A sociologia no Antropoceno: novos desafios, velhos problemas, por Gerard Delanty

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Por Gerard Delanty [1]

Universidade de Sussex, Brighton, Reino Unido

Tradução Estevão Bosco

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Introdução

            Nos anos 1990, a ideia de globalização se tornou um dos conceitos mais importantes nas ciências sociais. Ela levou a repensar a natureza da sociologia e a pesquisas profícuas.  Neste artigo, argumento que, hoje, o desafio colocado pela globalização não é mais tão grande. Há duas razões para tanto. Primeiro, que um olhar retrospectivo sobre a teoria sociológica clássica revela que, na verdade, ela estava muito consciente do fato de que a modernidade vinha acompanhada de um mundo mais conectado globalmente. Embora o termo não fosse usado, a globalização era uma força no mundo, se não desde o início da civilização humana, certamente desde as Grandes Navegações no século XVI. A enorme transformação trazida pela comunicação eletrônica desde o fim dos anos 1980 deve ser situada em uma perspectiva histórica mais ampla, incluindo transformações importantes que precederam a modernidade. Em segundo lugar, e nisto reside minha preocupação principal neste artigo, que desenvolvimentos recentes em torno da noção de Antropoceno requerem uma compreensão mais profunda da natureza espacial e temporal da sociedade humana do que aquela que pode ser alcançada com a noção de globalização. As ciências sociais e, em particular, a sociologia, ainda não digeriram completamente a chegada do Antropoceno, o qual requer, assim argumento, repensar amplamente a imaginação sociológica, uma vez que ele fornece uma interpretação das transformações de época e é o próprio nome da época atual. Com isso, não estou a sugerir que a teoria sociológica se tornou obsoleta. Os problemas da sociologia moderna e os desafios atuais não se distanciam tanto, se considerarmos que ambos têm em comum a explicação de mudanças de época.

            Se há alguma continuidade na empreita sociológica, é a preocupação em tornar as grandes transformações históricas inteligíveis. Os desafios atuais são diferentes daqueles do final do século XIX, quando surgiu a sociologia. O que há de comum entre esses momentos, todavia, é o desafio de tornar inteligível o presente a luz da mudança da experiência histórica.  A quintessência da imaginação sociológica foi descrita por C. W. Mills em 1959, em uma formulação clássica que permanece convincente: “A imaginação sociológica permite àquele que a possui compreender o cenário histórico mais amplo, em termos de seu significado para a vida íntima e para a carreira externa de uma variedade de indivíduos… É a capacidade de ir das mais impessoais e remotas transformações para as características mais íntimas do ser humano – e de ver as relações entre as duas” (Mills, 1970: pp. 11 e 14). Mills enfatizou o desafio de compreender a realidade ampla que é a história do mundo na maneira como ela se manifesta na vida das pessoas. Por caminhos distintos, os grandes sociólogos clássicos tentaram fazer isso, eles tinham uma compreensão profundamente histórica da tarefa sociológica.

            Uma das características distintivas da sociologia moderna, portanto, é a preocupação em tornar grandes transformações históricas inteligíveis. A sociologia clássica era profundamente histórica, mas sua abordagem sempre diferiu da do historiador, na medida em que buscava compreender a especificidade do presente em termos de totalidade das relações sociais e olhar para o passado tendo em vista o futuro. Suas perguntas eram diferentes das colocadas pelo historiador, assim como os seus métodos, que eram, de modo geral, comparativos e interpretativos. Hoje, existe o perigo de que esse caráter seja perdido e que uma nova geração de historiadores globais assuma a frente da tarefa de tornar as mudanças de época inteligíveis. Portanto, este artigo é um apelo para o restabelecimento de uma macro-sociologia histórica comparativa e da orientação para grandes transformações históricas.

            Meu argumento é o de que uma característica distintiva da sociologia é, precisamente, a de ter as transformações de época como problema central. Isso não é apenas uma questão acadêmica. É provavelmente uma das tendências que definem o mundo de hoje. A turbulência do mundo contemporâneo se deve, em parte, a interpretações distintas das grandes mudanças sociais e políticas. A sociologia tem uma tarefa específica a este respeito, a saber, oferecer às pessoas os meios para que possam ver as próprias vidas pelo prisma de um mundo social mais amplo e da história mundial. 

Grandes transformações históricas e a chegada do Antropoceno

            O mundo moderno foi formado por um conjunto de rupturas históricas que conduziram a uma reconfiguração do tempo e do espaço. No pano de fundo dessas rupturas, encontramos dinâmicas e processos que continuam a dar forma ao nosso mundo, criando certo grau de continuidade. Vamos rever essas rupturas e continuidades, que podem ser caracterizadas de várias maneiras. Esta é a minha reconstrução.

            Sem dúvida, a primeira delas foi a descoberta da América pelos europeus. Depois de 1942, nem o Novo nem o Velho Mundo permaneceram os mesmos. A Era das Descobertas, que foi marcada pelo entendimento de que o mundo é um globo e pelo concomitante domínio do mundo que se seguiu à Revolução Científica, foi o primeiro grande momento transformador da história das sociedades humanas. Isso levou à expansão mundial das potências coloniais europeias, à ascensão do capitalismo e ao predomínio da ciência.

            A próxima grande transformação veio depois de 1789, quando as ideias da Revolução Francesa transformaram a imaginação política na Europa e em todo o continente americano. No século XIX, o capitalismo cresce de maneira desenfreada e se expande progressivamente pelo mundo. Contramovimentos podem ter exercido alguma contenção, como argumentou Polanyi, mas nada deteve sua ascensão implacável.

            A perspectiva de uma contramodernidade não apareceu até 1917, quando, com a ascensão da União Soviética, foi criada pela primeira vez uma ordem de modernidade totalmente diferente. O período subsequente a Primeira Grande Guerra pode ser visto como um momento importante de transformação histórica, que viu a ascensão de potências totalitárias distintas, entre as quais a soviética foi a mais duradoura.

            A transformação histórica seguinte veio com a queda dessa ordem em 1989/1990 e a expansão do capitalismo para o mundo como um todo, agora incluindo a China. Este momento veio acompanhado pelo avanço das tecnologias de informação. Não há dúvida de que a queda do muro de Berlim e os acontecimentos que se seguiram, constituíram uma grande transformação no mundo moderno. Houve a promessa de um mundo mais aberto, no qual o indivíduo poderia desfrutar de novas liberdades. A ilusão foi quebrada depois de 2003, com a Guerra do Iraque e uma nova era de vigilância tecnológica.

            O período atual, que marca o centenário da Revolução de Outubro, também pode ser visto como um momento de transformação histórica, embora de tipo bastante incerto. É a primeira vez que o capitalismo parece estar entrando em uma fase crítica, após convulsões de 2008/9, a crise do neoliberalismo e o que, hoje, vemos com o baixo ou nenhum crescimento econômico; o colapso das ditaduras no mundo árabe; a crise da União Europeia. É um período marcado por profunda incerteza, em que se questionam muitos pressupostos relativos ao significado da verdade e da democracia em uma era de política populista renovada. É um período de grande decepção em relação às promessas da modernidade e da democracia.

            Algo característico a todas as transformações anteriores foi, para o bem e para o mal, o impacto de formas fundamentalmente novas de ver o mundo. Novas ideias surgiram e abriram espaço para novas visões dos mundos humano e natural. É isto o que está ausente hoje. Seja no Brasil, no Reino Unido e na Europa, ou nos Estados Unidos, há um profundo pessimismo, senão uma desesperança, em relação à possibilidade de um mundo melhor. Diante disso, eu gostaria de sugerir que uma visão sociológica da situação atual requer olhar para além da imediaticidade do presente e identificar aspectos formadores da sociedade contemporânea. É neste contexto que a noção de Antropoceno constitui um quadro de referência relevante para a sociologia, pois enfrenta os desafios do nosso tempo.

            A designação do momento corrente como modernidade, modernidade global ou pós-moderno, ou ainda, como está atualmente na moda, como pós-humano, pode encontrar no Antropoceno uma denominação mais precisa. É possível tornar esta noção sociologicamente significativa? Ou ela aponta para a obsolescência da própria noção de social, como argumenta o pensamento pós-humanista? Procurarei mostrar, contrariamente à posição pós-humanista, que o Antropoceno pode ser uma maneira profícua de compreender a transformação do mundo moderno, pela qual as sociedades contemporâneas podem conhecer e governar a si mesmas. Nesse sentido, trata-se de uma forma de autocompreensão histórica. Além disso, também pode ser tido como uma maneira de corrigir alguns pontos cegos da teoria social moderna, como, por exemplo, o seu suposto eurocentrismo e visão nórdica de mundo, e o impacto da história natural da Terra sobre o mundo humano. Entretanto, também argumentarei que a noção de Antropoceno deve tornar-se mais sociológica e ter algumas das características que se associaram a ela desmistificadas.

Novos desafios: Antropoceno, tempo e modernidade

            O Antropoceno é, primeiramente e sobretudo, um conceito temporal no tempo geológico: ele designa a Idade do Homem. É o tempo em que o ser humano passou a provocar grande transformação na estrutura física da Terra. Desde agosto de 2016 que isso tem sido aceito pelo Grupo de Trabalho sobre o Antropoceno da Comissão Internacional sobre Estratigrafia[i]. A noção se refere ao tempo em que o mundo humano e a Terra entram em uma nova fase.  Evidentemente, trata-se também de um conceito político, na medida em que implica em um posicionamento crítico a respeito das consequências daquilo que tenho chamado de relações Terra-mundo, e de um conceito cultural, como argumentarei, na medida em que se vincula a uma interpretação do nosso tempo. Essas três dimensões – a temporal, a política e a cultural – tornam a noção potencialmente relevante para as ciências sociais e diretamente vinculada a questões centrais da teoria sociológica clássica, à medida que nos depara com os novos desafios colocados por insights vindos das ciências naturais. Os desenvolvimentos na geologia e na biologia estão agora forçando as ciências sociais a avançar em relação ao legado científico do século XIX.

            A ideia de Antropoceno sugere uma nova abordagem da temporalidade. Argumento haver três temporalidades que, até agora, têm sido consideradas separadamente, mas que devem ser tidas em conjunto, interconectadas. A primeira delas é o tempo da Terra (o tempo da história da Terra); a segunda é o tempo humano (a história do Homo sapiens sapiens, i.e o homem moderno como distinto de outras espécies de Homo sapiens); e a terceira é o tempo histórico (o tempo profundo das sociedades humanas, anterior ao surgimento das civilizações). Para reconstruir os entrelaçamentos entre elas, seria necessário algo como uma história integrada das ciências sociais, naturais e da vida. Aqui, pode haver um papel para a sociologia e a teoria social cumprirem. Certamente há implicações para a filosofia das ciências sociais, uma vez que um conjunto de pressupostos ontológicos e epistemológicos do pensamento social clássico teria de ser revisto à luz de uma era cuja realidade natural carrega cada vez mais a marca do homem. Voltarei a isso na conclusão. A teoria sociológica pode oferecer novas perspectivas para a análise do período atual, precisamente no âmbito dessas intersecções que estão a conformar transformações nas sociedades humanas; transformações estas que não podem ser plenamente apreendidas pela gama de teorias e conceitos existentes (modernidade e globalização, por exemplo).

            Enquanto termo que designa a Época presente na Escala de Tempo Geológico como ruptura com a Época precedente do Holoceno, que se iniciou 12 mil anos atrás com o fim da última Era do Gelo, o Antropoceno ressalta o impacto do tempo histórico no tempo da Terra. Ele trás, portanto, uma nova perspectiva a ser enfrentada no âmbito do problema da periodização. Embora grande parte da discussão sobre periodização da Escala de Tempo Geológico tenha sido conduzida no campo da geologia e, num contexto mais amplo, da ciência do sistema Terra, houve ramificações para as ciências sociais e humanas. Entre as várias teorias que explicam o surgimento do Antropoceno como uma nova Era geológica do Período Quaternário, a que alcançou certo consenso na ciência do sistema Terra é a assim chamada Grande Aceleração, que situa o ponto de origem no período pós-1945. Essa periodização substituiu outras formulações, entre as quais a do Early Anthropocene, que situa o início do Antropoceno no Pleistoceno tardio, com o começo da civilização, ou ainda, iniciando com a Revolução Industrial. A Grande Aceleração começou entre 1950 e 1964, mas poderia ser datada no dia 16 de julho de 1945, quando houve a detonação da primeira bomba atômica. Em 1964, encontramos evidências claras de um pico de radiocarbono atmosférico registrado nos anéis de crescimento das árvores, que pode ser atribuído a testes nucleares, pois ultrapassa a variabilidade natural (Zalasiewicz et al, 2015). Seja qual for a sua origem específica, hoje é amplamente aceito situar o Antropoceno no período em que mudanças planetárias também se tornam evidentes no sistema Terra como um todo – isto é, essencialmente nos últimos 50 anos. Isso inclui as mudanças climáticas, mas também uma série de outras mudanças, tais como as relativas aos oceanos e a formação de plástico como uma nova rocha. Evidências recentes sugerem que o plástico, uma invenção humana de 1907, se combinou com sedimentos naturais para constituir um novo estrato geológico.

            O Antropoceno, portanto, corresponde a uma grande transformação da natureza geofísica do sistema Terra que coincide, mais ou menos, com a transformação de alcance mundial provocada pelo capitalismo e a ocidentalização. A Segunda Grande Guerra foi ela própria um fator central que contribui para isso, assim como a Guerra Fria, na medida em que o estado permanente de guerra durante a segunda metade do século passado levou a um aumento maciço da geração de energia, numa escala até então nunca vista (Steffen et al, 2011; McNeil e Engelke, 2014). É aqui que a ciência da Terra se encontra com as ciências sociais.

            Uma reconstrução histórico-sociológica do Antropoceno distinguiria entre os antecedentes – neste caso, a consolidação do capitalismo industrial no século XIX – e sua maturação na segunda metade do século XX, com o advento de novas tecnologias e o impacto mundial da industrialização, o que inclui países neoextrativistas como o Brasil, a Índia, a África do Sul e a Indonésia.

            A ciência do sistema Terra consegue explicar grande parte da temporalização, a amplitude e o significado das evidências geofísicas da transformação do sistema terrestre. No entanto, é interessante notar que, embora certo consenso pareça estar surgindo na ciência do sistema Terra em torno do Antropoceno, ainda há controvérsias e questionamentos a respeito da aplicação rigorosa da Escala de Tempo Geológico, que forma a base da geologia, quando o assunto é a periodização. E essa periodização também se estende ao futuro: o Antropoceno é distópico ou admite a possibilidade de redenção como projeto político positivo? Nestes termos, a temporalidade do Antropoceno coincide em parte com a modernidade, esta última também uma categoria temporal (a era do novo, da afirmação do tempo presente e da liberdade humana). Os primeiros sinais do Antropoceno coincidem com a emergência da modernidade na Europa, mas consolida-se como época geológica quando modernidades variadas tomam forma ao redor do mundo. Entretanto, parece que o Antropoceno abarca um espectro mais amplo que a modernidade e, num sentido estrito, ele se refere apenas aos últimos 50 anos. Embora eu não esteja argumentando que ele torne a noção de modernidade obsoleta, certamente ele lhe confere um significado reduzido.

            O Antropoceno está inextricavelmente vinculado a questões sociológicas que envolvem o capitalismo, a guerra, o poder e a desigualdade numa escala global. Mesmo assim, as ciências sociais permaneceram relativamente silenciosas em explicar as forças centrais que estão na origem dessa mudança de época da Terra e a como tais forças devem ser interpretadas. Enquanto categoria temporal, o Antropoceno não é apenas uma Época natural, mas também uma era no tempo humano e histórico.

            Antes de abordar essas dimensões do tempo, eu gostaria de frisar que, considerando o que foi dito até aqui, o Antropoceno – como a ideia de modernidade – é mais que uma categoria temporal ou espacial. É também uma categoria cultural, um prisma por meio do qual as sociedades contemporâneas podem ser interpretadas. Dada a predileção dos geólogos em apontar datas aqui e ali, eu sugeriria que 1986 marca um momento no tempo em que a experiência histórica mudou em decorrência de uma nova consciência, para a qual mundo humano e Terra formam uma unidade ameaçada de extinção. Isso aconteceu quando dois eventos relacionados coincidiram no tempo: a explosão de Chernobyl em 26 de abril de 1986 e a descoberta do buraco na camada de ozônio sobre a Antártida em 1985/6.

Antropoceno e o tempo humano

            Grande parte do debate sobre o Antropoceno diz respeito ao problema das origens: quando ele começou, quais evidências podem ser dadas, em que momento e em que lugar uma fronteira pode ser estabelecida na Escala de Tempo Geológico? Como argumentei acima, quanto mais nos envolvemos com este problema, mais ele se entrelaça com questões que levam o problema da periodização geológica para o contexto histórico e sociológico da modernidade. Aqui, envolvemo-nos inevitavelmente com questões de consciência e de interpretação da mudança de época.    

            Temos ainda outras implicações. O Antropoceno levanta questões fundamentais sobre a natureza do tempo humano. Primeiro, a concepção de sistema terrestre inclui a vida em si – e isso inclui a vida humana –, uma vez que a Terra é composta não apenas por formações rochosas, mas também pelos oceanos, pela atmosfera, pelo campo magnético e pela própria vida. Hoje, sabemos que, sem a vida, a Terra não pareceria tão diferente assim do inabitável planeta Venus. A forma particular de vida que é o Homo sapiens sapiens, o objeto de investigação das ciências sociais e humanas, é algo que chega tardiamente cerca de 60.000 ̴ 30.000 anos atrás, quando surgiu a evolução do lobo frontal aumentado, um desenvolvimento que veio acompanhado da emergência da agricultura e da transição para sociedades sedentárias, dando início, portanto, ao tempo histórico (Mithen, 1998). Foi também um momento em que essa espécie erradicou homininos rivais.

            Uma pergunta que pode ser colocada agora é se os seres humanos já atingiram um ponto em que é possível falar de uma transformação evolutiva que coincide com o Antropoceno. Aqui, os desenvolvimentos na biologia são relevantes. Populações humanas e não-humanas evoluíram juntas e continuamente modificam umas às outras (Russel, 2011). Devido a processos de aceleração química, o corpo humano atual é provavelmente muito distinto fisiologicamente do corpo anterior a 1945 (Thomas, 2014). Sustenta-se que sete por cento dos genes humanos sofreram modificações recentes. Hoje, a vida pode ser sintetizada por seres humanos, os quais são eles mesmos transformados por sua própria capacidade de mudança.

            Desenvolvimentos em neurologia, biotecnologia e fisiologia humana criaram o “corpo tóxico”, mas também produziram um ser humano muito diferente daquele que viveu alguns séculos atrás em termos de saúde, longevidade e capacidade cognitiva. Durante grande parte da história, a vida humana foi dominada pela experiência do sofrimento. Para Weber, isso é um dos fatores-chave que explicam a ascensão das religiões mundiais. Como argumenta Bryan Turner (2017), a ciência e a tecnologia têm hoje a capacidade de reduzir consideravelmente o sofrimento humano, o que, consequentemente, coloca em questão a base ontológica da religião.

            Esses desenvolvimentos podem ser os primeiros sinais de uma nova fase evolutiva na vida dos homininos e, portanto, de uma grande mudança na condição humana, que pode ser comparada à transformação sucedida 60.000 ̴ 30.000 anos atrás, quando ocorreram os desenvolvimentos no lobo frontal. De certo, tais questões são sociologicamente pertinentes, mas devem ser vistas no contexto mais amplo de uma transformação de época, a qual, provavelmente, está mais bem situada no Antropoceno. Neste sentido, a evolução dos seres humanos modernos, o Homo sapiens sapiens, se não em um novo tipo de ser da espécie, justapõe-se ao Antropoceno, o qual, não se deve esquecer, é também uma projeção atual de uma Época que acaba de começar. Entretanto, certa cautela se faz necessária, uma vez que não são conclusivas as evidências da psicologia evolutiva e da biologia evolutiva com respeito à ocorrência recente de uma modificação genética no homem moderno, além de não sabermos se isso pode ter ocorrido via adaptação (Pinker, 2011: 742-51). Pode até mesmo ser que estejamos falando apenas de evolução bioquímica. Atualmente, sabemos que a evolução assume uma diversidade de formas e não implica necessariamente a formação de novas espécies (Russel, 2011).

            A ideia de Antropoceno levanta a questão normativa de saber se os seres humanos são hoje capazes de criar os meios políticos e tecnológicos necessários para resolver os problemas que suscita. Aqui, existe um perigo de Antropocentrismo, isto é: uma ênfase excessiva nos seres humanos como mestres do mundo. De um lado, a noção de Antropoceno, enquanto era dos seres humanos, lhes confere um lugar especial na história da Terra, mesmo que sejam o agente de sua destruição. De outro, há o perigo de serem sobrestimados enquanto mestres da Terra, possuindo ambos os poderes de destruição e de redenção. Isso negligencia o fato de que, não importando o que os seres humanos façam, eles não conseguirão mudar a Terra de outra maneira a não ser a de possivelmente torná-la inabitável, pois a Terra sobreviverá a seus residentes temporários.

            A possibilidade de descobrir outras formas de vida não pode ser descartada – mesmo como hipótese teórica. Na verdade, já se especula que essa possibilidade levanta questões importantes para a religião, em particular para aquelas que dão um lugar especial ao Homo sapiens sapiens como centro de um universo projetado. Diante da ascensão mundial da religião, isso não é uma especulação fantasiosa[ii]. O Antropoceno também é a era do crescimento da religião pelo mundo. Em 2014, a NASA deu mais de um milhão de dólares ao Centro de Pesquisas Teológicas dos Estados Unidos, para estudar as implicações societárias daquilo que tem sido chamado de astrobiologia[iii]. Isso ilustra o fato sociológico de que a ideia de Antropoceno não possui simplesmente uma designação geológica, ela também é autocompreensão histórica.

            A ideia de Antropoceno deu nova proeminência à reflexão sobre a condição humana, sobre o que significa ser um ser humano e sobre a humanidade enquanto espécie. Em boa parte da recepção popular, existe um perigo latente de despolitização do Antropoceno, não apenas se tido como uma época irreversível, mas também como uma época livre das questões do poder e da desigualdade. A ideia de Antropoceno também corre o risco de uma simplificação excessiva de processos complexos (ver Lukes, 2017). Um corretivo sociológico é importante aqui, no sentido de chamar atenção para uma abstração excessiva da ideia de humanidade que perderia de vista que, em grande medida, a marca negativa da humanidade foi produzida pelo mundo desenvolvido, predominantemente ocidental e nórdico. A humanidade não está em um só barco. Não obstante, argumentarei que a ideia de humanidade enquanto um todo carrega uma força normativa importante, ao atentar para problemas que não podem ser resolvidos no nível nacional ou regional. Neste sentido, a noção de humanidade afirma a importância da agência humana em contraste com a invocação despolitizada de uma humanidade desprovida de sujeito.

Antropoceno e o tempo histórico     

            As implicações amplas que o Antropoceno traz para as ciências sociais estão mais propensas a inscrever-se na interface entre as temporalidades geológica (Terra), biológica (vida) e histórica (sociedades humanas). Essas temporalidades constituem diferentes modalidades de evolução e agem umas sobre as outras de diferentes maneiras. A natureza dessas interações e a evolução delas decorrente ainda não foram adequadamente estudadas.

            Há algumas formulações que vão nesse sentido, como o trabalho de Fernand Braudel (1990) sobre as influências ambientais na formação histórica de longo alcance das sociedades. Mais recentemente, em dois estudos pioneiros sobre as influências da vida biológica sobre as sociedades humanas, Jared Diamond (1998; 2005) mostrou o que acontece com as sociedades que fracassam em situar a si mesmas em seu ambiente natural. Em uma obra inspirada no Antropoceno, Costanza et al (2007) buscaram elaborar uma história integrada da vida humana com a história natural. Os autores argumentam que as sociedades respondem a sinais climáticos de múltiplas maneiras, indo do colapso ou fracasso, da migração à mitigação criativa. Na opinião deles, as respostas futuras e feedbacks com o sistema humano-ambiental vão depender da compreensão do passado global. Os autores argumentam que “o exame de sistemas sócio-ecológicos em múltiplas escalas de tempo pode identificar os antecedentes de fenômenos centrais que ocorrem em uma era ou momento particular” (2007: 13).

            Hoje, reconhece-se cada vez mais que a evolução humana e biológica e a história da Terra estão entrelaçadas. Contudo, penso que o argumento pode ir além de apenas demonstrar os limites ambientais das sociedades humanas. Alguns desses limites foram identificados por Clarke e Gunaratnam (2017), que enfatizam, na sequência de Brooke (2014) e de Davis (2001), que grandes agitações sociais coincidiram com grandes mudanças geológicas. Em uma época como a nossa, na qual as mudanças climáticas estão a incidir cada vez mais sobre a política global, é provável que vejamos mais agitação social. Até o momento, parece que isso tem se dirigido mais para o Ocidente desenvolvido e o hemisfério norte, mas é possível prever um futuro não muito distante em que ocorrerá a migração para fora da Europa devido às mudanças climáticas e o derretimento da calota de gelo do Ártico.  

            Sociedades humanas e seres humanos não são apenas condicionados pelo ambiente natural, mas devem ser vistos num sentido histórico profundo, inscritos na história natural da Terra. A noção de “história profunda” vem sendo apresentada com o propósito de fornecer uma nova leitura da história, na qual a história recente – a modernidade – é projetada em um período de tempo muito maior, permitindo-nos ver mais claramente que o tempo histórico está inscrito na história natural da Terra. A estrutura temporal da história está baseada na divisão entre história e pré-história, a história começando com o advento da escrita. Os esforços recentes de historiadores para superar esta divisão visam conceber o Neolítico e o Paleolítico como parte de uma “história profunda” da vida humana (Shrycock e Smail, 2011; Smail, 2008). Tal aprofundamento da estrutura histórica torna possível uma ampliação espacial, vindo a abranger áreas e dimensões da experiência até então não incluídas em um tempo histórico que privilegia as civilizações euro-asiáticas da “Era Axial” (Mota, 2016). Nesta perspectiva, o presente pode ser visto sob nova luz, não exclusivamente dominado por entidades espacialmente delimitadas como as nações. A história profunda desafia a teoria da história do século XIX associada a Rank, Langlois e Seignobos, que sustentam que o passado não-escrito é incognoscível. Contra o que hoje pode ser tido como uma curta história da humanidade, na verdade produzida pela civilização cristã europeia, a história profunda vê uma história comum que remonta à África Oriental, onde surgiu o Homo sapiens. Não há dúvida de que uma história profunda da humanidade que supera a divisão entre pré-história e história ofereça uma ancoragem para pensar a subjetividade humana por vias que desafiam as concepções eurocêntricas da história e da subjetividade. E também nos obriga a repensar a centralidade da modernidade e, possivelmente, o avanço evolutivo que veio com a evolução do homem moderno 50 mil anos atrás (mostrando, por exemplo, semelhanças com hominídeos anteriores).  

            No entanto, o verdadeiro desafio ainda não foi abordado, a saber, como conectar as distintas lógicas de evolução que se desdobram na história do planeta, da transformação da vida humana e da consciência dos primeiros hominídeos até o Homo sapiens sapiens e o surgimento e transformação das sociedades humanas. O entrelaçamento da biologia, da evolução do cérebro, da configuração do comportamento humano e da formação das sociedades humanas revela uma conexão profunda de coevolução. Contudo, as lógicas dessas dimensões evolutivas – seus mecanismos e processos – são muito diferentes. Se a ideia de Antropoceno há de ter algum significado substancial além de ser apenas um termo na Escala de Tempo Geológico, ela deve abranger essas dimensões evolutivas. Já é evidente que o Antropoceno deixou de ser meramente um conceito ou uma teoria, ele é um modelo cultural por meio do qual as sociedades contemporâneas podem ver a si mesmas a partir de uma escala mais ampla de significado (Strydom, 2017). Por estas razões, e considerando tudo o que foi dito, não estou convencido de que a ideia de modernidade não seja mais relevante. Somente a modernidade pode tirar as sociedades modernas da condição perigosa que elas mesmas criaram.

            Neste sentido, o Antropoceno está vinculado a outras ideias da era moderna que têm importância normativa, como a responsabilidade, a verdade e a justiça. O direcionamento da história profunda para a correção de narrativas convencionais da história que se concentram apenas no mundo moderno, não aborda adequadamente o fato de que as soluções para os problemas do mundo moderno não serão encontradas na história inicial da humanidade.

            Há aqueles que argumentam, com considerável convicção, que o Antropoceno é coetâneo à era do capitalismo e que, por isso, devemos falar em “Capitaloceno” ao invés de Antropoceno. De fato, os efeitos sistêmicos da atividade humana sobre a Terra devem ser atribuídos ao capitalismo e não à humanidade no sentido abstrato do termo. Como modelo cultural, a ideia de Antropoceno é mais do que a condição do capitalismo, ela também inclui a consciência da condição de época da vida humana. É por isso que acredito que a noção de Antropoceno é compatível com a visão de que o capitalismo é a força generativa da destruição planetária. Mas ela também contém uma dimensão política.

            A ideia de Antropoceno, assim argumento, sugere uma nova maneira de pensar a constituição do político. Nesse sentido, é uma maneira mais elaborada de pensar a noção de sociedade de risco, que Ulrich Beck (2006) viu como a ancoragem de uma concepção cosmopolítica do político. O Antropoceno não é simplesmente uma condição objetiva de mudança planetária, ou outro termo para a mudança climática; ele também é uma categoria interpretativa pela qual as sociedades contemporâneas refletem sobre si mesmas e sobre a vida em si e reimaginam o próprio espaço e o próprio tempo. O Antropoceno, portanto, não é um conceito politicamente neutro, ele contém elementos normativos fortes e significações imaginárias. Suas dimensões normativas não estão claramente definidas, pois o curso da ação política, como o diagnóstico científico, é objeto de contestação. É contestado de muitas maneiras, em termos de quem é o sujeito político, da natureza dos problemas objetivos e das soluções potenciais.

            Numa perspectiva interpretativa, a política do Antropoceno pode ser vista como maneiras de conhecer e como contendo um componente imaginário, na medida em que se trata de imaginar possibilidades futuras e de redefinir o presente com vistas a realizar tais possibilidades. Isso parece aproximar-se da ideia de cosmopolitismo, que também diz respeito, fundamentalmente, a ter o mundo como escopo do político. A noção de Antropoceno pode ser configurada nos termos do cosmopolitismo, mas também pode oferecer ao pensamento cosmopolita uma nova relevância, permitindo-lhe desafiar mais firmemente o neoliberalismo e suas respostas à globalização. Alguns dos objetivos centrais do Antropoceno como condição política estão em sintonia com ideias cosmopolíticas, tais como, por exemplo, o aumento da diversidade biológica, a necessidade de um diálogo global entre o mundo desenvolvido e em desenvolvimento para reduzir as emissões de carbono, de uma maneira que respeite o desejo do mundo não-ocidental em manter parte dos benefícios por ele obtidos até agora, a necessidade de encontrar um equilíbrio entre o pensamento de curto e longo prazo.

Conclusão

            Eu gostaria de concluir com uma série de observações e proposições sobre as implicações da ideia de Antropoceno para a sociologia e, mais amplamente, para as ciências sociais em geral.

            A Terra não é uma realidade objetiva e estável sobre a qual as sociedades humanas são construídas, ela está entrelaçada com o mundo humano e social de uma maneira que desafia os pressupostos ontológicos de grande parte do pensamento social moderno.

            Os desenvolvimentos na ciência do sistema Terra, em particular na geologia, abriram novas perspectivas que desafiam a visão pós-positivista da ciência e a ideia de que as ciências naturais e sociais se baseiam em epistemologias muito diferentes.

            Para a ontologia social, esses desenvolvimentos implicam que, com a formação de um novo estrato rochoso, os homens são os criadores da superfície rochosa da Terra. O não-humano (rocha) recebeu um novo significado e importância.

            Como observado por alguns, especialmente Latour, precisamos ir além do dualismo “natureza vs sociedade”, que subjaz a grande parte do pensamento social moderno. Entretanto, isso não justifica necessariamente um posicionamento pós-humanista. Certamente questiona a tradição fenomenológica e interpretativa das ciências sociais, de um mundo social que existe independentemente do mundo natural.

            Embora a geologia tenha recentemente adquirido nova importância para as ciências sociais, eu não acho que elas devem ser “geologizadas”. No entanto, as ciências sociais devem ser capazes de envolver-se de forma mais produtiva com as ciências naturais, em particular com a ciência do sistema Terra e as ciências da vida.

            O Antropoceno é um modo de conhecer o mundo. Como tal, é mais que um conceito; é também um modelo epistêmico e um modelo cultural.

            É uma maneira de abordar as transformações centrais da época, que abrange a mudança social, a natural e a do homem.

Referências

Beck, U. (2006) The Cosmopolitan Outlook. Cambridge: Polity Press.

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Notas

[1] Palestra proferida no 18° Congresso da Sociedade Brasileira de Sociologia, 26 a 29 de julho de 2017, Brasília.

[i] https://www.theguardian.com/environment/2016/aug/29/declare-anthropocene-epoch-experts-urge-geological-congress-human-impact-earth

[ii] http://www.pewforum.org/2015/04/02/religious-projections-2010-2050/

 [iii] https://www.theguardian.com/commentisfree/2017/apr/26/discovery-of-alien-life-religion-will-survive

Gerard Delanty é professor de sociologia e pensamento social e político da Universidade de Sussex, Brighton, Reino Unido. Suas publicações mais recentes incluem The European Heritage: a Critical Re-Interpretation (Routledge, 2017), Formations of European Modernity: A Historical and Political Sociology of Europe (Palgrave 2013) and The Cosmopolitan Imagination: The Renewal of Critical Social Theory (Cambridge University Press, 2009).

Department of Sociology, University of Sussex, Brighton, UK. BN19QE

Email: g.delanty@sussex.ac.uk

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