistema literário de Antonio Candido possui muitas semelhanças com a noção funcionalista de sistema social, o que acabaria por privilegiar a harmonia presente no sistema. De acordo com Costa Lima, essa influência faria com que Antonio Candido configurasse uma interpretação que privilegiava a coesão e a homogeneização do nosso sistema literário. Uma literatura, portanto, capaz de contribuir para a formação de uma nação coesa.  

Esse elemento definidor do conceito de sistema literário passa a ser fundamental para a elaboração da Formação da literatura brasileira. Ele irá influenciar na seleção de autores analisados, na concepção sobre esses autores, na ideia que possui sobre a nossa história literária e, consequentemente, como um dos mais relevantes críticos literários, contribuiu para sedimentar normas, consagrar determinados autores e excluir outros. Seria esse o fator importante, por exemplo, no “sequestro do barroco” apontado por Haroldo de Campos (1989), autor que recorreu aos conceitos da estética da recepção de Hans Robert Jauss e construiu um modelo historiográfico oposto ao de Antonio Candido (SILVA, 2011). A ausência da produção literária do poeta Gregório de Matos Guerra (1636-1696) do sistema literário teria ocorrido, na interpretação de Haroldo de Campos, não apenas por suas produções terem sido feitas em um momento em que o público era escasso, em que as condições de produção eram precárias, mas, sobretudo, por não partilharem dessa preocupação com a construção da nacionalidade brasileira. Dessa maneira, mais do que a tríade autor-obra-público, a tradição de uma literatura preocupada com a construção de uma nação coesa seria o elemento definidor da concepção de sistema literário.

Emblemático também é o caso do poeta maranhense Joaquim de Sousa Andrade, o Sousândrade (1832-1902), considerado, na Formação, como representante de uma literatura menor, por ser tido como incompreensível e inconsistente. Sousândrade, que tem como protagonista de sua principal obra um viajante indígena colombiano, incapaz de fixar raízes em terras brasileiras, realiza uma literatura em que a ideia de nação foge, em grande medida, aos parâmetros do Romantismo. Sua obra, que posteriormente será tida, pelos irmãos Haroldo e Augusto de Campos (1982), como bastante criativa e original, acaba, então, sendo excluída do cânone que Antonio Candido contribui para construir.

A inserção de Antonio Candido na dialética do local e do universal

Se, por um lado, Antonio Candido ajudou a pensar, a partir de sua rica análise de nossas obras literárias, como a preocupação com a construção da nação foi fundante no desenvolvimento da literatura e da sociedade brasileiras, por outro, ele pode ter estreitado as possibilidades de levar em conta outras formas de produção. Em grande parte, isso pode ser compreendido se pensarmos sua obra a partir de instrumentos deixados pelo próprio autor.

Como já foi dito, Antonio Candido iniciou a sua produção intelectual por volta da década de 1940, período marcado por uma intensa reestruturação do Estado brasileiro e pela formação de uma intelectualidade voltada para pensar esse movimento. Como intelectual militante, estava integrado a esse projeto de repensar o Brasil, interpretá-lo e elaborar um projeto de nação. É possível, portanto, pensar que o próprio autor estava inserido na tensão entre o localismo e o cosmopolitismo, a qual compreendia como a síntese de nossa evolução cultural. A tentativa de afirmar e estruturar o Brasil como uma nação com projeto próprio diante do cenário global faz com que Antonio Candido, em sua análise de nossa formação literária, acabe ressaltando os elementos que seriam capazes de criar uma coerência para esse projeto de nação autônoma.

Com essa interpretação da formação da nossa literatura e da nossa sociedade, as quais prezam, sobretudo, por uma concepção de sistema homogêneo e coerente, nosso intérprete acaba por deixar de lado alguns outros projetos de nação e de sociedade. Se pensarmos, como nosso autor, que as relações entre a arte e a política são inseparáveis, perceberemos que o investimento em uma concepção de sistema literário, embasado por uma compreensão de nação homogênea e coerente, corre o forte risco de deixar de lado uma heterogeneidade de projetos políticos.

A sua própria ideia de dialética entre o local e o universal nos permite compreender de que maneira sua interpretação foi construída, a partir do contexto de sua produção. Para além disso, aponta para seus limites, pois, nessa compreensão, o local tem como parâmetro o universal, as potencialidades do particular são dadas pelo universal. Talvez seja mesmo necessário conceber outra forma de ver o mundo que não se limite a um reforço do local que ecoa as vozes do universal. Dessa maneira, seria possível imaginar uma sociedade que não almejasse deixar de ser um galho secundário para fazer parte de um tronco principal, mas uma forma de sociedade e de política que pudessem frutificar troncos diversos.

De acordo com Alfredo Cesar Barbosa de Melo (2016), um paradoxo significativo do esquema teórico de Antonio Candido diz respeito ao “paradigma hegemônico da formação” e o seu viés eurocêntrico, pois presume, de algum modo, a emulação de modelos estrangeiros, ligados ao cânone europeu. Dessa forma, ter como principal elemento caracterizador do sistema literário a preocupação com a construção de uma nação moderna significa emular os padrões mentais das metrópoles, expressando de alguma maneira a dependência do intelectual brasileiro/periférico de pertencer a uma prestigiosa tradição cujos principais membros o ignoram. Ademais, a ideia de formação pressuporia uma relação hierárquica e normativa, uma vez que estamos nos formando para ser algo que ainda não somos ou que deveríamos ser.

Ao mesmo tempo, é preciso ter em mente que as possibilidades interpretativas de Antonio Candido estavam de alguma maneira limitadas por um tipo de reprodução da violência colonial. As categorias epistemológicas utilizadas pelo pensador guardavam em si mesmas elementos da forma de ver o mundo colonial. O polo do universal, na dialética já tão mencionada, guarda na verdade uma localização. O universal tem o seu local. Ele representa, na verdade, um modo específico de compreensão da realidade: aquele do ocidente moderno. Os longos séculos de dominação colonial, de exploração não só econômica e política, mas também das estruturas mentais, fizeram com que em contextos periféricos enxergássemos o mundo através da perspectiva dos colonizadores. 

Dessa forma, o que acontece com a construção interpretativa de Antonio Candido é que ela se utiliza, em grande medida, de categorias de análise coloniais que o impedem de enxergar outras alternativas que fossem além das que estavam postas. Por outro lado, esse aparato teórico-metodológico desenvolvido pelo autor já permitia, de algum modo, perceber o quão violento e conflituoso foi o processo de formação da sociedade brasileira. Desenvolvendo uma constante tentativa de autonomização e esbarrando sempre nos constrangimentos do universal. Em grande proporção porque não conseguimos nos livrar de perceber o mundo a partir dessa forma dual.

BIBLIOGRAFIA

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SILVA, Odalice de Castro. Antonio Candido: um grande exemplo para todos nós. Rev. de Letras – N0. 25 – Vol. 1/2 – jan/dez. 2003 25. Disponível em: <http://www.periodicos.ufc.br/index.php/revletras/article/view/2236/1706> Acesso em: 18 de mai.2017.

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