Estudos de práticas sociais significativas envolvem necessariamente questões morais , por Anne Rawls

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À medida que a justiça se torna uma condição para os fatos sociais na modernidade.

Estudos de práticas sociais significativas envolvem necessariamente questões morais

Por Anne Warfield Rawls

Tradução Diogo Silva Corrêa

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A questão da neutralidade axiológica tem sido uma questão contestada desde o início do século XX. Sua formulação original em 1917 é atribuída a Max Weber, mas houve outros proponentes antes dele. Levando em conta a maneira como a questão geralmente foi tomada, a possibilidade da neutralidade axiológica reside em uma separação entre fato e valor, que há muito tempo foi contestada por pensadores sociais, incluindo o próprio Weber. De fato, a ideia de neutralidade axiológica foi vivamente contestada pelos pensadores sociais durante as décadas de 1920 e 1930. Foi apenas com o advento da Segunda Guerra Mundial que a preferência pela neutralidade axiológica finalmente ganhou ascendência – reforçada pela crença de que os métodos valorativamente neutros proporcionariam resultados mais “imediatos” para dar conta de forma mais eficiente do esforço da guerra. Se os estudos estatísticos e demográficos que se tornaram predominantes naquela época foram realmente práticos ou úteis, isso importava menos para as lideranças do que a velocidade com que os resultados poderiam ser entregues e relevantes para ganhar a guerra: isto é, tanto era esperado que a pesquisa em tempos de guerra diagnosticasse questões sociais que ajudariam a vencer a guerra quanto, ao mesmo tempo, permanecerem axiologicamente neutras. Dado esse paradoxo, é importante perguntar em que sentido qualquer um desses estudos poderia ter sido neutro em termos de valor. Frequentemente, eles eram estatísticos e demográficos. Porém, eles foram preferidos durante a guerra precisamente porque podiam ser orientados para um propósito político e moral; vencer a guerra.

E aqui chegamos a um equívoco que animou a discussão por muito tempo: a falsa crença de que os métodos que dependem de estatísticas têm maior potencial para serem desprovidos de valor e que fato e valor podem ser separados na pesquisa social. Fazer esse argumento sobre a possibilidade da neutralidade axiológica assume que os fatos são objetos naturais que podem existir à parte de uma relação com a sociedade, a cultura ou a interação social. Também pressupõe que as categorias que estatísticas expressam são livres dessas relações.

Esta posição é contudo falsa. Mesmo categorias como masculino / feminino e preto / branco que são usadas para compilar dados demográficos simples e aparentemente imediatos são categorias sociais sem qualquer contrapartida natural ou biológica. São fatos sociais que são definidos de forma distinta em diferentes tempos e lugares. Há diversas condições biológicas para o sexo. Mas são as sociedades que decidem como elas correspondem com o gênero. A forma como atribuições categoriais do tipo masculino / feminino são feitas a pessoas representa essas definições sociais arbitrárias. O mesmo é verdade para a raça. Uma pessoa pode ser negra em um país e branca em outro. Como as sociedades decidem estabelecer fronteiras é uma questão social, determinada pelas relações sociais, não pela biologia.

Não somente as próprias categorias são fatos sociais, mas cada instituição social desenvolve suas próprias formas singulares de registrar, contar e processar esses fatos sociais. Existem muitos processos sociais envolvidos na criação de agregação de dados institucionais que as chamadas abordagens “livres de valor” costumam usar. Tome-se as taxas de criminalidade, por exemplo. Há uma percepção geral equivocada de que elas relatam o número de crimes. Elas não o fazem. Algumas taxas de criminalidade medem o crime autodeclarado, grande parte dos quais nunca resultou em prisão e uma parcela significativa da qual não atende a definição legal de crime. A maioria das taxas de crimes locais e estaduais representa a taxa em que os policiais e os tribunais registram e processam crimes. O trabalho da polícia e as decisões judiciais envolvidas não são sem motivação ou desprovidas de valor. Em uma sociedade como os EUA, que tem um sério problema com a questão da raça, há uma maior taxa de criminalidade registrada para os afro-americanos. Isso não significa que eles cometeram mais crimes – embora geralmente seja tratado como se esse fosse o significado do dado. Isso significa que os negros americanos vêem mais ações policiais, e essa aplicação da lei é menos propensa a não ser ali produzida. Evidentemente, esta é uma séria questão moral que está incorporada nas próprias estatísticas. Os conjuntos de dados estatísticos institucionais não são desprovidos de valor. Tratá-los como se eles o fossem – e fingindo fazer uma pesquisa “desprovida de valor” com base neles – cria ainda mais desigualdade e reifica os preconceitos que levaram ao desequilíbrio estatístico em primeiro lugar.

Existe um bom argumento alternativo? Sim, e é clássico. Duas décadas antes de Weber ter escrito o argumento que se tornou a base do movimento “desprovido de valor”, Emile Durkheim começou a fazer o importante argumento de que todos os fatos e objetos significativos são fatos sociais, e de que todos os fatos sociais são fatos morais. Se Durkheim tem razão sobre isso, não há possibilidade de ciência desprovida de valor. Durkheim viu isso como uma vantagem e argumentou que a nova disciplina de Sociologia que ele estava fundando deveria se tornar uma defensora de reformas sociais capazes de dar conta das necessidades da produção de fatos sociais na sociedade moderna. Para Durkheim, essa defesa (da) moral era mais científica do que abordagens que tratavam os fatos como naturais por dois motivos: primeiro, eles não são fatos naturais e, portanto, tratando-os como se eles o fossem conduz a enormes erros que Durkheim colocou como os principais paradoxos da filosofia e das ciências sociais; em segundo lugar, a abordagem que reconhece as implicações morais dos fatos sociais é mais científica, porque ela olha para além das aparências dos fatos nos processos sociais e das relações morais usadas para criá-los – e de que dependem. Por exemplo, se Durkheim tivesse estudado as taxas de criminalidade nos EUA hoje e descobrisse que a alta taxa de criminalidade de negros era o resultado de uma atenção diferenciada por parte da lei para a comunidade negra, ele teria argumentado que a sociologia teria um dever científico de expor essas taxas como o resultado de uma relação moral distorcida. Durkheim acreditava que esta nova abordagem científica da moral deveria ser ensinada nas escolas públicas, de modo a fundamentar firmemente a sociedade moderna sobre a base moral de que ela precisa. Durkheim foi apenas o primeiro de muitos pensadores sociais brilhantes a seguir este caminho. Desde o final do século XIX até o século XX, outros notáveis ​​teóricos sociais e filósofos também começaram a argumentar que a maioria dos fatos com os quais temos que lidar – e todos que alcançam o significado compartilhado – é um fato social e não um fato natural. Os filósofos Wittgenstein e Austin argumentaram desde modo entre 1939 e 1955. Os sociólogos C. Wright Mills, Harold Garfinkel e Erving Goffman elaboraram essa posição na sociologia entre 1939 e 1960. O economista Herbert Simon aproximou-se de uma posição de fato social na década de 1950 com a sua concepção de “racionalidade limitada” e Joseph Stiglitz e Thomas Piketty estão elaborando o custo da desigualdade na economia em termos afins hoje.

Dada a omnipresença dos fatos sociais, a dependência quase completa das pessoas sociais sobre eles, e a necessidade de um alto grau de cooperação e reciprocidade para criá-los a cada momento, a possibilidade da neutralidade axiológica aproxima-se de zero. Não é nem mesmo desejável alcançar a neutralidade axiológica se as condições para a produção dos fatos sociais em que confiamos são, por si só, imperativos morais. Como tal, os fatos sociais não podem ser separados de suas condições morais. Assim, estudos científicos das condições para a criação de fatos sociais implicarão necessariamente prescrições morais, porque as condições morais são requisitos para uma produção do fato social bem-sucedida. Tais estudos são feitos em particular por aqueles inspirados por Garfinkel nos estudos da ciência, comunicação e trabalho. Esses estudos das condições morais são necessários para que os estudos sejam científicos, à medida que a produção do fato social na verdade tem tais condições morais. É quando os fatos sociais são artificialmente separados das condições morais de sua criação – como muitas vezes acontece nas tentativas de ser “desprovido de valor”, que acabam por distorcer, subjetivar e etnocentrizar a prática científica. Infelizmente, mal-entendidos a este respeito criaram empecilios para aqueles que trabalham para documentar as relações morais envolvidas nos fatos sociais. Por causa desse mal-entendido, uma breve revisão da posição de Durkheim está na ordem do dia. 

Uma breve revisão do debate 

Durkheim foi o primeiro a assumir esta posição sobre o fato social, iniciando uma linhagem de reflexão sobre o fato social que foi continuada na sociologia por Talcott Parsons, e depois por Garfinkel e Goffman. O argumento é o de que o o rigor científico é alcançado precisamente através do reconhecimento de que os fatos e os valores estão inextricavelmente ligados – e, em seguida, focando-se nesse vínculo. Ao retomar esse argumento em 1938, Parsons sustentou que a separação artificial entre ambos resultou em um individualismo reducionista que havia sido danoso para a sociologia. Pode-se argumentar que os estudos empíricos mais rigorosos dos fatos sociais vieram de Garfinkel, Goffman e outros que reconheceram a conexão intrínseca entre fatos e valores. Eu argumentaria que o próprio Weber reconheceu essa ligação e que a sua insistência em manter a pesquisa axiologicamente neutra reconheceu que os valores, no entanto, seriam uma parte necessária da pesquisa científica. Em outras palavras, sua posição foi mal interpretada. Weber queria dizer que os valores pessoais de um pesquisador não devem obscurecer a compreensão de como os fatos e valores das pessoas que estavam pesquisando estavam vinculados (ou seja, mutuamente constitutivos). Durkheim adotou uma tática diferente. A perspectiva de Durkheim era que os cientistas podiam entender os pré-requisitos morais que serviam de base necessária para a produção fatos sociais em uma determinada forma de sociedade, observando regulamentos (incluindo aqueles para os rituais) e sanções. Como esses pré-requisitos morais poderiam ser documentados cientificamente, os cientistas que os descobriram também deveriam defender esses pré-requisitos morais. Porque cada forma de sociedade pode ter pré-requisitos morais diferentes, é importante verificar cientificamente qual a forma de moralidade necessária em cada caso. Sem essa informação e a defesa que dela deveria seguir, Durkheim argumentou na Divisão de Trabalho Social (1893) que a sociedade moderna provavelmente fracassaria. Era seu grande projeto que a sociologia fosse a ciência capaz tanto de documentar as necessidades morais da modernidade quanto de educar as pessoas sobre como garantir os pré-requisitos morais necessários para seu sucesso. Antes da Primeira Guerra Mundial, este projeto estava bem encaminhado na França. Os argumentos de Durkheim sobre educação moral estavam se consolidando e a sua escola de sociologia estava se solidificando e tornando-se influente. Infelizmente, a escola Durkheim foi praticamente destruída pela Primeira Guerra Mundial. Isso não só eliminou os alunos que tiveram um contato imediato com Durkheim, como também deixou sua abordagem aberta para os críticos que a mal interpretaram. Mudanças na sociologia e nas ciências sociais que rapidamente ocorreram na sociologia americana durante a Segunda Guerra Mundial terminaram o trabalho. A ideia de que a neutralidade axiológica era possível e preferida tornou-se dominante. Para Durkheim, os novos tipos de arranjos e práticas sociais que se desenvolveram na modernidade exigiam justiça: um requisito para a elaboração de fatos sociais que ele trabalhou para estabelecer empiricamente. Isto foi especialmente verdadeiro para as novas práticas constitutivas da ciência e das profissões. Como o trabalho social tornou-se mais dividido, era necessária uma maior igualdade. Estabelecer a justiça necessária, argumentou, também exigiria que as desigualdades naturais não fossem reforçadas pelas condições sociais (melhor acesso à educação, nutrição, empregos). Isso significaria, por sua vez, que novas leis e regulamentos seriam necessários para dar suporte à transição para a igualdade. A nova moralidade deveria ser ensinada nas escolas públicas para que todos entendessem o que era necessário. Então, se Weber, embora inadvertidamente, se tornou o autor da neutralidade axiológica, Durkheim foi o defensor original de uma sociologia científica dos fatos sociais apoiada na defesa da moral e da educação moral.

Garfinkel escolhe este tópico

Muito incompreendido como autor de uma sociologia indiferente às questões morais e políticas, Garfinkel desde o início focou na desigualdade, na exclusão e nas dificuldades enfrentadas pelos socialmente marginais: os negros e os judeus americanos, os marginalizados transgêneros e políticos. Ele considerava seus status como realizações interacionais que poderiam iluminar tanto o que estava acontecendo com a interação quanto o que precisava ser feito para alcançar reciprocidade mútua.

Como Durkheim, Garfinkel considerou a vida social como inerentemente moral. A possibilidade de uma ação social colaborativa coerente exigiu um compromisso moral subjacente com a reciprocidade necessária. Ele sustentou que as condições de reciprocidade subjacentes que ele chamou de “confiança” era um requisito constitutivo das práticas sociais que são a base das solidariedades sociais. Isso significa para Garfinkel que as questões morais na vida contemporânea estavam localizadas em práticas constitutivas. Como o status marginal uma consequencia da aceitação de pessoas em reciprocidades morais, o requisito de confiança sempre era relevante para questões de justiça social. Excluir pessoas de condições de confiança excluía-as da coerência.

Em vez de fazer os tipos de perguntas que os sociólogos que acreditam na neutralidade axiológica tendem a perguntar, tais como “Quantos Protestantes escolhem X?” ou “Que efeito a renda tem nas escolhas de vida?”, Garfinkel perguntava-se a respeito de que tipo de organização de práticas sociais funcionariam para excluir qualquer pessoa. Se a raça faz parte de como as práticas do tribunal estão organizadas, como ele argumentou em sua tese de mestrado de 1942, as chances de vida das pessoas serão efetuadas pela identificação racial na sala do tribunal. Sua análise na década de 1990 (Ethnomethodology’s Program) de como uma certa maneira de fazer fila para o café (o “esmagamento”) torna difícil para Helen – que é cega – pegar o café é característico de como ele abordou as questões de exclusão. Aproximar-se da questão desta maneira vai no âmago do por quê a justiça social é tão resistente às tentativas de mudança que se concentram em atitudes e instituições formais, e não nos processos colaborativos de exclusão que tornam a desigualdade uma realidade concreta.

As primeiras duas publicações de Garfinkel, escritas em 1940 e 1942 na Carolina do Norte (publicada em 1940 e 1949), examinam os processos sociais que produzem e sustentam a desigualdade racial no sul dos Estados Unidos. Seu foco posterior em processos interacionais e, em particular, no compromisso de reciprocidade, nas habilidades sociais, nas regras, nas práticas e nos dispositivos que facilitam uma cooperação significativa estendem esse interesse. Garfinkel se refere repetidamente em sua escrita inicial (até 1952) às dificuldades enfrentadas pelos judeus, negros, asiáticos e criminosos, os quais se espera que o desempenho do self seja mais difícil, a condição de confiança mais tênue e as conseqüências da reciprocidade fracassada sejam mais graves para membros de grupos marginais.

Para Garfinkel, todas essas categorias são criações sociais que constituem status marginal, mas que as práticas sociais pelas quais essa marginalidade é realizada são diferentes em cada caso e, portanto, resultam em um posicionamento diferente das possibilidades vis-à-vis da maioria para cada grupo minoritário. Sua dissertação de doutorado de Harvard em 1952 propôs que as minorias judaicas altamente motivadas e bem-sucedidas seriam mais impactadas negativamente pelo feedback negativo que outros alunos. Os resultados de um estudo de graduação de Harvard fizeram eco a isso. A questão de como as práticas constitutivas e os requisitos de reciprocidade afetaram diferentemente as minorias e as pessoas marginais ele continuaria a tratar ao longo de toda a sua vida. Seu estudo sobre  “Agnes” (Capítulo 5 e apêndice, Studies), uma pessoa transgênera que começou em 1958 também da sequencia a esses interesses iniciais.

Garfinkel dedicou uma grande atenção ao detalhamento dos problemas morais que resultam de uma falha em examinar tais práticas constitutivas em detalhes (discriminação de raça, classe e gênero escondida por estatísticas e outras categorias reificadas não examinadas). Ele estave preocupado com o fato de que as abordagens sociológicas convencionais que tratavam essas categorias como dados não estavam apenas perdendo o essencial da questão, mas também contribuindo para a piora das coisas, uma vez que, em sua busca por serem científicas, permitiam que as categorias institucionais ocultassem o trabalho do racismo (e outros trabalhos de categorização) que entravam na criação dos registros estatísticos tratados como dados “objetivos”. Seu compromisso com a elaboração da base moral da sociedade data de longa data.

O ponto chave é que as regras que facilitam o intercâmbio cooperativo devem atender aos requisitos de reciprocidade constitutivos para que tudo isso funcione – e estes são requisitos morais. Este é o aspecto do argumento que Marcel Mauss assumiu em The Gift (1924), e se encaixa com aqueles de Garfinkel e Goffman. Existem regras e expectativas para produção do fato social. Estas podem ser estudadas e seu caráter constitutivo e moral localizado nas sanções decorrentes da não orientação para as regras e expectativas de maneiras reconhecíveis. Em uma sociedade democrática aberta, as regras também devem ser tais que qualquer pessoa possa orientá-las. De acordo com Durkheim (407):

“Não basta que haja regras; elas devem ser justas e isso é necessário para que as condições externas da concorrência sejam iguais … o que caracteriza a moralidade das sociedades organizadas, em comparação com as sociedades segmentárias, é isso … Só se pede que pensemos nos nossos companheiros e que sejamos justos, que cumpramos nosso dever, que trabalhemos na função que podemos executar melhor e que recebamos a recompensa justa por nossos serviços. As regras que as constituem não têm uma força restritiva capaz de esmagar o pensamento livre; mas porque elas são feitas para nós e, em certo sentido, por nós, somos livres “.

A sociedade moderna e a base moral da “humanidade” podem estar em crise. Contudo, “o remédio para o mal”, segundo Durkheim (407), “não é está em ressuscitar tradições”. Isto é o que a maioria dos pensadores sociais propuseram. Para Durkheim, retornar à tradição irá destruir tudo. “O que devemos fazer para aliviar esta anomia”, ele argumenta, é eliminar as fontes externas da desigualdade, como a riqueza herdada e “introduzir nas relações [sociais] mais justiça …”

O grande problema, do ponto de vista de Durkheim, é que a divisão moderna social do trabalho não realizou de fato a justiça de qual ela se deu conta em um sentimento compartilhado. Muitas pessoas modernas acreditam na justiça. Mas acreditar na justiça e sentir a sua necessidade não basta. É preciso que ela seja real. Enquanto a moral pública tende cada vez mais, Durkheim diz ([1893] 1933: 386), exigir “uma reciprocidade exata nos serviços trocados”, o sistema legal não suporta as condições necessárias para que seja efetuada uma troca justa. As pessoas podem “acreditar” na igualdade e, no entanto, produzir enormes quantidades de desigualdade. As práticas comuns de riqueza herdada e diferenciação entre o status e a riqueza de trabalhadores e empresários violam as condições implícitas do contrato.

Insistir na neutralidade axiológica como um critério para a ciência impede esse remédio 

A Divisão de Trabalho Social de Durkheim introduz uma nova concepção de fatos sociais como objetos constituídos cooperativamente e argumenta que um senso constitutivo de justiça e um tipo constitutivo de prática social se desenvolvem na sociedade moderna para apoiar a produção do fato social em contextos diversos. O argumento se distingue da filosofia e das ciências sociais clássicas não somente na sua concepção de fatos sociais, mas ao propor uma distinção entre dois tipos de prática social: uma adequada às sociedades tradicionais e a outra à modernidade. Como tal, o livro marca uma divisão entre o pensamento social clássico e moderno, e muitos pensadores sociais importantes passaram a elaborar distinções similares entre fatos sociais e naturais e entre tipos de fatos sociais ao longo do século XX: as práticas de “uso” de Wittgenstein, as regras “constitutivas” versus “regulativas” de J. Rawls e os critérios constitutivos de Searle para os “atos de fala” todos baseiam-se argumentos filosóficos importantes em um ponto similar. As “regras constitutivas” versus as “relatabilidades institucionais” de Garfinkel, suas “condições de confiança” para o engajamento em práticas constitutivas, e o “trabalho de produção de consenso” e as “ordens de interação” de Goffman são importantes argumentos sociológicos que dependem de uma premissa similar. Apesar da importância desses argumentos, no entanto, e a rica veia da pesquisa que eles inspiraram em muitas disciplinas, eles ainda não tiveram o impacto na teoria social e na filosofia que deveriam ter.

O erro sobre a neutralidade axiológica é uma das coisas que funcionou como obstáculo no caminho. O aumento da proeminência do pragmatismo no final do século XX foi tornado necessário em razão do fracasso da “concepção prática” anterior que visava garantir seu ponto de vista sobre a importância das regras e práticas constitutivas na filosofia. Pode-se também argumentar que o fracasso da sociologia em apreciar a importância do argumento do fato social explica a condição atual da disciplina – que agora mais do que nunca trata os fatos sociais como se fossem fatos naturais, reificando os valores no processo. Durkheim argumentou que o sucesso na reforma da sociedade exigiria estabelecer uma abordagem abrangente da prática baseada em observações empíricas. Neste ponto, a pesquisa está em curso. Todavia, não se trata de uma pesquisa “desprovida de valor”. Conseguir a aceitação do status científico desta pesquisa é importante. Isso, por sua vez, exige uma explicação de como a pesquisa se encaixa em um compreensivo – e alternativo – quadro teórico abrangente.

Este é o lugar onde um reposicionamento de Garfinkel e Goffman na linhagem do fato social de Durkheim é essencial. As interpretações funcionais e estruturalistas de Durkheim não ajudam. É o trabalho de Garfinkel, em particular, que fornece a demonstração empírica do ponto original de Durkheim sobre práticas constitutivas da ciência e das profissões. Goffman oferece demonstrações do argumento de Durkheim sobre a dependência da liberdade individual das relações sociais. Durkheim não somente propôs uma abordagem empírica dos fatos / ordens sociais como algo constitutivo (usando esse termo), como também propôs uma conexão integral entre essas ordens e uma forma igualitária de relações sociais que ele argumentou trata-se de um requisito subjacente para a sua realização: ele assim o fez no contexto de uma teoria abrangente da modernidade. Dado o caráter empírico das práticas constitutivas, o estudo dessas práticas e seus requisitos morais, argumentou ele, também deveria se dar empiricamente. O argumento defende o desenvolvimento de uma sociologia observacional focada em detalhes constitutivos, tais como em Garfinkel; não a sociologia estatística que reivindica Durkheim como fundador, baseada em generalizações e categorias estáticas que obscurecem as práticas cooperativas que são a peça central do argumento de Durkheim.

O problema é que o argumento do fato social de Durkheim se perdeu. O relacionamento que ele fez entre o argumento do fato social e a moral também se perdeu. No processo, a própria teoria social se perdeu. A re-leitura Durkheim oferece um plano para a restauração. Garfinkel elabora esse plano. Ao invés de assumir que contextos sociais significativos existem como pano de fundo para colocar questões relativas a ordem social e moral, Durkheim perguntou como a coerência de contextos sociais significativos é tornada possível, em primeiro lugar, pelas relações morais. Esta conquista inicial de coerência, ele trata como o verdadeiro propósito da moralidade (e, numa sociedade tradicional, ele propõe a necessidade de se alcançar a coerência como o verdadeiro propósito da religião). Isso dá proeminência as questões – quais os detalhes empíricos da prática constitutiva cooperativa são necessários para que a coerência mútua seja alcançada? – e quais são as condições necessárias?

Garfinkel pergunta como dentro e por meio desses detalhes conseguimos fatos sociais significativos.

A justiça é necessária por causa dos frágeis objetos sociais e significados que precisam ser cooperativamente criados. Garfinkel e Goffman documentam essa fragilidade em detalhes e falam sobre a confiança, a reciprocidade e processo de produção de consenso que os objetos sociais e os significados exigem. Em uma situação suficientemente frágil em que as posições não são pré-alocadas, todos os participantes têm interesse em proteger todas as posições. Eles têm a obrigação de proteger cada identidade e /ou posição que pertence a uma situação e as identidades nela presente que podem ser apropriadas, isto é, pelos participantes transformadas em sua identidade. Se eles não fizerem esse movimento pelo movimento, o significado e a identidade podem falhar. Se há categorias de pessoas que não são vistas como participantes iguais (por raça, gênero ou cultura por exemplo) e, portanto, não podem ser reconhecidas como participantes, não será possível criar fatos sociais mutuamente inteligíveis com eles. Da mesma forma, aqueles que, por meio de desempenho incompetente, se tornam excluídos do grupo, não poderão participar.

Por esta razão, a solidariedade social baseada na exclusão não pode sustentar uma sociedade moderna. Justiça e participação igual e aberta são necessárias. Em uma situação perfeitamente justa, todas as pessoas seriam elegíveis para participar e todas as posições seriam permutáveis. Dada a fragilidade considerável no processo, todos os participantes são obrigados a proteger todos os cargos para preservar os seus próprios interesses. Os requisitos cooperativos dessas frágeis ordens constitutivas exigem um tipo diferente de atenção e cuidados se comparados com aqueles próprios das categorias e objetos duráveis ​​das sociedades tradicionais. A justiça é uma necessidade funcional das ordens constitutivas de prática.

Garfinkel e Goffman argumentam que as condições de confiança subjacentes, ou de formação de consenso, são necessárias e constitutivas da coerência e da estabilidade da comunicação e da interação. Eles também argumentam que o caráter frágil e momentâneo dos fatos sociais requer uma cooperação estreita baseada na igualdade e na reciprocidade. Que cada resposta subsequente pode mudar o significado do que aconteceu antes – também uma característica essencial do argumento da dádiva de Mauss – é algo fundamental tanto para Garfinkel quanto para Goffman.

Porque o que é moral e marcado enquanto tal é determinado pelas necessidades sociais e não pelos princípios abstratos, a moral variará conforme as necessidades sociais variam. Nas sociedades tradicionais, na medida em que as necessidades sociais variam entre os grupos, o resultado é um forte elemento de relatividade moral. Mas, na visão de Durkheim, a relatividade é remediada na sociedade moderna diferenciada pelo fato de que as exigências sociais das práticas constitutivas sob a divisão do trabalho se tornam cada vez mais iguais. Ironicamente, isso acontece porque as particularidades das identidades, práticas e crenças tornam-se cada vez menos as mesmas. Em outras palavras, a crescente especialização do trabalho e a diferenciação da identidade levam a uma uniformidade crescente nos requisitos constitutivos subjacentes. Os imperativos morais das novas necessidades sociais tornam-se, portanto, um grande “interlocutor” interligado que impõe um “dever” cada vez mais universal que Durkheim designa como justiça.

São as relações sociais e morais da prática constitutiva e o compromisso cooperativo para com elas aquilo de que depende a existência do self percipiente, sua identidade social e a coerência de objetos sociais mutuamente inteligíveis. Todos os fatos sociais mutuamente coerentes são, nesta visão, fatos morais, e nenhum existe independentemente das relações sociais.

Não é surpreendente que as mais brilhantes mentes sociológicas e filosóficas do século XX tenham abordado essa ideia, que ofereceu soluções aos principais dilemas clássicos. Todo objeto social, identidade ou significado precisa ser criado cooperativamente por pessoas que assumem um compromisso moral com as práticas constitutivas. A ideia de uma sociologia “desprovida de valor” é tanto uma ilusão quanto o é a ideia dos economistas de um “Mercado Livre”. Num contexto social moderno altamente diferenciado, a solidariedade social e a coerência das coisas e ideias dependem das práticas constitutivas que criam e sustentam fatos sociais mutuamente disponíveis. Assim, nosso compromisso com essas práticas e sua distribuição entre a população (igual ou desigual) é uma questão moral de enorme consequência prática. Qualquer incapacidade de alcançar a justiça em públicos modernos diferenciados ameaça a coerência de todos os fatos sociais e situações. Do mesmo modo, qualquer consideração sobre fatos sociais, que é o negócio da sociologia, também envolveria considerações acerca da moralidade.

A abordagem de Durkheim sobre o funcionalismo está intimamente ligada aos requisitos morais. Não é que as relações sociais sejam morais porque são funcionais. Em vez disso, o argumento é que elas são funcionais porque cumprem requisitos morais constitutivos. Embora a reciprocidade e a cooperação sejam, em algum sentido abstrato, ideais morais, Durkheim argumenta que, quando os fins são bens sociais essenciais (razão, fatos sociais, self, coerência mútua, solidariedade social), os processos sociais cooperativos necessários para criar e manter esses fins tornam-se requisitos.

A solução para Durkheim foi prosseguir com – e não de voltar – reformas de base sobre novos entendimentos empíricos das exigências práticas e morais da modernidade, as quais que deveriam ser entregues pela sociologia. Garfinkel, Goffman e outros pesquisadores qualitativos tem dado conta dessa promessa. Mas, até que as ciências sociais reconheçam que a ideologia da neutralidade axiológica é um beco sem saída – o progresso irá lutar contra os falsos ídolos da reificação estatística – repleto de premissas morais não examinadas embutidas – mas passando-se por fatos naturais.

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