Biografia do Marxismo Sociológico: Gramsci e Karl Polanyi, por M. Burawoy

Blog do Sociofilo

Seção Cartografias da Crítica

Temática Transversal

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Karl Polanyi ensinando na Worker’s Education Association, 1939. Desenho de William Townsend

Por Michael Burawoy*

Tradução e adaptação de Alberto Luis Cordeiro de Farias

Revisão de André Magnelli

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Talvez seja estranho relacionar Gramsci e Polanyi. Eles raramente são vistos como pensadores paralelos ou mesmo aparentados [1]. Gramsci, afinal, está firmemente localizado dentro da tradição marxista, preocupado com as questões do poder e dominação de Lenin, cuja contribuição única foi trazer a cultura e a ideologia ao centro da análise política. Sujeitando a sociologia a uma crítica fulminante, o parentesco de Gramsci com Durkheim e Weber é facilmente perdido [2]. Polanyi, por outro lado, está frequentemente associado à análise da economia de Weber e adota, como sua própria, a assinatura melódica de Durkheim, a “realidade da sociedade”. Com Weber, Polanyi insiste no lugar do Estado em forjar e depois regulamentar uma economia de mercado. Hoje, Peter Evans leva este Polanyi weberiano ainda mais longe com seu conceito de “embedded autonomy” [3]. Com Durkheim, Polanyi insiste sobre as bases sociais do mercado, os celebrados elementos não-contratuais do contrato de Durkheim, bem como a sociedade não-contratual. Mark Granovetter representa esse Polanyi durkheimiano com sua insistência em redes sociais como condição prévia da troca de mercado [4]. A ligação entre Polanyi e Gramsci torna-se ainda mais improvável pelo foco de Polanyi no reino da troca em vez da produção, e pela freqüente rejeição do “marxismo popular” por Polanyi [5].

Não podemos nos surpreender, portanto, que esses dois gigantes da teoria social do século XX nunca estejam associados. No entanto, um exame mais aprofundado de suas respectivas críticas da sociologia e do marxismo mostra suas semelhanças. Cada um se opôs ao “positivismo” bruto nos trabalhos de sociólogos e marxistas. Assim como Gramsci reduziu a sociologia a um atomismo causal grosseiro, leis de ferro da mudança, Polanyi reduziu o marxismo à sua variante mais economicista [6]. A escolha do “outro” contra o qual se definem não era insignificante, como veremos, mas as características desse “outro” eram bastante semelhantes em ambos os casos, ou seja, uma ciência social afastada da experiência vivida, removida da história, separada da vontade coletiva das classes, afastada do indeterminismo da política e da busca por uma nova ordem intelectual e moral. Essas são as suas acusações compartilhadas igualmente em relação ao marxismo vulgar e à sociologia positivista.

Neste artigo, procuro mostrar quão convergentes foram seus pensamentos e, ao mesmo tempo, como suas divergências trazem contribuições complementares – uma política e outra econômica – ao marxismo sociológico. Indo além das polêmicas batalhas de seus tempos, que os fazem parecer superficialmente diferentes, insiro suas teorias de volta em suas biografias políticas. Muito frequentemente os escritos de Gramsci e de Polanyi foram saqueados como as carcaças de corpos mortos – as partes mais úteis arrancadas do invólucro que lhe dá significado e transplantadas com dificuldade para outras teorias. Pretendo restaurar esses dois corpos de teoria em sua totalidade e como eles se relacionam entre si. Isso requer explorar o contexto econômico, político e ideológico que deu sentido aos seus projetos de vida paralelos. Para essas duas figuras, seu envolvimento com forças históricas é inseparável de seu desenvolvimento teórico. A biografia não é, portanto, um pano de fundo, mas é essencial para a compreensão da integridade de seus pensamentos. Uma vez estabelecida sua semelhança marxista, poderemos nos voltar, na próxima seção, para seus diferentes lugares na tradição marxista.

Origens sociais divergentes

Gramsci e Polanyi vieram de extremidades opostas da Europa, mas também de extremidades opostas da estrutura da classe [7]. Sua eventual convergência intelectual é uma confirmação ressonante de sua própria fé na capacidade humana de transcender as origens sociais. Gramsci nasceu em 1891, em uma grande e pobre família rural na Sardenha. Seu pai era um burocrata de nível inferior, que desapareceu na prisão quando Gramsci tinha sete anos sob falsas acusações de pequeno crime, deixando sete crianças pequenas sob o cuidado da mãe. Gramsci, a quarta nascida, era corcunda desde uma idade muito precoce. Impedido de ter a vida normal de uma criança, profundamente sensível a respeito de seu corpo mal formado, ele se dedicou desde cedo aos livros e à aprendizagem. Mas foi doloroso – psicológica e fisicamente – lutar para passar de uma escola para outra, repetidamente interrompido pela pobreza. Finalmente, por força de uma enorme determinação, ele entrou na universidade em Turim, e lá levou uma existência estudantil miserável, atormentada e muitas vezes solitária.

Polanyi, ao contrário, nascido cinco anos antes de Gramsci em 1886, cresceu em uma família próspera da classe média judaica (embora convertida ao calvinismo) em Budapeste. A riqueza de seu pai, feita a partir de um negócio ferroviário muito bem-sucedido, foi canalizada para a melhor educação privada que o dinheiro poderia comprar, com muitos tutores e educadores. Polanyi, o filho do meio de cinco, cresceu em um ambiente distinto e intensamente intelectual. Sua mãe dirigia um salão para os principais artistas, escritores e radicais da Budapeste da época. Cultura e educação chegaram a Polanyi em uma bandeja de ouro. Quão diferente de Gramsci! No entanto, ambos acabariam com compromissos socialistas semelhantes – um, desenvolveu seu intelecto dentro e através do sofrimento, enquanto o outro descobriu o sofrimento através do intelecto.

Polanyi e Gramsci foram influenciados por irmãos mais velhos que foram dedicados revolucionários socialistas, mas suas próprias primeiras ações políticas não foram socialistas. Como era típico da intelligentsia radical do Sul, Gramsci tornou-se um nacionalista da Sardenha, em relação ao Norte como uma potência colonizadora ilegítima. Foi somente depois que ele se instalou na cidade industrial do norte de Turim e viu o movimento crescente dos trabalhadores, ao mesmo tempo que testemunhava a violenta repressão dispensada aos destacados mineiros rurais na Sardenha (1913), que começou a ver o poder de classe – a potencial unidade dos trabalhadores no Norte e dos camponeses no Sul, que era necessária para desafiar o conluio crescente de capitalistas do norte com os proprietários do sul. Abandonando seus estudos universitários, ele se lançou no movimento crescente dos trabalhadores de Turim. De sua pena correram peças eloquentes que falavam por objetivos liberadores, projetados para criar uma cultura embrionária da classe trabalhadora.

As primeiras atividades políticas de Polanyi também eram de caráter nacionalista. Ele formou o Círculo Galilei em 1908 quando ainda era um estudante universitário, uma ampla organização exigindo que a Hungria abandonasse seu manto feudal e estabelecesse uma sociedade burguesa próspera e aberta com uma política liberal e uma educação moderna. Os galileus, cerca de dois mil resistentes, como relatou mais tarde, buscaram renascimento cultural nacional e montaram campanhas de alfabetização para trabalhadores e camponeses. Polanyi interessou-se ansiosamente pelo Movimento Populista Russo, levando-o por pouco tempo em 1914 ao Partido Radical Nacional Bourgeois. O império austro-húngaro desintegrou-se em 1919 após a derrota na Primeira Guerra Mundial e um regime liberal assumiu o poder na Hungria, seguido em rápida sucessão pela República dos Soviets, mais radical mas de curta duração. Polanyi refletiu sobre o desenrolar dos acontecimentos a partir da margem, saindo de Budapeste para Viena em junho de 1919, antes que a República Soviética desmoronasse em 1 de agosto de 1919. Hostil à noção de Ditadura do Proletariado, mas percebendo as limitações da democracia liberal, assumiu um terceiro via socialista para as liberdades democráticas.

Os socialistas contra o marxismo

Se tanto Gramsci quanto Polanyi emergiram da Primeira Guerra Mundial como socialistas, Polanyi mais incerto do que Gramsci, não houve muita simpatia pelo marxismo alemão ortodoxo de seu tempo. Seu socialismo estava muito longe das leis deterministas da história. Ambos foram rapsódicos sobre a capacidade humana para formar a história à sua própria imagem. Tanto Gramsci quanto Polanyi absorveram o idealismo italiano e alemão de sua época, embora ambos tirassem a sua inspiração política da Rússia – Polanyi dos Populistas com sua base camponesa, Gramsci dos bolcheviques com seu apoio proletário.

Gramsci ficou fascinado pela revolução russa que se desenrolava. Seu famoso artigo, escrito em 1917, “A Revolução Contra a Capital” é um hino para os bolcheviques que desafiaram as leis históricas que Marx havia assiduamente estabelecido no Capital – leis que eram a muleta da inação para tantos marxistas contemporâneos. Para Gramsci, os bolcheviques não eram “marxistas”.

Eles não usaram as obras do Mestre para compilar uma doutrina rígida. . . Eles vivem o pensamento marxista – esse pensamento que é eterno, que representa a continuação do idealismo alemão e italiano e que no caso de Marx foi contaminado por incrustações positivistas e naturalistas. Esse pensamento vê como o fator dominante na história, não os fatos econômicos brutos, mas o homem, os homens nas sociedades, os homens em relação uns aos outros, alcançando acordos uns com os outros, desenvolvendo através desses contatos (civilização) um vontade social e coletiva; homens que entendem os fatos econômicos, julgando-os e adaptando-os à sua vontade até que isso se torne a força motriz da economia e molde a realidade objetiva [8].

A Revolução Russa converteu o jovem Gramsci ao marxismo, não como uma doutrina científica, mas como uma ideologia poderosa, uma fantasia concreta que poderia captar a imaginação das classes subalternas, galvanizando sua vontade coletiva de trazer a história sob a sua direção [9]. Note-se que a vontade coletiva é forjada por “homens em sociedade, homens em relação uns aos outros, chegando a acordos uns com os outros”, o que Polanyi mais tarde aludirá como “a realidade da sociedade”.

Expressando seu idealismo em termos semelhantes, Polanyi inspirou-se no icônico poeta húngaro Endré Ady. Por ocasião do memorial para Ady em 1919, Polanyi escreveu: “A verdade é ‘que o pássaro voa apesar e não por causa da lei da gravidade’ e que ‘a sociedade se eleva a estágios que incorporam idéias cada vez maiores, em vez de por interesses materiais’” [10]. Não menos do que Gramsci, Polanyi se opôs às incrustações positivistas no marxismo.

Nunca houve uma superstição tão absurda quanto a crença de que a história do homem é governada por leis que são independentes de sua vontade e ação. O conceito de um futuro que nos espera em algum lugar é sem sentido porque o futuro não existe, nem agora nem depois. O futuro está constantemente sendo refeito por quem vive no presente. O presente é a única realidade. Não há futuro que dê validade às nossas ações no presente [11].

Não foram os bolcheviques, no entanto, mas os Social Revolucionários de base camponesa – os verdadeiros herdeiros do populismo russo, logo vencidos pelos bolcheviques no poder – que capturaram a imaginação de Polanyi. A influência dos populistas certamente foi um fator que levou Polanyi a colocar a crítica do mercado no centro de sua teorização, assim como a influência dos bolcheviques levou Gramsci a se ocupar do problema do Estado.

Cada um procurou por exemplares institucionais para incorporar a “vontade coletiva” e fundamentar suas crenças socialistas. Gramsci procurou análogos aos celebrados Soviets russos e encontrou-os nos Conselhos de Fábrica da indústria automobilística de Turim. De 1919 a 1920, a classe trabalhadora de Turim assumiu o comando da cidade, levando às prematuras ocupações da fábrica de 1920. Como editor do jornal L’Ordine Nuovo, Gramsci estava profundamente imerso em articular as aspirações do movimento. Sem um amplo apoio nacional dos sindicatos e do Partido Socialista, o movimento fracassou. Essa experiência fracassada daria a Gramsci uma pausa para a reflexão ao longo de sua vida, levando-o a reconhecer o poder da hegemonia capitalista, de um lado, e a necessidade de um efetivo partido da classe trabalhadora para desafiar essa hegemonia, do outro. Membro fundador do Partido Comunista Italiano e por fim o seu Secretário Geral, Gramsci tentaria manter contato com os trabalhadores mais conscientes da classe, que oscilavam entre o “falso radicalismo” do abstencionismo e o “reformismo estéril” dos sindicatos.

Embora Polanyi tenha mantido a política sempre à boa distância, ele foi, no entanto, profundamente influenciado pelo socialismo municipal da Viena Vermelha. Organizada pelos social-democratas austríacos, teorizada por Otto Bauer como “democracia funcional”, buscou dar poder às organizações da classe trabalhadora e elevar sua cultura de classe. Em suas notas para A Grande Transformação, Polanyi escreve que a administração socialista de Viena alcançou “um dos triunfos culturais mais espetaculares da história ocidental” [12].

1918 iniciou uma igualmente exemplar ascensão moral e intelectual sem precedentes na condição de classe trabalhadora industrial altamente desenvolvida que, protegida pelo sistema de Viena, resistiu aos efeitos degradantes da grave perturbação econômica e alcançou um nível nunca ultrapassado pelas massas das pessoas em qualquer sociedade industrial [13].

Em suas aspirações em direção a uma democracia dos trabalhadores, foi semelhante ao Movimento do Conselho de Fábrica em Turim – menos radical, mas de maior duração. O próprio Polanyi teve contato direto com a classe trabalhadora somente através do ensino na Universidade dos Trabalhadores. A maior parte do seu tempo em Viena, de 1919 a 1933, foi absorvida com o jornalismo, pelo Bésci Magyar Ujság (Notícias húngaras vienenses) e pelo jornal financeiro austríaco Oesterreichischer Volksvirt, que cobre eventos nos Estados Unidos, na Inglaterra e na União Soviética. No entanto, ele encontrou tempo para se envolver em uma defesa pública da viabilidade de uma economia socialista contra o fundamentalismo de mercado de Von Mises. Onde o intenso envolvimento político de Gramsci o levou a uma crítica do Estado, o envolvimento de Polanyi com a economia do socialismo levou-o a uma crítica do mercado. Mas cada um deles, à sua maneira, estava tateando em direção à uma terceira via socialista que elaboraria no exílio.

No exílio: teóricos da sociedade e do socialismo

Suas expectativas por uma nova ordem socialista foram destruídas quando o fascismo surgiu das cinzas de revoluções fracassadas – na Itália e na Áustria. Isso seria fatal para ambos. Gramsci foi levado a julgamento por traição em 1926 e condenado a vinte anos de prisão. Ele morreria na prisão em 1937, mas não antes de escrever seus célebres Cadernos do Cárcere que o imortalizaram como a figura imponente do marxismo ocidental. Suas reflexões sobre o fracasso da revolução no Ocidente e o sucesso do fascismo levaram-no a uma análise do mundo ocidental, contra o pano de fundo das revoluções russa e francesa. Polanyi fugiu para a Inglaterra em 1933, quando a ascensão do fascismo austríaco tornou sua perspectiva socialista insustentável. Em 1940 ele foi convidado para lecionar nos Estados Unidos. Impossibilitado de voltar para a Inglaterra, então sob o cerco da guerra, assumiu um compromisso de três anos no Bennington College, onde escreveu o já gestado A Grande Transformação. O subtítulo do livro – A Política e Origens Econômicas do Nosso Tempo – poderia muito bem ter sido o subtítulo dos escritos da prisão de Gramsci.

Gramsci e Polanyi deixaram de viver “a vida do mundo” quando o fascismo interrompeu suas atividades políticas e intelectuais. A sua formação política chegou ao fim, mas a sua originalidade intelectual ainda estava por vir. Gramsci foi preso na Itália precisamente no momento em que Polanyi entrou em seu próprio deserto. Em 1958, cerca de seis anos antes de morrer, Polanyi refletia sobre sua vida: “O mundo parou de viver por várias décadas… Então, só agora estou entrando no meu próprio, tendo perdido algum lugar há 30 anos no caminho – esperando por Godot – até que o mundo novamente me apanhou” [14]. Os anos de prisão de Gramsci e os anos de exílio de Polanyi, contudo, dificilmente foram desperdiçados. Na verdade, eles produziram algumas das ciências sociais mais fecundas do século XX.

Foi quando ambos tiveram seu “segundo encontro” com o marxismo. Para Gramsci foi um afastamento do voluntarismo de sua juventude, longe do marxismo como ideologia para o marxismo como ciência. Ele descobriu um marxismo mais determinista que compreenderia os limites do possível, os limites dados à formação das classes, ao poder do Estado e da ideologia e às fontes de consentimento espontâneo para o capitalismo. Polanyi, quando muito moveu-se na direção oposta, consolidando seu voluntarismo com a descoberta dos Manuscritos de Paris, de Marx. Dos primeiros escritos filosóficos de Marx, Polanyi tirou uma análise da forma como o capitalismo destruiu o humanismo essencial do gênero humano e transformou indivíduos multifacetados em indivíduos unilaterais, indivíduos calculistas [15]. Na linha dos escritos políticos de Marx sobre a França, Polanyi adotou a ortodoxia otimista do dia – a incompatibilidade do capitalismo e da democracia. O mundo enfrentou uma escolha rígida entre o fascismo (capitalismo sem democracia) e o socialismo (democracia sem capitalismo) [16]. Dos escritos econômicos de Marx, Polanyi tirou as tendências de crise do capitalismo, mesmo que essas crises tivessem pouco a ver com a superprodução ou a queda da taxa de lucro [17]. Gramsci, ao contrário, recusou-se a especular sobre a natureza última dos seres humanos. Ele repudiou as rígidas alternativas do fascismo ou socialismo, considerando o capitalismo como compatível com a democracia liberal como foi com o fascismo. Finalmente, embora o capitalismo possa entrar em crises econômicas, elas não ameaçam a vida. Na melhor das hipóteses, elas oferecem um terreno mais favorável para a disseminação das ideologias socialistas, mas era mais provável que fossem o veículo através do qual o próprio capitalismo reestrutura a si mesmo.

Apesar das diferenças em suas interpretações, seria difícil exagerar a importância do fascismo tanto para Gramsci quanto para Polanyi. Isto é especialmente notável para o desenvolvimento do marxismo sociológico, uma vez que levou ambos a buscar as origens e o significado daquilo que o fascismo tinha distorcido, mutilado, absorvido, ou seja, “sociedade”. O fascismo levou-os de volta ao século dezenove, à inauguração de um fenômeno inteiramente novo que reprimiu e continha as tendências do capitalismo em direção à autodestruição. Para Polanyi, essa “sociedade ativa” tinha uma autonomia própria: para salvar o mercado de suas tendências destrutivas, tornaria-se um obstáculo a ele, ameaçando transcendê-lo e subordiná-lo. Para Gramsci, a “sociedade civil” era um novo terreno de luta que ligava o estado aos ritmos da vida cotidiana. Enquanto Polanyi estava pouco certo sobre a composição institucional da sociedade ativa, Gramsci completou-a com partidos políticos, mídia impressa, educação de massas e todo tipo de associações voluntárias. Tanto para Polanyi quanto para Gramsci, o capitalismo liberal com sua sociedade fraca deu lugar a um capitalismo organizado marcado por uma densa e complexa “sociedade civil” ou “sociedade ativa”, ajudada e encorajada por um estado mais elaborado e mais intervencionista.

Em vez de uma expansão e contração lineares do capitalismo, em que cada país seguiria em fila atrás do líder, Gramsci e Polanyi admitiram que o capitalismo se desenvolvesse em múltiplas direções, assumindo diversas configurações de Estado, sociedade e economia. A questão não era onde as contradições econômicas eram mais profundas ou as forças de produção mais desenvolvidas, mas antes explicar os diferentes caminhos para a democracia liberal, a social-democracia, o fascismo e o comunismo soviético. Ambos colocam os Estados Unidos em uma categoria própria. Para ambos, cada configuração nacional correspondia, em grande parte, ao equilíbrio das forças de classe na sociedade e, em particular, à capacidade de alguma “classe dominante” em representar o interesse geral ou universal. Embora a sociedade nacional fosse a unidade orientadora de análise, no entanto, ambos estavam também conscientes do arranjo internacional dos Estados-nação. Na verdade, ambos viram o fascismo e a transformação stalinista da União Soviética como, em parte, uma reação às pressões das forças econômicas e políticas internacionais.

Embora ambos abraçassem uma análise global, nunca perderam de vista as experiências vividas concretas que impulsionaram as classes em ação. Gramsci teorizaria essa experiência vivida como “senso comum”, envolvendo um núcleo de “bom senso” que representava o potencial emancipatório das diferentes classes. Polanyi não estava menos interessado na experiência vivida de diferentes classes subordinadas. Durante a maior parte de sua vida, Polanyi esteve envolvido em alguma versão da educação dos trabalhadores, começando pelo seu Círculo Galilei, passando ao ensino na Universidade dos Trabalhadores de Viena, e depois na Inglaterra teve um emprego em tempo integral com a Associação de Educação dos Trabalhadores. Ali, ele insistiu que a educação de adultos iniciasse a partir das experiências da vida da classe trabalhadora e reivindicou a elaboração da cultura popular [18]. Como Gramsci, ele entendeu o poder da religião, embora onde Gramsci vituperou contra os efeitos sufocantes do catolicismo, Polanyi proclamou as potencialidades do socialismo cristão.

Em seu último grande trabalho, The Plough and the Pen, uma coleção de literatura húngara editada com sua esposa Ilona Duczynska, Polanyi homenageia os primeiros populistas da Hungria e os escritores humanistas que inspiraram a revolta de 1956 contra o comunismo. Polanyi não está aqui condenando o comunismo, mas mostrando como ele nutriu um antigo, uma Terceira Via alternativa para o socialismo democrático. Assim como os intelectuais orgânicos de Gramsci liberariam o “bom senso” do “senso comum” sob o domínio dos intelectuais tradicionais, os intelectuais populistas de Polanyi liberariam a potencialidade do comunismo contra seus defensores ortodoxos. Entre os grandes teóricos marxistas do século XX, Gramsci e Polanyi são únicos na atenção que prestam ao papel dos intelectuais na elaboração da consciência popular e conectando-a às perspectivas da história nacional e global.

Nem Polanyi nem Gramsci perderam de vista a possibilidade de um futuro socialista. E aqui também eles convergiram – numa visão que subordina a economia à “sociedade”, supervisionada por um Estado responsivo com poderes coercitivos muito reduzidos. Os Cadernos do Cárcere têm muito pouco a dizer sobre a futura ordem socialista, ou o que Gramsci chamou de “sociedade regulada”. Ainda assim, há vestígios inconfundíveis da influência permanente do Movimento do Conselho de Fábrica que fez da produção industrial o cadinho de solidariedade. Seus escritos de L’Ordine Nuovo recordam fortemente a solidariedade orgânica de Durkheim – cada um alcança uma conexão com todo o processo produtivo através da participação em uma divisão hierárquica do trabalho [19]. Do mesmo modo, Polanyi foi influenciado pelo socialismo municipal de Viena – a “democracia funcional” como a chamou – o que ele também ligaria ao socialismo de Guilda, em si uma herança do socialismo do século XIX. Robert Owen foi sobretudo o herói da revolução industrial de Polanyi. Sozinho entre os comentaristas sobre a revolução industrial, Owen sublinhou a sociedade como problema e solução para a degradação e desmoralização que haviam sucedido aos trabalhadores [20]. Os planos de Owen para a comunidade autônoma de trabalhadores baseados em “Aldeias de Cooperação” e uma “Bolsa de Trabalho” foram precursores, exatamente um século antes, da rede de Conselhos de Fábrica de Gramsci [21]. Embora nem os Conselhos de Fábrica nem o Movimento Cooperativo de Owen realizaram seus objetivos, no entanto, ambos inspiraram uma noção societal do socialismo – uma nova ordem moral e intelectual que, embora apenas por um curto período, dominou a imaginação das classes trabalhadoras. Reconhecendo a durabilidade do capitalismo, tanto Gramsci quanto Polanyi prestaram atenção ao poder mobilizador das fantasias concretas. Somente aqueles marxistas que possuíam uma confiança suprema na morte inevitável e próxima do capitalismo, somente eles, Marx e Engels entre eles, poderiam dispensar os Conselhos de Fábrica ou Owenismo como utópicos.

O envolvimento de Gramsci e Polanyi com as revoluções fracassadas no Ocidente, a ascensão do fascismo e a Revolução Soviética superou suas origens sociais opostas, suas trajetórias políticas divergentes e seus diferentes meios nacionais para levá-los de forma independente a um marxismo sociológico semelhante [22]. Ambos imaginaram um socialismo construído sobre os alicerces da sociedade, um espaço separado, além, mas ligado à economia e ao Estado. Eles podem ter descoberto a sociedade, mas aqui sua convergência cessa, pois seus focos e interpretações se baseavam em linhagens marxistas muito diferentes.

Notas

* O presente post é um excerto do artigo de Michael Burawoy: BURAWOY, Michael. For a Sociological Marxism: The Complementary Convergence of Antonio Gramsci and Karl Polanyi, originalmente publicado na revista Politics and Society, nº 31(2): 193-261, 2003. Agradecemos a Burawoy por nos ter gentilmente autorizado a postagem.

[1] Conheço duas exceções. Giovanni Arrighi e Beverly Silver combinam Polanyi e Gramsci (com uma pequena ajuda de Schumpeter) em sua análise da dinâmica do sistema mundial capitalista. Tal como a análise de sistemas mundiais, sua síntese afasta a “sociedade”, que é o núcleo do marxismo sociológico. Ver: Silver and Arrighi, “Polanyi’s ‘Double Movement’: The Belle Époques of British and U.S. Hegemony Compared”, Politics & Society 31, no. 2 (2003). Retorno a Arrighi e Silver na seção VI [ver artigo original de Burawoy]. Outra exceção é Vicki Birchfield, que discerniu a complementaridade no relato de Polanyi sobre a reação da sociedade ao mercado e o relato de Gramsci sobre a dominação política e a ideologia hegemônica. Ver: Birchfield, “Contesting the Hegemony of Market Ideology: Gramsci’s ‘Good Sense’and Polanyi’s ‘Double Movement’”, Review of International Political Economy 6, no. 1 (1999): 27-54.

[2] Gramsci é muito crítico com as pretensões “científicas” da sociologia para desenvolver leis da sociedade. Ele é igualmente desdenhoso com a ideia de sociedade “autônoma” em relação ao Estado: “É óbvio que todas as questões essenciais da sociologia não são senão as questões da ciência política. Se houver um resíduo, isso só pode ser constituído por falsos problemas, ou seja, problemas fúteis”. Selections from the Prison Notebooks (New York: International Publishers, 1971), 244. Curiosamente, de todos os clássicos modernos de ciências sociais, Political Order in Changing Societies (New Haven: Yale University Press, 1968), Samuel Huntington é talvez o mais próximo de Gramsci. Embora seja conservador, Huntington tem uma estranha estima pelo poder da hegemonia, mesmo que ele não a use como conceito. Ele também é muito crítico com a sociologia política por perder as dimensões políticas da sociedade e sua conexão com o Estado. Embora Huntington não faça referência a Gramsci, não coincidentemente ele toma muito de Lenin.

[3] Peter Evans, Embedded Autonomy (Princeton: Princeton University Press, 1995).

[4] Mark Granovetter, “Economic Action, Social Structure, and Embeddedness”, American Journal of Sociology 91 (1985): 481-510.

[5] Polanyi, The Great Transformation: The Political and Economic Origins of Our Time (Boston: Beacon, [1944] 1957), chap. 13.

[6] Gramsci reservou seu maior veneno crítico para a Theory of Historical Materialism: A Popular Manual of Marxist Sociology de Bukharin, que, do ponto de vista de Gramsci, representava melhor a tradição “sociológica” no marxismo, tomando a incumbência por sua objetividade espúria, seu determinismo econômico , A vacuidade de suas chamadas leis empíricas, a abstração de seus conceitos e o idealismo de sua metodologia “materialista” que nunca envolve o mundo (Selections from the Prison Notebooks, 419-72). Gramsci esforçou-se por demarcar seu próprio marxismo (sociológico), ou o que ele chamou de “Filosofia do Práxis”, face ao que Bukharin chamou de “Sociologia Marxista”.

[7] Para a vida de Gramsci, fio-me em Giuseppe Fiori, Antonio Gramsci: Life of a Revolutionary (Londres: New Left Books, 1970). Para a vida de Polanyi, não existe uma fonte única, mas tirei de artigos em três coleções editadas: Kenneth McRobbie, ed., Humanity, Society and Commitment (Montreal: Black Rose Books, 1994); Kari Polanyi-Levitt, ed., The Life and Work of Karl Polanyi (Montreal: Black Rose Books, 1990); Kenneth McRobbie and Kari Polanyi Levitt, eds., Karl Polanyi in Vienna (Montreal: Black Rose Books, 2000).

[8] Gramsci, Selections from Political Writings, 1910-1920 (London: Lawrence and Wishart, 1977), 34-35.

[9] Estou aqui aludindo à definição de Gramsci de “ideologia política nem expressada na forma de fria utopia nem como teorização aprendida, mas antes por uma criação da fantasia concreta que atua em pessoas dispersas e fragmentadas para despertar e organizar sua vontade coletiva” (Selections from the Prison Notebooks, 126).

[10] Citado em: Fred Block and Margaret Somers, “Beyond the Economistic Fallacy: The Holistic Social Science of Karl Polanyi”, in Vision and Method in Historical Sociology, edited by Theda Skocpol (Cambridge: Cambridge University Press, 1984), 50.

[11] Kari Polanyi-Levitt and Marguerite Mendell, “Karl Polanyi: His Life and Times”, Studies in Political Economy 22 (1987): 22.

[12] Polanyi, The Great Transformation, 288.

[13] Ibid.

[14] Cited in Polanyi-Levitt and Mendell, “Karl Polanyi,” 12.

[15] Em um ponto, Polanyi deixa claro que ele está criticando o marxismo vulgar enquanto permanece comprometido com a verdade permanente das primeiras obras filosóficas de Marx. Ele contrasta o marxismo clássico com “a filosofia essencial de Marx centrada na totalidade da sociedade e na natureza não-econômica do homem” (The Great Transformation, 151).

[16] Isso é apresentado de forma bastante crua em um artigo escrito antes de The Great Transformation: “A humanidade chegou a um impasse. O fascismo resolve-o à custa de um retrocesso moral e material. O socialismo é a saída de um avanço em direção a uma Democracia Funcional”; “Marxism Restated”, New Britain, 4 July 1934. Longe de descartar essa visão, mais tarde Polanyi aprofunda-a com a noção de sociedade: “A descoberta da sociedade é, portanto, quer o fim ou o renascimento da liberdade. Enquanto o fascista se resigna a renunciar à liberdade e a glorificar o poder que é a realidade da sociedade, o socialista renuncia a essa realidade e defende a reivindicação da liberdade, a despeito disso” (The Great Transformation, 258A).

[17] Minha interpretação do segundo encontro de Polanyi com o marxismo é diametralmente oposta a Block, que argumenta que a The Great Transformation constitui a “ruptura epistemológica” de Polanyi com o marxismo. Block afirma que Polanyi repudia o modelo de base-superestrutura marxista e a noção de uma economia relativamente autônoma a favor de uma tese não declarada, mas implícita, de que as relações econômicas estão sempre inseridas nas relações sociais. Ver: Block, “Karl Polanyi and the Writing of The Great Transformation”, Theory and Society (forthcoming). No entanto, reconhecer que a economia é composta por relações e práticas sociais, políticas e ideológicas não é de modo algum rejeitar o marxismo. Ver: Michael Burawoy, The Politics of Production: Factory Regimes under Capitalism and Socialism London: Verso, 1985). Além disso, reduzir Polanyi “à economia de mercado sempre incrustrada” é reduzir seu trabalho a uma sociologia estática que é mais profundamente exposta em Durkheim, Simmel e Weber. Não faz justiça à originalidade da análise marxista da dinâmica capitalista de Polanyi, o célebre “duplo movimento” do mercado e da sociedade. Como discutirei ao longo deste artigo [ver o artigo original], The Great Transformation, em vez de uma ruptura com o marxismo, é uma elaboração inovadora de um marxismo sociológico, o companheiro perfeito para o marxismo de Gramsci.

[18] Para o envolvimento de Polanyi por toda vida com a educação socialista, ver o excelente artigo de Marguerite Mendell, “Karl Polanyi and Socialist Education,” in Humanity, Society and Commitment, 25-52. De fato, pode-se dizer que Polanyi era um precursor de Richard Hoggart e da Birmingham School of Cultural Studies.

[19] Durkheim escreve que a divisão de trabalho “normal” dá aos trabalhadores um detalhado significado e sentido de propósito, conectando-os a um objetivo maior, mas ele acrescenta a condição: “Para isso, ele não tem necessidade de preencher as vastas bordas do horizonte social; é bastante para ele perceber o suficiente para entender que suas ações têm um objetivo além de si mesmas”; The Division of Labor in Society (New York: Free Press, [1893] 1984), 308. Para Durkheim, muito discernimento seria perigoso enquanto que para Gramsci é libertador! Ou seja, para Gramsci, o ponto dos conselhos de fábrica era ampliar os horizontes intelectuais do trabalhador quase sem limites: “Começando a partir desta célula original, a fábrica, vista como uma unidade, como um ato que cria um produto específico, o trabalhador prossegue a compreensão de unidades cada vez mais vastas, até o nível da própria nação… Neste ponto, o trabalhador tornou-se um produtor, pois adquiriu consciência do seu papel no processo de produção, em todos os níveis, desde a oficina até a nação e o mundo” (Selections from Political Writings, 110-11).

[20] Polanyi, The Great Transformation, 127-29.

[21] Este paralelo entre a New Lanark de Owen e a Turim de Gramsci tem que ser qualificado! New Lanark, afinal de contas, foi criação de Owen, figura paterna e dono da usina em torno da qual a comunidade foi organizada, enquanto os Conselhos de Fábrica de Turim foram a criação de um movimento operário. Até que seus planos para aliviar a pobreza e a degradação fossem rejeitados pelo parlamento, Owen ocupava-se com os ricos e os abastados. Suas ideias eram na sua origem as de um típico conservador Tory na medida em que promoviam o idílio de uma harmoniosa mas hierárquica sociedade. Como seu pensamento tomou uma direção mais radical criticando a economia política de seus dias, especialmente Ricardo e Malthus, seus planos e comunidades vieram a ser um farol para o “socialismo”. Na verdade, o owenismo tornou-se um verdadeiro movimento social de combate aos rigores do industrialismo, embora o próprio Owen continuasse a ser alérgico a qualquer noção de luta de classes. Ver: Robert Owen, A New View of Society and Report to the County of Lanark, edited with an introduction by V. A. C. Gatrell (Harmondsworth, UK: Penguin, [1813 and 1821] 1970); G. D. H. Cole, Robert Owen (Boston: Little, Brown, 1925).

[22] Não há razões para acreditar que Gramsci possa ter conhecido Polanyi, embora conhecesse Lukács, aparentemente de segunda mão. Ver Selections from the Prison Notebooks, 448. Polanyi morreu em 1964, pouco antes do ressurgimento do interesse em Gramsci.

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