Verbete: Marcel Mauss (1872-1950), entre antropologia & política, por André Magnelli

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Por André Magnelli

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Mauss é o Prometeu das ciências humanas modernas, o último enciclopedista ou o último homem do Renascimento (Camille Tarot)

Marcel Mauss nasceu em Epinal, França, em 1872, em família de origem judaica. É filho da irmã mais velha do sociólogo francês Durkheim, Rosine, tendo, portanto, por tio Émile. Foi estudante do Liceu de Epinal, onde recebeu sólida formação, mas não ingressou em uma Escola Normal – como seria a trajetória normal do sistema de ensino francês -, juntando-se ao seu tio na Universidade de Bordeaux, no outono de 1890, e licenciando-se pela Faculdade de Letras em 1893. Fortemente influenciado por leituras do filósofo e psicólogo das emoções Théodule Ribot (1839-1916) e pelo caráter exemplar de Durkheim, de quem foi primeiro discípulo e colaborador próximo – quase que seu “alter ego”, como ele mesmo diz –, optou por seguir carreira acadêmica. Segundo o próprio Marcel, ele teve a sorte de ter sido enriquecido na sua juventude pela proximidade de três grandes homens: além de Durkheim, o acadêmico Sylvain Lévi e o socialista Jean Jaurès.

O antropólogo em formação e o projeto sociológico

A fim de realizar o rito de iniciação e de passagem denominado pelos nativos franceses de “agregação em filosofia”, obrigatório para tornar-se um acadêmico civilizado, foi estudar em Paris nos anos de 1893-4. Ingressou como estudante na École Pratique des Hautes Études (EPHE), em Paris, estudando, na 4ª seção, ciências da história e filologia, e na 5ª seção, ciências religiosas e línguas, tendo como professores Sylvain Lévi (religiões da Índia e sânscrito), Israël Lévi (judaísmo talmúdico e rabínico e hebreu), Antoine Meillet (linguística comparativa indoeuropeia) e Léon Marillier (religiões primitivas). Lá conheceu, em 1896, o seu principal colaborador, Henri Hubert, que se tornará posteriormente seu “irmão gêmeo”. Mauss propôs como projeto uma tese sobre A prece, que será o primeiro de muitos projetos que jamais terminou, apesar das pressões contínuas de Durkheim e de sua mãe.

Em 1897-8, fez viagem de estudos, por recomendação de Sylvain Lévi, pela Inglaterra e pela Holanda, tendo em vista realizar estudos de ciências da religião e estabelecer contatos da área. Na época, a Inglaterra era o centro das investigações etnológicas das sociedades ditas primitivas, constituindo uma verdadeira escola de antropologia religiosa (Max Müller, Edward Tylor e James Frazer eram os ícones da área e lecionavam na Inglaterra). Mauss contactou com H. Kern, C. P. Tiele, Willem Caland, Moriz Winternitz, Edward Tylor, James Frazer (de quem se tornou amigo) e assistiu seminários de Max Müller (de quem jamais escondeu uma antipatia e quase que desprezo pelo charlatanismo). Durante a viagem, concebe e começa a escrever, em parceria com Henri Hubert e sob pressão de Durkheim, um ensaio de teoria geral do sacrifício, que será publicado, em 1899, no Année Sociologique.

Por convite de Sylvain Lévi, Mauss já leciona informalmente na EPHE em 1900-1901 sobre “Religiões da Índia Leste” – textos védicos, filosofia yoga e sistemas de explicação das religiões indianas –, mas, com a morte trágica de seu antigo professor de religião primitiva, Léon Marillier, assumiu, em 1901, não sem uma forte mobilização política por parte de Lévi e Durkheim, a cadeira de “história das religiões de povos não civilizados”, tornando-se colega de Hubert, que acabara de assumir a cadeira de “religiões primitivas da Europa”.

Os anos seguintes são de intensa atividade intelectual. Por convite de Durkheim, escrevem em parceria um clássico estudo sobre as formas primitivas de classificação (1901-2), que abriu o caminho para a sociologia do conhecimento que será proposta por Durkheim em Formas Elementares da Vida Religiosa (1912), livro que, na verdade, foi escrito a quatro mãos juntamente com Mauss. A divisão intelectual do trabalho de produção do artigo foi relatada pelo próprio Mauss: “Eu forneci todos os fatos. Ele os explicou”. A importância deste ensaio, que longe de ser puramente sociológico, tinha uma intenção inteiramente filosófica, é bem expressa por Fournier:

Durkheim e Mauss abrem assim uma nova via que conduzia a uma sociologia do conhecimento. Era possível analisar outras ‘funções ou noções fundamentais do entendimento humano’, tal como desejam fazer (as ideias de espaço, de tempo, de causa, de substância, as diferentes formas de raciocínio, etc.). Como Mauss iria assinalar, essa era a missão do Année Sociologique: ‘Com a concordância de Durkheim, nós isolamos imediatamente o problema da razão’. As representações religiosas seriam abordadas a partir de ‘muitos lados’: número, causa (o ensaio sobre as origens dos poderes mágicos), espaço, tempo (um ensaio sobre a origem da noção de tempo), alma, mundo (a noção de orientação), gênero, espaço. Mauss concluiu mais tarde: ‘Esse [era] um dos mais importantes projetos filosóficos jamais empreendidos por uma escola’.[1]

É no interior desse projeto maior de uma sociologia durkheimiana da religião que seria, ao mesmo tempo, a via régia de uma sociologia do conhecimento, que Mauss empreendeu, juntamente com Hubert, investigações sobre a magia. Ele lecionou, nos primeiros anos da EPHE, não apenas sobre as formas elementares da prece, que era tema de sua tese, mas também sobre magia – estudos críticos de documentos sobre magia entre melanésios (1901-3), teoria geral da magia na sua relação com a religião (1903-4) e análise de noções básicas de magia (1904-5) –, investigações das quais resultará uma publicação, com Hubert, no Année Sociologique, sobre a teoria geral da magia (1902-3), e, também um estudo crítico bibliográfico sobre a origem dos poderes mágicos (1904). Leciona cursos, igualmente, sobre proibições rituais (1906-7; 1909-10),  fórmulas rituais (1908-11) e a origem das crenças nas fórmulas rituais (1913-4); sobre sociedades secretas (1906-7); sobre sistemas religiosos africanos (1906-9), sobre a relação entre clãs e religião nos Pueblo (1907-8). É como parte da “missão sociológica” que ele empreende igualmente (em parceria com o especialista sobre esquimós H. Beuchat) uma análise das correlações entre a morfologia social e as representações e práticas sociais nas sociedades esquimós (1904-5). Em 1909, publica, com Hubert, o único livro de sua vida, que é na verdade uma coletânea dos artigos sobre magia e religião escritos no período: Mélanges de l’Histoire des Religions.

Em busca das formas elementares do fenômeno religioso, Mauss considera, já neste tempo, que a sociologia precisa tanto da história quanto da etnografia. Para ele, a inteligibilidade das formas religiosas arcaicas é fundamental para compreender o tempo presente e nosso futuro. As palavras de Mauss são tão pertinentes quanto atuais: o conhecimento do passado nos conduziria a uma melhor compreensão do presente, a fim de ajudar a humanidade a se tornar mais ciente de seu futuro. Ainda que ele esteja fazendo, nessa fase, investigações fortemente associadas às teses de Durkheim, Tarot assinala bem que, sob influência de Sylvain Lévi, com seu emprego do método filológico ao estudo crítico e rigoroso dos fenômenos religiosos, ele adquire uma sensibilidade à importância da linguagem e da filologia para a sociologia, o que havia sido curto-circuitada pelas teses durkheimianas. O lapidar enunciado de Mauss, em carta de 1898, resume bem onde estará sua inovação em relação ao tio: “é preciso ser um bom filólogo para ser um bom sociólogo”.[2]

O político: militância socialista  e cooperativismo

Paralelamente à formação intelectual e às investigações científicas da juventude, Mauss atuou com igual energia na atividade política. Ele foi um dreyfusard, assim como Durkheim, mas, diferentemente dele, foi um ativista e revolucionário socialista, participando de assembleias políticas e de reuniões do movimento cooperativo, pacifista e internacionalista. Em Bordeaux, ele integrou o Groupe des Étudiants Socialistes, ao lado de Marcel Cauchin, e aderiu ao Parti Ouvrier Français (POF). Quando se preparava para agregação, participou igualmente do Groupe des Étudiants Collectivistes, que tinha por objetivo não apenas o ativismo revolucionário, mas principalmente a reflexão teórica sobre o que deveria ser o socialismo, tendo em vista, em oposição aos guesdistas e aos anarquistas, buscar uma “terceira via, humanista, mas científica, ao socialismo”. Ele foi, também, “braço direito” de Jean Jaurès (que era amigo de Durkheim). E publicou escritos políticos e resenhas em diversas revistas e jornais socialistas: Le Devenir Social, Le Mouvement Socialiste, Notes Critiques. Sciences Sociales, Action Socialiste e no grande jornal L’Humanité, fundado por Jaurès, em 1904, do qual Mauss torna-se acionista e representante do conselho de administração, publicando nele uma dezena de artigos.

Seu primeiro grande texto político foi publicado em 1899, ou seja, no mesmo ano em que publicara sua teoria geral do sacrifício; nele define as características da ação socialista, no que se inscreve na tradição ao mesmo tempo republicana e revolucionária de Guesde, Jaurès e Vaillant, mas afasta-se da intransigência dos guesdistas e toma Jaurès como figura simbólica maior, defendendo a construção de um socialismo senão unitário, ao menos unido. A união socialista virá em 1905, com o nascimento do S.F.I.O. (Section Française de l’Internationale Ouvrière), sob o comando de Jaurès, ao qual Mauss adere. Entre 1904-5, ele realiza viagens pelo exterior como enviado especial do partido. Mais tarde, ele participa do Groupe des Études Socialistes, fundado por Robert Hertz (1908), que era de certa forma uma tentativa de colocar a sociologia durkheimiana a serviço do socialismo.

Como parte da atividade de militância socialista, Mauss se engaja também pessoalmente nas cooperativas em várias ações: participação na cooperativa de consumo L’Avenir de plaisance (1896-7); fundação de uma cooperativa de alimentos, com Philippe Landrieu, chamada La Boulangerie (1900); participação como delegado da Coopérative Socialiste, do Io Congresso Nacional e Internacional das Cooperativas Socialistas, em Paris, no qual apresentou um relatório sobre relações internacionais; participação, enfim, do Congresso Oficial do Comitê Central das Cooperativas. No debate em torno do cooperativismo que anima os anos 1890, em que o socialismo revolucionário às vezes se opôs às experiências cooperativistas ao vê-las como formas de desvio da ação do proletariado rumo à revolução, Mauss entra no debate e, segundo seu biógrafo, converte Jaurès à cooperação. Fournier sintetiza bem a forma pela qual ele compreende a importância do associativismo e do cooperativismo para a vida democrática e a emancipação do operariado:

A importância que Mauss dá, por sua parte, ao movimento cooperativo se vincula à ideia que ele faz da solidariedade e da democracia: a República deve ser ‘social’. Nem tudo, portanto, se joga na esfera política; é preciso se preocupar com a vida associativa. A cooperação constitui, aos olhos de Mauss, uma ‘forma espontânea e não obrigatória de democracia’; é, ao mesmo tempo, um ‘exemplo de propriedade coletiva’ e uma ‘obra da solidariedade operária e popular’. E se ela é socialista, tanto melhor: a cooperação torna-se então o meio de melhorar o bem-estar de seus membros, contribuindo também para a ‘emancipação geral do proletariado’.[3]

As ações cooperativas integram ao socialismo a dimensão da fraternidade, de uma fraternidade universal e humanista, que é fundamental para, em conjunção com a liberdade e a igualdade, construir o horizonte de um socialismo pluralista a partir da ação no presente, sem esperar pela apocalíptica crença na revolução:

Liberdade e igualdade, certamente, mas também fraternidade, a ‘fraternidade humana’. Tal é, segundo Mauss, o horizonte da ação. Não é questão de esperar a grande noite [da revolução]: a mudança pode ser feita imediatamente, no próprio seio da sociedade capitalista; podemos, portanto, ‘viver agora mesmo a vida socialista, criá-la em todas as partes’.[4]

A Primeira Guerra Mundial, porém, é um marco d’águas no itinerário de Mauss, que pode ser considerado como um fosso que inaugurará uma segunda fase. Não apenas pelos efeitos costumeiros da guerra, mas também porque alguns dos principais representantes da escola durkheimiana e amigos de Mauss desaparecem nas trincheiras – o filho de Durkheim, André Durkheim, Robert Hertz, Maxime David, Antoine Bianconi, Jean Reynier –, ou nos antecedentes da Guerra: o assassinato de Jaurès, em 1914, que muda tudo para Mauss. [5] Apesar do pacifismo, com o assassinato de seu amigo e, após, com a mobilização geral com o início da guerra, ele se engaja como “soldado-intérprete”. No pós-guerra, após as perdas de boa parte da geração da escola durkheimiana e com a morte de Durkheim, falecido em 1917 sob o efeito mortificador do golpe efetuado pela morte de seu filho sucessor, Mauss se verá com a pesada responsabilidade de zelar pela herança durkheimiana, tendo de reconstruir a escola sociológica francesa.

Entre-guerras: a invenção da antropologia do simbólico

No retorno da I Guerra, ele passa a considerar a questão dos potlatch nos cursos (descritos por W. H. R. Rivers), lecionando cursos de análises de documentos etnográficos (Baldwin Spencer, Thurnwald, Rivers) (1920-2) e de Malinowski (1923-4). Ele já havia publicado sobre moeda e sistemas de trocas arcaicas em 1914. E já havia lecionado sobre o tema a partir de 1910: sobre serviços religiosos, econômicos e legais entre clãs e frarias nas tribos do Noroeste Americano (1910-12) e sobre formas primitivas de contratos e trocas coletivas (1912-3). Mas é  no pós-guerra que as investigações consolidam, no que resultarão na publicação de seu maior escrito, o Ensaio sobre o Dom (1923-4). Ainda em 1924, funda, juntamente com Levy-Brühl e Paul Rivet, o Institut d’Etnologie de Paris, o que o tornará responsável pela formação da primeira geração de antropólogos franceses (Georges Dumézil, André Leroi-Gouhran, Roger Caillois, Georges Battaille, Claude Lévi-Strauss e muitos… muitos outros). No trabalho de reconstrução da escola sociológica francesa, ele publica uma retrospectiva histórica da sociologia, bem como importantes ensaios de sistematização da sociologia.

A partir de 1920, ele tornou-se responsável pela “invenção do simbólico” e a fundação de um campo de estudos que podemos intitular de antropologia do simbólico. A data de nascimento da antropologia do simbólico é facilmente estabelecida: 1924, quando da intervenção de Mauss na Sociedade de Psicologia sobre o tema Relações Reais e Práticas da Psicologia e da Sociologia. A teoria do simbólico é desenvolvida propondo uma cooperação entre antropossociologia com a psicologia e a psicopatologia, bem como com a história. Quem propôs o termo “antropologia do simbólico” foi Camille Tarot. Com ele, pretende assinalar que o projeto de Mauss está vinculado a uma questão antropológica, ainda que o termo antropologia seja evitado por ele devido a estar associado, na França, à antropologia física e biológica. Mas, em 1931, Mauss já concebe um lugar de excelência à antropologia: “a antropologia é o conjunto das ciências humanas”.[6] Ela tem por objetivo vincular os fatos sociais ao “fundo psíquico da humanidade”, sendo o simbólico a instância que articula ambos: psiquismo e sociedade. Donde deriva a renovação metodológica das ciências sociais por meio da proposta de investigação dos fatos ou fenômenos sociais totais, capaz de recompor o homem total.

O campo de investigação é vastíssimo, sendo os escritos de Mauss fragmentos de investigações que jamais se colocaram na perspectiva de uma sistematização teórica: sobre a expressão obrigatória dos sentimentos em rituais funerários, compreendendo-a como formas de linguagem (1921); sobre a eficácia simbólica das crenças selvagens, em que, pela sugestão da morte, são capazes de efetivamente acarretarem a morte real do infrator (1926); sobre a história das categorias de pessoa humana (1938); e, enfim, o texto clássico sobre as técnicas corporais, onde investiga como o simbolismo se expressa e se reproduz por práticas corporais, abrindo o campo de investigação do modo como o simbólico opera encarnado na ação social, no corpo dos sujeitos e na expressividade de seu agir (1938).

Política do entre-guerras: nação, civilização e pacifismo

Paralela e articuladamente às investigações científicas temos as incursões políticas. No pós-guerra os temas da nação e do nacionalismo, da paz e do pacifismo, da Europa, do cooperativismo e de um socialismo renovado estão no coração da análise. Entre 1920-1925, publica mais do que nunca escritos políticos, no Le Populaire, no L’Action coopérative  e principalmente no Vie Socialiste.

Dois temas se tornam centrais para a reflexão ao mesmo tempo política e intelectual: o da civilização e o da nação. Mauss se dedica a uma clarificação do conceito e das formas de civilização, esboçando um escrito sobre os seus elementos e formas, e lecionando no Collège de France, em 1931-2, um curso sobre a história geral da civilização e o uso da noção de primitivo em sociologia. Ele concebe e começa a empreender, também, o projeto de sua magnum opus, ao mesmo tempo descritiva, histórica e normativa, sobre a Nação, iniciado em torno de 1919-1920, mas que acaba por não ser realizado.

Tal projeto está inteiramente vinculado com suas reflexões políticas do imediato pós-guerra, em que prevalece o objetivo de uma renovação do socialismo, de um socialismo “sem doutrinas”, vinculado ao problema da possibilidade de uma paz entre as nações: será o projeto internacionalista e socialista de uma paz entre as nações possível?, eis a questão. Averso ao nacionalismo e objetivando o socialismo internacionalista, ele entende, contudo, que a experiência da nação é central à vida moderna. No plano da obra, ele oscila, portanto, entre o tema do socialismo e da nacionalização, de um lado, e o tema da nação e do nacionalismo, de outro, que são, na verdade, para Mauss, as duas faces de toda análise global das sociedades contemporâneas.  Ele formula, segundo Schnapper, a ideia de cidadania como “comunidade de cidadãos”, o que, no plano internacional, remete a um direito internacional fundado sobre uma sociedade universal efetivamente existente.

Neste contexto, ele se engaja também em uma crítica severa do bolchevismo, tratando dentre outras coisas do problema da relação entre o socialismo e a IIIa Internacional, bem como sobre as razões do retubante fracasso da revolução bolchevique e de seu fetiche pela violência e pela política; em 1923, publica na Vie Socialiste uma série intitulada Sur la Violence, e concebe o projeto de um livro dedicado à “apreciação sociológica do bolchevismo”, que, mais uma vez, jamais foi realizado, acabando por publicar apenas um esboço do que seriam as conclusões (1924).

O ocaso de um prometeu e o fim de uma época

Os anos 1930 foram o apogeu de Mauss, com o ingresso no Collège de France (1930), depois de três fracassadas tentativas, e com o retorno da esquerda ao poder (1932), mas logo o partido socialista irá dividir (1933), problemas de saúde aparecerão e o nazismo entrará em ascensão. Se, no início dos anos 1930, os temas da nação, da paz, da Europa e do socialismo estão no coração da análise, já nos meados da década, com a vaga de nacionalismos e, posteriormente, com a ascensão de Hitler (1933), ele estará menos preocupado com a luta socialista e mais engajado em prol do pacifismo, do desarmamento e da Sociedade das Nações, juntando-se ao movimento antifascista, aderindo ao Comitê de Vigilância dos Intelectuais Antifascistas e participando do Comitê Mundial contra a Guerra e o Fascismo.

Nesse período, ele manifesta profunda preocupação com a proliferação das propostas de remitização, onde o tema do sagrado é retomado em vários cantos, inclusive no Collège de Sociologie, que surge dentre os discípulos de Mauss, que se apropriam das aquisições de seu mestre por meio das lentes do surrealismo (Georges Bataillle, Michel Leiris, Roger Caillois, Anatole Lewitzky), a fim de construir uma sociologia sagrada. Projeto em relação ao qual Mauss mantêm uma distância reticente, ou mesmo crítica – como vemos na Carta de Mauss a Caillois, de julho de 1938, escrita a respeito de sua leitura do manuscrito de Le Mythe et l’Homme (1938) dado por Caillois para sua apreciação. Após elogiar o trabalho bem feito de analista dos mitos, Mauss parte para uma severa crítica do autor, que na verdade é um diagnóstico da época:

o que eu creio um descarrilhamento geral, do qual você mesmo é vítima, é esta espécie de irracionalismo absoluto pelo qual você termina, em nome do labirinto e de Paris, mito moderno; mas eu creio que você está, neste momento – provavelmente sob a influência de Heidegger, [que é] um Bergsoniano caído no hitlerismo –, legitimando o hitlerismo embrutecido de irracionalismo, e, sobretudo, esta espécie de filosofia política que você tenta fazer sair dele em nome da poesia e de uma vaga de sentimentalidade. Da mesma forma que estou persuadido de que os poetas e os homens de grande eloquência podem algumas vezes ritmar a vida social, da mesma forma eu sou cético sobre as capacidades de uma filosofia qualquer, e sobretudo de uma filosofia de Paris, de ritmar o que é que seja.[7]

Com o estouro da IIa Guerra, a ocupação nazista de Paris e a instauração do Regime Vichy do marechal Pétain, em 1940, tendo sido feitas restrições aos judeus, Mauss acaba por se demitir em setembro da École Pratique e, no mês seguinte, do Collège de France. Decide ficar em Paris, talvez por se saber intocável devido à notoriedade. Chega a defender alguns colegas e antigos alunos judeus, porta, com orgulho, quando obrigatória, a estrela amarela em seu casaco e, em outubro de 1942, é expulso de seu apartamento quando requisitado por um general alemão.

Com perdas de memória e sem sua biblioteca, quase não produz mais nada e pára de ler. Tendo perdido o vigor e a vivacidade de espírito ao longo da guerra e da ocupação, vai “desligando lentamente”, como ele mesmo diz, até falecer em 11 de fevereiro de 1950.

Notas

[1] MAUSS, Marcel. “L’oeuvre de Mauss par lui-même,” p. 218.

[2] MAUSS, M. “Carta de Marcel Mauss a Paul Lapie”, Março de 1898. Apus TAROT, C. De Durkheim à Mauss, epígrafe do Livro Segundo.

[3] FOURNIER, M. “Introduction”, in EP, p.21.

[4] Ibid, p.22-3.

[5] O militante pacifista Jaurès foi assassinado, em 31 de julho de 1914, em um café em Paris por um bandido nacionalista francês, como é expressamente dito em seu nome, Raul Villain, que cometeu a vilania porque queria a Guerra; e, logo depois, de fato, se iniciou a mobilização geral.

[6] TAROT, C. L’Invention du Symbolique, p.275.

[7] MAUSS, M. “Une lettre inédite de Marcel Mauss à Roger Caillois du 22 juin 1938”, in Actes de la recherche en sciences sociales. Vol. 84, septembre 1990. Masculin/féminin-2. p. 87.

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