Debaixo do Dossel Sagrado: Peter Berger (1929-2017), por Frédéric Vandenberghe

_MG_8749

Debaixo do Dossel Sagrado: Peter Berger (1929-2017)

 Por Frédéric Vandenberghe*

Ao apagar das luzes da celebração do jubileu de ouro do Construção Social da Realidade, recebemos a notícia do falecimento,aos 83 anos de idade, de um de seus coautores, Peter Berger, em Boston, após longa enfermidade. Obituários em abundância fluíram de três diferentes fontes: os teólogos, os neoconservadores, e os sociólogos[1]. Peter Berger circulava, de fato, em diversos meios: em assuntos teológicos, como Luterano, ele era um protestante liberal; na política, ele migrou do centro para a periferia conservadora do espectro; na sociologia, será lembrado como um talentoso teórico social da tradição fenomenológica, que escreveu um tratado clássico sobre a sociologia do conhecimento, trabalhou sobre a sociologia da religião e refletiu sobre modernização e a mudança social. Dotado de fino senso de humor, um estilo cativante, um toque existencialista e um conhecimento profundo da sociologia clássica, da antropologia filosófica e da teologia, Berger motivou, com a leitura do seu popular Invitation to Sociology (1963) / Perspectivas sociológicas: uma visão humanística (1976), muitos aspirantes a sociólogos a se tornarem teóricos sociais.

Recordo-me, como se hoje fosse, o dia em que, ainda jovem universitário, li esse livro, numa aula de estatística. Acostumado a uma concepção positivista do ser humano como um fator, estes se transformaram, de repente, em atores que começaram a dançar. Ensaiando a visão dramática da sociedade e a visão histriônica da ação que ele empregou em The Precarious Vision [AVisão Precária] (Berger, 1961), o seu primeiro livro, sua perspectiva humanística propôs nada menos que uma mudança do ponto de vista de Durkheim sobre a sociedade como uma etapa em que “bonecos sobem e descem tangidos por cordéis invisíveis” (Berger, 1963:199), para uma visão mais weberiana em que “pequenos bonecos saltitam nas extremidades de fios invisíveis, alegremente representando os pequenos papeis que lhe foram atribuídos” (id.,140). Com uma ênfase existencialista que permeia seus primeiros escritos e que seria, depois, substituída por uma insistência mais conservadora sobre a necessidade da ordem, ele conclui o livro com uma apaixonada defesa da sociologia como uma disciplina de intenção libertadora e com uma finalidade: “Ao contrário dos bonecos, nós temos a possibilidade de parar em nossa movimentação, olhar para cima e perceber o maquinário através do qual nos fomos acionados. Nesse fato reside o primeiro passo rumo à liberdade. E no mesmo ato encontramos a justificativa concludente da sociologia como uma disciplina humanística” (id., 199).

Vinte anos mais tarde, em Sociology Reinterpreted: An Essay on Method and Vocation (Sociologia Reinterpretada. Um Ensaio sobre o Método e a Vocação), uma sequência do “bestseller” de 1963, o tom já havia mudado de maneira significativa. O drama da sociedade havia se transformado numa tragédia social. Alertando sobre os perigos do radicalismo, Berger frisava a necessidade da ordem social e contestava o potencial libertador da sociologia. Ao invés disso, ele agora enfatizava as “tendências antiutópicas” (Berger e Kellner, 1981: 118) inerentes ao pensamento sociológico e menosprezava a sociologia como uma contribuição para a desintegração social – “um diagnóstico que é em si parte da doença” (idem, p.157). Por volta da década de 1990 Berger tinha terminado com a sociologia. Seu ressentimento crescente com a sociologia tinha se tornado em uma irada denúncia da disciplina, que se manifestava como um discurso contra o “delírio ideológico” de Esquerdistas (a teoria do sistema-mundo de Wallerstein, a teoria da dependência de Cardoso e Faletto e a teoria das novas classes de Gouldner são mencionadas). Consequentemente, ele emitiu “um desconvite” (Berger, 1992).

Peter Ludwig Berger nasceu numa família judaica em Viena, onde seu pai detinha uma loja de roupas enquanto sua mãe era dona de casa. A família converteu-se ao cristianismo quando Peter ainda era criança, e fugiu do país para escapar da perseguição quando a Alemanha anexou a Áustria, em 1938. Eles permaneceram na Palestina por alguns anos e chegaram aos EUA logo após o término da 2ª Guerra Mundial. Peter quis se tornar um pastor luterano, mas se inscreveu nos cursos da tarde da New School for Social Research em Nova York e tornou-se, como ele mesmo cita em suas memórias, um “sociólogo acidental” (Berger 2001). Para obter seu mestrado, produziu uma dissertação sobre os protestantes Pentecostais no Harlem do Leste; no doutorado, escreveu sobre o movimento Baha’i no Irã. Casou com Brigitte Kellner, uma especialista da socióloga da família oriunda da Alemanha do Leste, que escapou, com sua mãe, de um trem que as levava para um campo de prisioneiros na Rússia. Brigitte faleceu em 2015.

Nos anos de 1970, Berger e Brigitte passam um tempo considerável no México, no Centro Intercultural de Documentação (Cidoc), um campus de educação superior voltado para o desenvolvimento de trabalhadores e missionários, movido por Ivan Illich, em Cuernavaca. Nos anos 1990, ele dá suporte aos movimentos dos direitos civis e se opõe à Guerra do Vietnã. Berger lecionou no Seminário Teológico de Hartford, na New School, Rutgers, no Colégio de Boston e na Universidade de Boston. A fase mais criativa de seu trabalho corresponde exatamente ao período em que lecionou na New School (1963-1970). Com um punhado de colaboradores (Thomas Luckman, Benita Luckman, Brigitte Berger, Hansfried Kellner, Stanley Pullberg), escreveu uma série de livros clássicos e notáveis ensaios sobre a fenomenologia existencial, a família, a honra e a dignidade, autenticidade e sinceridade, identidade pessoal e realidades múltiplas, e ainda sobre Musil e Don Quixote.[2]

Berger também publicou dois romances, The Enclaves (Os Enclaves) (1965), sob o pseudônimo de Felix Bastien, e Protocol of a Damnation (Protocolo de uma Condenação) (1975). Nos anos 1980 e 1990, escreveu sobre a modernização do terceiro mundo, secularização e capitalismo. Brigitte e Peter eram ambos conservadores. Nostálgico dos tempos da monarquia austro-húngara, ele sempre se manifestou crítico da Esquerda e foi intimamente associado ao periódico conservador Commentary e ao Instituto neoliberal American Enterprise, em Washington, D.C. Suas colocações no blog do site do American Interest, que manteve até seus últimos momentos, apontam para um possível voto em favor de Donald Trump.[3]

Não há dúvida possível: The Social Construction of Reality (1966) / A Construção Social da Realidade (1974), em coautoria com Thomas Luckmann, não é apenas a obra mais conhecida de Berger – é também sua melhor e mais duradoura contribuição à teoria social.[4]Deve ser lida juntamente com Invitation to Sociology (Convite à Sociologia) (1963), que a precedeu, e com The Sacred Canopy (O Dossel Sagrado) (1967), que aplica a perspectiva geral da sociologia do conhecimento ao fenômeno da religião. Entretanto, seu título virou epônimo de um movimento nas ciências sociais mais inspirado pelo pragmatismo e pelo pós-estruturalismo do que pela fenomenologia social. Frente aos usos e abusos da “construção social de X”, ambos os autores rejeitaram o título (Berger, 2016, Luckman, 2016) mas sem nunca mencionar que a metáfora construtiva nada mais é que uma tradução truncada da Konstitution (Constituição) de Husserl.[5] O subtítulo do livro, Tratado sobre Sociologia do Conhecimento, torna clara sua conexão com a fenomenologia. Indica que o livro oferecerá uma análise sociológica da estrutura e da gênese das atividades sociais intencionais que constituem o mundo como um mundo humano em sua facticidade. O livro abre com uma breve história da sociologia do conhecimento (redigida por Peter Berger) que fundamentalmente democratiza o conhecimento. O foco é deslocado do pensamento teórico, das ideias e Weltanschauungen de intelectuais para o conhecimento do senso comum de pessoas ordinárias. É seguido por um acessível resumo do primeiro volume da Structures of the Life-World (Estrutura do mundo da vida) de Alfred Schütz (redigido por Thomas Luckmann, que estava preparando as anotações de Schütz para publicação) que oferece os fundamentos fenomenológicos de sua análise sobre a constituição da sociedade.

A despeito de seu tom e de seu estilo, A construção tenciona ser uma contribuição sistemática para a teoria geral da sociedade e uma alternativa humanística ao funcionalismo estrutural de Talcott Parsons. Bem antes da questão da agência e da estrutura chamar a atenção, nos anos 1980 – e seria mantida cativa por mais outras três décadas! –, Berger e Luckmann, que estavam na faixa dos trinta anos quando escreveram juntos, já haviam descoberto que a transição da subjetividade para a objetividade, da agência para a facticidade, e o retorno do determinismo ao voluntarismo poderiam ter sucesso se alguém pudesse articular Weber com Durkheim, utilizando Marx e Mead como mediadores.[6] Em Invitation to Sociology (1963), The Social Construction of Reality (1966) e The Sacred Canopy 1967) (Dossel Sagrado, 2004) (1967), Berger elaborou uma teoria social dialética, que consegue cobrir a distância entre o subjetivismo de Weber e o objetivismo de Durkheim através de um movimento continuado, em que os significados subjetivos se tornam facticidades objetivas por meio do procedimento de externalização, enquanto que as facticidades objetivas se tornam significados subjetivos através do procedimento de internalização.[7]Na sua interpretação mais simples, a inter-relação entre homens/mulheres e a sociedade se junta à ideia weberiana de que são os seres humanos que fazem a sociedade, e na ideia “durkheimiana” de que a sociedade gera os seres humanos, mediante a teoria dialética das práticas sociais, devidas ao marxismo hegeliano de Lukács e Sartre, sem considerar, entretanto, sua totalização.

A movimentação teórica pode ser analiticamente decomposta em três momentos: o primeiro junta a teoria da ação de Weber à teoria das práticas de Marx num movimento de exteriorização. No segundo, junta-se Durkheim a Marx. O movimento de exteriorização dos significados do humano faz nascer um mundo objetivo de instituições sociais (os fatos de Durkheim) que é encontrado pelos indivíduos como uma facticidade inerte (a alienação de Marx). Num terceiro e derradeiro momento, Berger junta a teoria das instituições de Durkheim à teoria da socialização de Mead, e descreve como os significados exteriorizados são reapropriados e reincorporados pelos indivíduos através da interiorização, tornando-se subjetivamente real para eles. A partir dessa perspectiva dialética, a constituição da sociedade “como parte do mundo humano, feito pelos homens, habitado pelos homens, e, em retorno, fazendo homens” (Berger e Luckmann, 1966:211) aparece como um processo histórico em andamento, sem começo nem fim.

Levando a sério significados e signos – e sinais do outro mundo também -, Peter Berger fica na tradição germânica de Geistes – und Kulturwissenschaften (ciências humanas e culturais). Ele é fortemente influenciado pela fenomenologia social de Alfred Schütz, cujos cursos frequentou na New School, e no interacionismo simbólico de George Herbert Mead. Para ele, o humano aparece sobretudo como um animal simbolicum. Diferentemente dos animais, seres humanos são destituídos de instintos que os guiem. Seguindo a antropologia filosófica de Arnold Gehlen, Berger argumenta que os humanos têm que construir seu próprio mundo como um mundo que faça sentido.[8] Para estabilizar seu ambiente, precisam criar instituições como sistemas de ação e de orientação para o mundo. Isso é necessário porque, sem orientação, o ser humano se depara com o caos. Esse é o ponto em que o conservadorismo penetra. De acordo com Berger, o terror da anomia radical é fatal. Para escaparem do medo, os seres humanos necessitam de significados estáveis e de uma ordem estável em que possam ser tidos como existentes. Um “nomos socialmente estabelecido” é necessário como “um escudo contra o terror” (Berger, 1967:22). Como uma solução para a anomia, Berger propõe uma dose de alienação: “o estranhamento antropológico é necessário” (idem, p.92).[9] A fim de sobreviver, seres humanos precisam se alienar das instituições que criaram e aceitá-las como seu “nomos”. Berger reconhece que sua “refuncionalização” do conceito de Marx de alienação “tem implicações mais para a direita do que para a esquerda” (id. ibd., 2024, nota 5). Embora o requisito da ordem seja um requisito social, o argumento de Berger não é, todavia, funcionalista, e sim existencialista. A necessidade de uma ordem estável é um requisito da vida. Instituições proveem alívio psicológico para os indivíduos. Através da imposição e da proposição da maneira regrada de pensar, sentir, agir, em suma, de ser, elas oferecem um sentimento de “segurança ontológica” e mantêm a ansiedade sob controle.

A sociedade é constituída e mantida através de processos de exteriorização, institucionalização e legitimação. A constituição de instituições estáveis é um imperativo antropológico. Seres humanos precisam construí-las juntos. Baseado em Schütz e Mead, Berger delineia como os significados sociais são construídos pela conversação e como padrões comportamentais são progressivamente estabilizados por meio de hábitos e rotinas. Num belo artigo sobre a sociologia do casamento, Berger e Hansfried Kellner (1964), seu cunhado, analisam como a sociedade se constitui, in statu nascendi (no seu estágio nascente). Através da reciprocidade de perspectivas entre os esposos, os papeis de cada um são definidos, resultando em que a motivação e a tipificação de sua ação se tornam cada vez mais previsíveis. Com o nascimento de um filho, a díade se torna tríade, onde o casal se transforma numa família que socializa a criança, frente a um mundo preexistente. Por extensão e graças à linguagem, que destaca significados compartilhados das interações face a face, as tipificações locais são institucionalizadas e emerge um universo estável de significados para além do pequeno mundo da família. O mundo não é apenas construído socialmente; ele é também socialmente mantido. Devido à sua facticidade objetiva, o mundo socialmente construído se autolegitima. Porém, como permanece precário e vulnerável à dúvida e à crítica, tanto no nível objetivo como no subjetivo, ele precisa ser reforçado por uma legitimação adicional. É aí que se introduzem mitos, religiões, ideologias e outros “mecanismos conceituais de manutenção da realidade”. As legitimações explicam e justificam a existência de nomos, mantêm a aparência natural, e preservam o indivíduo das crises existenciais induzidas de “de-realização” e despersonalização.

A realidade social é continuadamente construída, desconstruída e reconstruída, num processo histórico em andamento. Os indivíduos que constituem a sociedade são, por sua vez, constituídos pela sociedade. Berger, tal como Mauss, Halbwachs, Parsons, Manheim, Elias, C. W. Mills e Lahire, tem um forte interesse na psicologia sociológica. Ele até pretendeu produzir uma sociologia da psicologia, como uma seção final do seu livro mais famoso, mas tudo que sobrou desse projeto foi um artigo crucial sobre a Psicanálise na América (Berger, 1964). Indivíduos precisam ser socializados, primeiramente por seus pais e seus pares na infância e, então novamente, quando – já como indivíduos socializados — eles adentram novos segmentos da sociedade. Berger, como nenhum outro, está ciente da fragilidade do universo e é sensível ao sofrimento que acomete o indivíduo quando seu universo é ameaçado de aniquilamento ou sua identidade de fragmentação.  A “epoché da atitude natural” está sujeita à desagregação. Como sociólogo da religião, ele sabe que a crença é volúvel e que os indivíduos precisam ser permanentemente tranquilizados pelos pares de que o mundo é real, que as suas crenças são legítimas e que eles não estão à beira da loucura. Para manter a plausibilidade do universo, os indivíduos precisam ser reassegurados pelos seus colegas. Berger chama a base social da manutenção da realidade de “estruturas da plausibilidade”. Elas são especialmente importantes quando definições alternativas da realidade e da identidade estão disponíveis no interior de subgrupos ou, de modo mais radical, quando indivíduos “alternam” de um universo de significados para outro, algo que acontece quando se convertem, “saem do armário” ou ainda quando experimentam um “choque cultural”.

No Sacred Canopy (O Dossel Sagrado), Berger transpõe e transforma sua teoria sobre o conhecimento numa teoria da religião. Novamente, ele tenta elaborar uma síntese entre Durkheim e Weber, via Marx e Mead. Para Durkheim, a religião provê a normas e valores que estabilizam a ordem social. Para Weber, a religião provê o indivíduo de significado. Ao fundir as ideias de Durkheim e de Weber, Berger considera a religião como um arranjo que nega a realidade; é um produto do homem e atribui a constituição da realidade a Deus ou a deuses. Paradoxalmente, indivíduos têm acesso à “verdade última” através da alienação. Por intermédio da socialização, eles são induzidos à religião, que lhes oferece consolação e significado; por intermédio da interiorização, acabam por acreditar que a realidade última está lá fora como um irresistível domínio para o qual possuem um acesso pessoal.

Apesar da proclamação de Berger em relação a um “ateísmo metódico” (Berger, 1967: 180), sua sociologia da religião é, de fato, uma sociologia religiosa. Baseado na famosa reinterpretação que Schütz faz da teoria das “múltiplas realidades” de William James, ele continuamente sugere uma “realidade alternativa” por detrás do mundo social e permanece aberto aos “sinais da transcendência” (Berger, 1969) dentro de uma existência no mundo. O “outro mundo” está sempre lá e explica a precariedade da realidade da existência no mundo. Daí resulta que a realidade não pode ser tomada como um “ponto pacífico”. Ela precisa ser construída e reconstruída permanentemente para se estabilizar, naturalizar, concretizar e realizar.

Com o advento da modernidade, um processo de secularização inevitavelmente se estabeleceu.[10] O “pálio sagrado” se desintegrou e as tradicionais definições religiosas sobre a realidade perderam sua verossimilhança. Para Berger, a secularização induziu, em todos os níveis, a pluralização, a privatização e a individualização. Objetivamente, a religião se torna mais uma visão sobre o mundo, dentre outras. Ela precisa competir com a ciência e a tecnologia, com o mercado e o Estado. No terreno religioso, a Igreja perdeu o seu monopólio. Ela precisa competir com outras denominações num mercado segmentado. Para atrair seus seguidores, ela precisa utilizar técnicas mercadológicas de maneira crescente para colocar suas mercadorias espirituais. Subjetivamente, a religião se retrai para a esfera privada e se torna opcional. Berger, ao se antecipar às atuais teorias da individualização reflexiva, de Beck e Giddens a Archer e Kaufman, sublinha que os indivíduos podem crer se assim deseja mas de agora em diante a fé não é algo que lhe é dado e sim que precisa ser conscientemente decidido: “O que antes era tido como uma realidade óbvia e evidente, agora pode ser somente alcançada por um esforço deliberado, por um ato de ‘fé’ que por definição terá que suplantar as dúvidas que,na retaguarda, permanecem sempre à espreita” (Berger, 1967: 150).

Em Homeless Mind (Mente sem Domicílio), ele generaliza sua análise da pluralidade dos mundos da vida e a reflexividade da identidade para além do âmbito especial da religião, para analisar a conscientização e a formação da identidade na modernidade, tanto no nível individual como no coletivo. Nesse último, a produção tecnológica e a burocracia estão levando a uma sociedade funcional, anônima e abstrata, caracterizada pela alienação. A urbanização da consciência e a pluralização dos mundos da vida conduz à “bricolagem”[11] sobre as visões do mundo e à privatização da consciência. No nível individual, a desintegração da consciência coletiva perturba as identidades tradicionais. Uma vez mais, Berger antecipa as teorias da identidade, algo que se tornará moda somente na sociologia da modernidade tardia. Comparadas com as identidades tradicionais, as identidades modernas são peculiarmente abertas e plurais, bem como altamente reflexivas e individualizadas. A conjugação da pluralidade e da singularidade introduz um alto grau de plasticidade nas trajetórias da vida: “É possível o indivíduo se imaginar como tendo diferentes biografias” (Berger, Berger e Kellner, 1973: 69). A descrição do planejamento de longo prazo que segue poderia ter sido retirada diretamente de Beck, Giddens ou Bauman: “A biografia do indivíduo é percebida por ele como um projeto planificado. Esse projeto inclui a identidade. Em outras palavras, no planejamento da vida a longo prazo, um indivíduo não planeja tão somente o que ele irá fazer, mas também o que ele será” (idem, p.74). No entanto, o receio da anomia, a nostalgia pelo passado e a crítica conservadora sobre a mocidade Americana e a contracultura carregam consigo a assinatura do Peter Berger tardio.

Agora, que ele já se foi, nós podemos agradecer sua orientação para a teoria social, elogiar o brilhantismo de seus primeiros trabalhos, enaltecer sua sensibilidade existencial sobre a condição humana, honrar a ausência de pretensão que marca seus escritos e nos deliciar com algumas das brincadeiras que ele foi salpicando ao longo de sua obra.

Referências Bibiográficas

Berger, P. (1961) The Precarious Vision. A Sociologist Looks at Social Fictions and Christian Faith. Garden City: Doubleday.

Berger, P. (1963/1976) Invitation to Sociology. A Humanistic Perspective. Garden City: Doubleday/ Perspectivas sociológicas: uma visão humanística. Petrópolis: Vozes.

Berger, P. and Kellner, H. (1964) Marriage and the Social construction of Reality, Diogenes, 46: 1-24.

Berger, P. (1965) Towards a Sociological Understanding of Psychoanalysis, Social Research, 32 (1): 26-41.

Berger, P. and Pullberg, S. (1965) Reification and the Sociological Critique of Consciousness, History and Theory, 4, (2):196-21.

Berger, P. and Kellner, H. (1965) Arnold Gehlen and the Theory of Institutions, Social Research, 31 (1): 110-115.

Berger and Luckmann, T. (1966/1974) The Social Construction of Reality. A Treatise in the Sociology of Knowledge. Garden City: Doubleday/A construção social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento. Petrópolis: Vozes.

Berger, P. (1967/2004) The Sacred Canopy. Elements of Sociological Theory of Religion. Garden City: Doubleday/ Dossel Sagrado: elementos para uma teoria sociológica da religião. São Paulo: Paulinas.

Berger P. (1969/1973) A Rumor of Angels: Modern Society and the Rediscovery of the Supernatural. Garden City: Doubleday/ Um rumor de anjos: a sociedade moderna ea redescoberta do sobrenatural. Petrópolis: Vozes.

Berger, P. (1970) The Problem of Multiple Realities: Alfred Schutz and Robert Musil, pp. 213-233 in Natanson, M. (ed.) Phenomenology and Social Reality. Essays in Memory of Alfred Schutz. Evanston: Northwestern University Press.

Berger, P. (1971) Sociology and Freedom, The American Sociologist, (6): 1-5.

Berger, P, Berger, B. and Kellner, H. (1973) The Homeless Mind. Modernization and Consciousness. New York: Random House.

Berger, P. and Kellner, H. (1981) Sociology Reinterpreted. An Essay on Method and Vocation. Garden City: Doubleday.

Berger, P. (1992) Sociology: A Disinvitation?, Society, 29 (6): 12-18.

Berger, P. and Luckmann, T. (1995) Modernity, Pluralism and the Crisis of Meaning. The Orientation of Modern Man. Gütersloh: Bertelsmann.

Berger, P. (2011) Adventures of an Accidental Sociologist. How to Explain the World without becoming a Bore. Amherst: Prometheus Books.

Bhaskar, R. (1989) The Possibility of Naturalism. Hemel Hampstead: Harvester Press.

Brüseke, J. (2017) “O looping hiperbólico do construtivismo radical: de Heidegger e Derrida ao desconstrutivismo”, Blog do Sociofilo, 28 de agosto.

Dreher, J. and Vera, H. (2016) The Social Construction of Reality, A Four-Headed, Two-Fingered Book: An Interview with Thomas Luckmann, Cultural Sociology, 10(1) 30-36.

Elder-Vass, D. (2012) The Reality of Social Construction.  Cambridge: Cambridge University Press.

Gehlen, A. (1940/1986) Der Mensch. Seine Natur und Stelling in der Welt. Wiesbaden: Aula-Verlag.

Hacking, I. (1999) The Social Construction of What? Cambridge: Harvard University Press.

Hunter, J. and Ainlay, S. (1986) Making Sense of Modern Times. Peter L. Berger and the Vision of Interpretative Sociology. London: RKP.

Luckmann, T. (2001) Berger and his collaborator(s), pp. 17-25 in Woodhead, L. ed. (2001) Peter Berger and the Study of Religion. London: Routledge.

Pfadenhauer, M. (2013) The New Sociology of Knowledge: The Life and Work of Peter L. Berger. New Brunswick: Transaction Publishers.

Schütz, A. (1962) On Multiple Realities, pp. 207-259 in Collected Papers I. The Problem of Social Reality. The Hague: M. Nijhoff. Searle, J. (1995) The Construction of Social Reality. London: Penguin

Vera, H. (2016) An Interview with Peter L. Berger. Chamber Music at a Rock Concert, Cultural Sociology, 10(1) 21 –29.

Woodhead, L. ed. (2001) Peter Berger and the Study of Religion. London: Routledge. 

Wuthnow, R., Hunter, J., Bergesen, A and Kurzweil, E. (1984) Cultural Analysis. The Work of Peter L. Berger, Mary Douglas, Michel Foucault and Jürgen Habermas. London: RKP.

* Os caminhos da reciprocidade são insondáveis. De Montreal, trouxe um “coupe-oeufs”, um instrumento que decapita ovos cozidos para o café da manhã, para o meu amigo João Carlos Pinheiro da Fonseca. Em retorno, o velho me surpreendeu com a tradução desta notícia necrológica que escrevi para o European Journal of Social Theory. Agradeço também a Cecilia Soares pela leitura cuidadosa.

[1]Dada a proeminência de Peter Berger na sociologia, a literatura secundária sobre ele é surpreendentemente escassa. Eu encontrei apenas duas monografias (Wuthnow et al., 1984, Pfadenhauer, 2013), duas coleções editadas sobre sua obra (Hunter e Ainlay, 1986 e Woodhead, 2001) e uma edição comemorativa de Cultural Sociology (2016, 10, 1) celebrando o 50º aniversário de The Social Construction of Reality.

[2]Para Berger, escrever era quase um “caso de família”. Sobre seus colaboradores, ver Luckmannn, 2001.

[3]https//www.the-american-interest.com/v/Berger.

[4]Num post anterior no famoso Blog do Sociofilo, Brüseke (2016) sugeriu um título alternativo: A constituição social da vida cotidiana.

[5]Para um atlas da “Construção Social de X”, ver Hacking, 1999:1-2. Ambas, The Consruction of Reality (A Construção da Realidade) de John Searle (1995), que confessou na Conferência Mundial de Sociologia de Montreal, em 1998, que não havia tido conhecimento do livro de Berger e Luckmann e The Reality of Social Construction (A Realidade da Construção Social) de Elder-Vass (2012) oferecem adicionais variações sobre o título de sucesso.

[6] Supunha-se que o esquema dialético suplantaria a tensão existente entre o voluntarismo e o determinismo, mas, de acordo com a maldosa leitura de Baskhar, haviam conseguido combinar ambos erros! “Porque ele [o modelo dialético] encoraja, por um lado, um idealismo voluntário relacionado com nosso entendimento da estrutura social e, por outro lado, um determinismo mecanicista relacionado com nosso entendimento das pessoas” (Baskar, 1989:33). O problema, eu acho, está alhures, não na concepção voluntarista da ação, mas na concepção idealista da estrutura social como um sistema de tipificação (reduzindo a estrutura à cultura); não na concepção da cultura, em si, mas sim na superênfase dos significados em detrimento de normas e expressões (reduzindo a cultura a símbolos e signos); não na concepção determinística da subjetividade, mas na concepção conservadora da consciência e dos estados de espírito (reduzindo a ordem social ao controle social); não nos conceitos de alienação e concretude, mas na sua redução aos modos de consciência e de estados de espírito (reduzindo as patologias sociais ás patologias psicológicas).

[7] Uma versão mais elaborada dessa dialética, que constitui a espinha dorsal dos três livros, pode ser encontrada num artigo sobre reificação e consciência (Berger e Pullberg, 1965).

[8] Para uma apresentação da sociologia das instituições de Gehlen, veja Berger e Kellner, 1965.

[9] Alhures, num texto bem conservador sobre a liberdade, Berger (1971) naturaliza os imperativos da ordem, da continuidade e da trivialidade: “[Estes imperativos] são sociologicamente, antropologicamente e, talvez, até biologicamente necessários. […] A perda de significado de boa parte da vida social, denunciada nesses dias como a fonte da tal ‘alienação’, é, de fato, uma condição necessária para a sanidade individual e coletiva” (Berger, 1971: 4).

[10] Bem antes que a “pós-secularização” fosse o tema em todas as conversas, Berger havia se retraído de sua teoria da secularização. A partir de 1973, ele observou uma possível reversão da tendência da secularização no mundo desenvolvido e um “desparoquialismo” como se fosse uma teoria da secularização, limita seu alcance à Europa Ocidental e ao Québec. 

[11] Trabalho artesanal [N.T.].

Anúncios