Artigo – “De volta à Argélia: a encruzilhada etnossociológica de Bourdieu”

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In: BOURDIEU, P. Pìcturing Algeria. Nova Iorque: Columbia University Press, 2012.

Por Gabriel Peters 

Os anos de aprendizado de Bourdieu na Argélia: rascunho para um romance etnossociológico de formação

Em 1955, pouco depois de graduar-se em filosofia na prestigiosa École Normale Supérieure, o jovem Bourdieu foi recrutado para o serviço militar obrigatório no que era então uma colônia francesa em meio a extraordinárias turbulências, as quais resultavam tanto do ciclo de violência de uma guerra anticolonial como…de uma abrupta modernização capitalista imposta “do alto”. Como muitos outros intelectuais franceses de seu tempo, Bourdieu era acidamente crítico quanto aos devastadores efeitos sociopsicológicos do domínio colonial francês sobre a maior parte da população argelina. Não obstante, uma vez em território argelino, primeiramente como soldado (1955- 1957), depois como professor na Universidade de Argel (1957-1961), ele buscou ir além das fórmulas de engajamento político amplamente difundidas por intelectuais de esquerda como Sartre e Fanon, as quais ele via como especulativas, utópicas e pobremente informadas (Bourdieu, 1990, p.19). Rompendo com o escolasticismo filosófico do seu treinamento educacional de elite, mas sem abandonar seu forte senso das injustiças materializadas na conjuntura ao seu redor, Bourdieu começou a cultivar o que se tornaria uma tendência de toda a vida, qual seja, a “sublimação” de suas paixões políticas pelo recurso às ferramentas rigorosas da ciência social. Imbuído com esta espécie de objetividade apaixonada, ele mergulhou no estudo detalhado das condições sociais internamente diversificadas da Argélia, experimentando com uma ampla variedade de métodos de pesquisa, da estatística à etnografia, de entrevistas em profundidade a fotografias e até mesmo testes de Rorschach (!).

A entrada de Bourdieu nas ciências sociais logo tomou a forma de uma combi­nação criativa de conceitos teóricos e insights observacionais in situ…[…] Suas primeiras incursões etnográficas diurnas a comunidades argelinas foram interpoladas com sessões noturnas de escrita sobre a fenomenologia da experiência temporal segundo Husserl (Bourdieu, 2013, p. 6). Tais sessões davam prosseguimento a uma tese de doutorado acerca das “estruturas temporais da vida afetiva” que Bourdieu começara a desenvolver (e jamais concluiria) sob a orientação de Georges Canguilhem. […] A combinação de etnografia diurna em cenários sociais concretos e reflexões noturnas sobre questões rarefeitas de filosofia daria ensejo, com o tempo, a uma disposição durável do habitus sociocientífico de Bourdieu, nomeadamente, a inter­penetração sistemática entre a “grande” teoria e a pesquisa empírica sobre tópicos mundaníssimos que o habitus escolástico tendia a desprezar como indignos da sua vocação. […] Como ilustrado pelo pitoresco comentário do Bourdieu maduro (2002a, p. 40) sobre seu uso de conceitos kantianos na compreensão de estatísticas sobre o consumo de pijamas, tal interpenetração subvertia preconceitos acadêmicos tradicionais em relação ao prestígio de ideias “grandiosas” (por exemplo, as categorias do entendimento segundo Kant) e à sua contraparte no estigma sobre temáticas “menores” (por exemplo, pijamas).

Por que etnossociologia?

[…] No seu próprio título, o primeiro livro de Bourdieu, Sociologie de l’Algérie (1958, 1960), subvertia deliberadamente a divisão ortodoxa entre a sociologia como estudo de sociedades ocidentais “avançadas”, de um lado, e a etnologia como estudo de sociedades não ocidentais “primitivas”, de outro. Desde então, a mobilização de ferramentas teóricas forjadas – ou baseadas – em seu extenso trabalho de campo na Argélia deu ensejo a uma prática sociológica que incorpora um elemento de “imaginação etnológica” entre os seus constituintes fundamentais. Essa incorporação da “etnologia” ao coração da teorização e da pesquisa sociológicas opera especialmente por meio de uma dialética entre a familiarização etnológica do exótico e a “exotização” sociológica do familiar. Ao alargar o senso do cientista social quanto à multiplicidade de formas culturais de ação e experiência humana, o estudo de práticas e instituições estrangeiras fa­cilita uma consciência da contingência histórica do mundo coletivo no qual ele é nativo. Nesse sentido, tal estudo serve de contrapeso à sua tendência espontânea, socialmente inculcada, a tomar as propriedades desse mundo coletivo como naturais, universais e autoevidentes. Na síntese praxiológica entre objetivismo e subjetivismo legada por Bourdieu, o desvio pela alteridade sociocultural opera, portanto, como uma ferramenta de auto-objetivação reflexivaFoi graças a esse procedimento que Bourdieu foi capaz, por exemplo, de transmu­tar a preocupação durkheimiana com a conexão entre estruturas sociais e estruturas mentais nas sociedades “primitivas” em um amplo e detalhado programa de pesquisa sobre a legitimação simbólica de assimetrias de poder em formações modernas, alta­mente diferenciadas, de classes e campos.

[…] Com o benefício da visão retrospectiva, pode-se interpretar o autotreinamento para a pesquisa social que Bourdieu realizou em meio às transformações da Argélia, um aprendizado autodidata em etnografia que ele qualificou de “escolasticamente irresponsável”, como o berço do pluralismo metodológico que se tornaria outro componente fundamental de seu habitus sociocientífico. Além disso, nos níveis teórico e empírico, essa combinação inteligente de técnicas de pesquisa se dirigia, desde o início, à captura das complexas interconexões entre subjetividade e objetividade, “agência” e “estrutura”, “biografia e história” (para usar a clássica ex­pressão de Wright Mills). Bem antes dos “tratados” teóricos sobre a prática em que ele apresentaria sua praxiologia estrutural como uma transcendência de modos subjetivistas e objetivistas de análise do social, o hábil rastreamento de tais inter-relações apareceu, com poucos traços do “reproduti­vismo” lastreado na pesquisa da Cabília tradicional, em seus textos coautorais sobre camponeses expropriados e (sub)proletários urbanos na Argélia dos anos de 1950 e 1960: Travail et travailleurs en Algérie (Bourdieu et al., 1963) e Le déracinement (Bourdieu e Sayad, 1964).

Até mesmo aqueles de nós que não têm os rebuços de Wacquant (2004, p. 390-391) em situar a teoria da prática de Bourdieu entre as “teorias teóricas” que enfrentaram questões de estrutura e agência mais ou menos contemporaneamente, como o estruturacionismo de Giddens, não podem deixar de se impressionar com a versatilidade metodológica, a substância empírica e a relevância ética que os estudos do “jovem” Bourdieu trazem para essas questões. A contraparte da captura teórica das conexões entre os aspectos subjetivos e objetivos do mundo social consistiu em uma conjugação rara de metodologias quantitativas e qualitativas. Enquanto instrumentos estatísticos permitiram que Bourdieu e seus colaboradores, como o brilhante sociólogo argelino Abdelmalek Sayad, diagnosti­cassem “macrotransformações” nos domínios do mercado de trabalho e das demo­grafias urbana e rural, suas “microconsequências” para as condutas e experiências de indivíduos particulares foram atentamente seguidas com observações etnográficas e entrevistas em profundidade. 

[…] Um Bourdieu menos conhecido

[…] Respondendo a um interesse acadêmico renovado sobre os primeiros estudos de Bourdieu acerca da sociedade argelina, [tais] obras [de juventude mostram] um Bourdieu que discrepa…do consagrado analista da naturalização sociossimbólica da dominação graças à conexão…entre habitus e campos. Em vez da reprodução de assi­metrias de poder através da violência simbólica que garante a cumplicidade prática dos agentes dominados com a sua própria dominação, o que se acha nesses textos são relatos de rebelião aberta contra a humilhação coletiva, de ciclos crescentes de violência física rasgando os véus ideológicos que até então justificavam a dominação colonial e, por fim, das condições sócio-históricas de possibilidade da resistência re­volucionária. Em vez da cumplicidade ontológica entre estruturas sociais e mentais,…um foco sobre as dificuldades práticas e existenciais de indivíduos cujas disposições subjetivas foram cultivadas em um meio rural e tradi­cional, estando agora radicalmente fora de compasso com os requisitos objetivos do capitalismo urbano no qual tais indivíduos foram forçados a operar. Em vez de uma nítida “ruptura epistemológica” (Bachelard) com narrativas de senso comum, amarrada a uma ênfase sobre as disposições infraconscientes e não discursivas do habitus, o que desponta é o recurso sistemático a longos testemunhos de agentes leigos, alguns dos quais provam ser notavelmente reflexivos e perspicazes a respeito das condições em que se encontram.

[…] O envolvimento desapegado de Bourdieu: a fotografia como instrumento de “objeti­vação participante” e “amor intelectual”

Um dos melhores modos de abordar a bem conhecida síntese teórica entre os “momentos” objetivista e subjetivista em um quadro de análise praxiológico é apon­tar para seu agudo senso dos trade-offs epistêmicos envolvidos em relacionamentos distantes e próximos entre o cientista social e os agentes cujas práticas ele pretende explicar e compreender. O desafio máximo, conforme a estratificação da praxiologia de Bourdieu em dois “momentos” analíticos de objeti­vismo e subjetivismo, consiste em combinar as vantagens intelectuais da “alienação” e do “envolvimento”, para colocar nos termos de Elias, ao mesmo tempo que os seus respectivos limites heurísticos são superados. Ao longo de suas incursões etnográficas pelas diferentes regiões e comunidades da sociedade argelina, houve uma ferramenta metodológica que Bourdieu considerou particularmente adequada para o alcance desse equilíbrio entre “a distância do observador”, de um lado, e a “familiaridade, atenção e sensibilidade até mesmo aos detalhes menos perceptíveis” que apenas a proximidade garante, de outro: a fotografia (Bourdieu, 2012, p.1).

[…] As funções que a fotografia desempenhou no trabalho de campo de Bourdieu foram múltiplas. Em primeiro lugar, as fotos tinham uma qualidade documental, no sentido de que, tiradas em situações de urgência etnográfica, por assim dizer, elas operavam como anotações visuais às quais ele poderia retornar pausada e atentamente mais tarde. Além de um artifício mnemônico que as tornava o equivalente imagéti­co de um caderno de campo, o recurso a fotografias foi uma importante moeda de comunicação entre pesquisador e pesquisados, ao servir como um meio pelo qual Bourdieu expressava sua (genuína) preocupação moral com as pessoas cujas vidas ele estava estudando, muitas das quais estavam interessadas em obter fotografias de si próprias e/ou na divulgação de suas difíceis circunstâncias para um público interessado. A prática da fotografia intensificou a sensibilidade de Bourdieu para as minúcias de cenas socioetnográficas, levando-o a perceber detalhes sociologicamente relevantes que teriam escapado à sua atenção não fosse por essa função sensibilizadora da produção regular de retratos. Além disso, de um ponto de vista afetivo, tirar fotos era um modo de interpor alguma distância entre ele e as pessoas cujas provações ele estava retratando, uma distância sem a qual, diz Bourdieu, ele teria sido assoberbado pela emoção diante de tantas aflições e, assim, motivacionalmente incapacitado de continuar seu trabalho de testemunho.

[…] Observando os retratos textuais e fotográficos da Argélia produzidos por Bourdieu, descobre-se que as raízes existenciais da sua obsessão pela reflexividade epistemoló­gica não derivam somente dos deslocamentos estruturais inerentes à biografia de um miraculè, saído de uma pequena aldeia provinciana no Béarn para chegar ao pináculo do campo acadêmico francês no Collège de France em Paris. Essa obsessão também adveio da experiência fundacional de ter de conduzir pesquisas empíricas em meio a um contexto de guerra, no qual a natureza do relacionamento social entre o pes­quisador e seus informantes, bem como a atenção aos menores e aparentemente mais triviais detalhes procedimentais, eram literalmente uma questão de “vida ou morte” (Bourdieu, 2012, p. 17). Além dos desafios inerentes à realização de uma etnografia em circunstâncias tão arriscadas, as quais envolviam, por exemplo, “avançar […] por uma estrada entupida, no trajeto inteiro, por carcaças de carros carbonizados” com “o estrondo das metralhadoras” ao fundo (Bourdieu, 2005, p. 77), a reflexividade de Bourdieu também foi intensificada pela ambivalente experiência, em primeira mão, das condições coloniais e violentas de possibilidade da etnologia:

Eu havia partido para as montanhas a pé para observar as aldeias destruídas, e encontrei casas que tinham tido seus telhados retirados para forçar as pessoas a saírem. Elas não haviam sido queimadas, mas não eram mais habitáveis. E eu me deparei com jarras de argila nas casas […] na Cabília, eles as chamam aqoufis, essas grandes jarras de argila decoradas com desenhos. Os desenhos são frequentemente de cobras, cobras sendo um símbolo de ressurreição. E, ainda que a situação fosse tão triste, eu estava feliz em poder tirar fotografias – era tudo tão contraditório. Eu só fui capaz de tirar fotos dessas casas e imóveis porque elas não tinham mais telhados […]. Eu estava muito comovido e sensível ao sofrimento das pessoas, mas, ao mesmo tempo, eu tinha o distanciamento de um observador, manifesto pelo fato de que estava tirando fotos…” (Bourdieu, 2012, p. 18).

A tristeza do sociólogo

[…] Refletindo acerca das motivações que o levaram a envolver-se intensamente no trabalho de campo em um contexto de guerra que o expunha a riscos consideráveis, Bourdieu sublinhou que seu…

[…] “engajamento total e esquecimento do perigo não tinham nada a ver com […] heroísmo e se enraizavam […] na tristeza e ansiedade extremas em meio às quais eu vivia e, com a vontade de decifrar um enigma do ritual, de observar um jogo, de ver este ou aquele objeto […] ou […] com o simples desejo de […] testemunhar, levavam-me a lançar-me de corpo e alma no trabalho puxado que me permitiria estar à altura das experiências de que eu era testemunha indigna e desarmada e das quais eu queria dar conta a qualquer preço” (Bourdieu, 2005, p. 77).

[…] O senso agudo da arbitrariedade dos próprios privilégios de classe e categoria, acompanhado da cons­ciência doída da negação de tais privilégios a outros, jamais abandonou Bourdieu, o mesmo valendo para o mergulho frenético no trabalho intelectual como resposta emocional e prática a tamanha tris­teza:

minha tarefa de sociólogo, a qual não me parecia um dom nem algo devido, tampouco uma (um tanto grandiloquente) ‘missão’, era decerto um privilégio que acarretava de pronto um dever. [A tarefa era] […] em parte, o anteparo e racionalização […] de uma causa mais funda: uma infelicidade bastante cruel, que fez entrar o irremediável no paraíso infantil da minha vida e, desde o início dos anos 50, acabou pesando sobre cada um dos momentos da minha existência […]. O trabalho desatinado era ainda a maneira de preencher um vazio imenso e de livrar-se do desespero ao demonstrar interesse pe­los outros; […] Tudo o que disse […] a respeito das causas ou das razões […] das experiências evocadas, como minhas aventuras argelinas ou meus entusiasmos científicos, mascara […] a pulsão subterrânea e a intenção secreta que constituíam a face oculta de uma vida dilacerada” (Ibid. p. 98).  

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