As Raízes Subjetivas de um Desejo Revolucionário, por Cornelius Castoriadis

Blog do Sociofilo

Seção Cartografias da Crítica

Constelação Vertentes de Crítica à Francesa

Cornelius Castoriadis.jpg

Por Cornelius Castoriadis*

Clique aqui para pdf
Texto em áudio (Podcast)imagem de áudio para blog

Às vezes ouvimos dizer: “esta ideia de uma outra sociedade apresenta-se como um projeto, mas, na verdade, ela é apenas a projeção de desejos não confessados, um disfarce de motivações que permanecem escondidas para os que as utilizam. Ela só serve para veicular, em alguns, um desejo de poder; em outros, a recusa do princípio de realidade, o fantasma de um mundo sem conflito no qual todos estariam reconciliados com todos e cada um consigo mesmo, um sonho infantil que desejaria suprimir o lado trágico da existência humana, uma fuga que permite viver simultaneamente em dois mundos, uma compensação imaginária”.

Quando a discussão toma tal rumo, é preciso inicialmente lembrar que estamos todos no mesmo barco. Ninguém pode afirmar que o que diz não tem ligação com desejos inconscientes ou motivações que não confessa a si mesmo. […] Mais genericamente, aquele que crê descobrir na raiz do projeto revolucionário este ou aquele desejo inconsciente, deveria ao mesmo tempo perguntar-se qual o motivo que sua própria crítica traduz e em que medida ele não é uma racionalização.

Mas, para nós, essa devolução do argumento é de pouco interesse. Com efeito, a pergunta existe, e mesmo se ninguém a fizesse, aquele que fala de revolução deve fazê-la a si mesmo. Os outros que decidam o quanto de lucidez sobre si mesmo lhes proporcionam; um revolucionário não pode estabelecer limites para seu desejo de lucidez. […] é preciso examinar o nascimento de novas motivações e de novas atitudes capazes de levar à realização do projeto revolucionário. Mas este exame será mais fácil, se tentarmos explicitar, de início, o que podem ser o desejo e as motivações de um revolucionário.

O que podemos dizer a esse respeito é por definição eminentemente subjetivo. Igualmente, é também, por definição, suscetível de todas as interpretações que quisermos. Se pode ajudar alguém a ver mais claramente em outro ser humano (ainda que nas ilusões e erros deste) e através disso  em si mesmo, não terá sido inútil dizê-lo.

Tenho o desejo e sinto necessidade, para viver, de uma outra sociedade diferente desta que me rodeia. Como a grande maioria dos homens, posso viver nesta aqui e acomodar-me – de qualquer forma, vivo nela. Por mais criticamente que tente olhar-me, nem minha capacidade de adaptação, nem minha assimilação da realidade me parecem inferiores ao meio sociológico. Não peço a imortalidade, a ubiquidade, a onisciência. Não peço que a sociedade “me dê a felicidade”; sei que isso não é uma ração que poderia ser distribuída pela municipalidade ou pelo Conselho operário do bairro, e que, se esta coisa existe, somente eu posso construi-la para mim, nas minhas medidas, como já me aconteceu e como ainda me acontecerá, sem dúvida. Mas na vida, como ela é feita para mim e para os outros, entrechoco-me com uma quantidade de coisas, inadmissíveis, digo que elas não são fatais e que decorrem da organização da sociedade. Desejo e peço que antes de tudo meu trabalho tenha um sentido, que eu possa aprovar aquilo a que lhe serve e a maneira como é feito e que me permita entregar-me a ele verdadeiramente e usar minhas faculdades, bem como enriquecer-me e desenvolver-me. E digo que isso é possível, com uma outra organização da sociedade, para mim e para todos. Digo que já seria uma mudança fundamental nesse sentido, se me deixassem decidir, com todos os outros, o que tenho a fazer, e, com meus companheiros de trabalho, como fazê-lo.

Desejo poder, com todos os outros, saber o que se passa na sociedade, controlar a extensão e a qualidade da informação que me é dada. Peço para poder participar diretamente de todas as decisões sociais que possam afetar minha existência ou o curso geral do mundo em que vivo. Não aceito que meu destino seja decidido, dia após dia, por pessoas cujos projetos me são hostis ou simplesmente desconhecidos e para que não passamos eu e todos os outros, de números num plano ou peões sobre um tabuleiro de xadrez e que, em última análise, minha vida e morte estejam nas mãos de pessoas que sei serem necessariamente cegas.

Sei perfeitamente que a realização de uma outra organização social, e sua vida, não serão absolutamente simples, que elas encontrarão a cada passo problemas difíceis. Mas prefiro antes lidar com problemas reais do que com as consequências do delírio de Gaulle, as astúcias de Johnson ou as intrigas de Kruschev. Se acaso devemos, eu e os outros, encontrar o fracasso nesse caminho, prefiro o fracasso numa tentativa que tem um sentido a um estado que permanece aquém do fracasso e do não fracasso , que permanece irrisório.

Desejo poder encontrar o outro como um ser igual a mim e absolutamente diferente, não como um número, nem como um sapo empoleirado sobre outro degrau (inferior ou superior, pouco importa) da hierarquia dos rendimentos e dos poderes. Desejo poder vê-lo e que ele possa ver-me como um outro ser humano, que nossas relações não sejam um campo de expressão da agressividade, que nossa competição permaneça dentro dos limites do jogo, que nossos conflitos, na medida em que não possam ser resolvidos ou superados, digam respeito a problemas e lances reais, envolvam o mínimo possível de inconsciente, o mínimo possível de imaginário. Desejo que o outro seja livre, porquanto minha liberdade começa onde começa a liberdade do outro, e, sozinho, posso no máximo ser “virtuoso na infelicidade”. Não espero que os homens se transformem em anjos, nem que suas almas tornem-se puras como lagos da montanha – que aliás sempre me entediaram profundamente. Sei, porém, o quanto a cultura atual agrava e exaspera a sua dificuldade de ser e de ser com os outros; e vejo que ela multiplica ao infinito os obstáculos à sua liberdade.

Sei, certamente, que esse desejo não pode ser realizado atualmente; nem também a revolução se ocorresse amanhã, poderia realizar-se integralmente durante a minha vida. Sei que haverá homens um dia para os quais não existirá nem mesmo a lembrança dos problemas que possam mais nos angustiar hoje. Mas isso não pode reduzir-me nem ao desespero, nem à ruminação catatônica. Tendo esse desejo que é o meu, só posso trabalhar para sua realização. E já na escolha que faço do principal interesse de minha vida, no trabalho a que me consagro – que é  cheio de sentido para mim, mesmo se nele encontro, e aceito, o fracasso parcial, os prazos, os desvios, as tarefas em si mesmas sem sentido -, na participação de uma coletividade de revolucionários que tenta ultrapassar as relações reificadas e alienadas da sociedade atual -, estou em condições de realizar parcialmente esse desejo. Se eu tivesse nascido numa sociedade [autenticamente] comunista, a felicidade ter-me-ia sido mais fácil – nada sei e nada posso quanto a isso. Não vou, contudo, sob esse pretexto, passar meu tempo livre vendo televisão ou lendo romances policiais.

Será que minha atitude significa recusar o princípio da realidade? Mas qual é o conteúdo deste princípio? É de que é preciso trabalhar 0 ou então que é preciso que necessariamente o trabalho seja desprovido de sentido, explorado, contradiga os objetivos pelos quais supostamente ocorre? E esse princípio valerá sob esta forma para alguém que vive de rendas? Valeria ele, sob esta forma, para os indígenas das ilhas Trobiand ou de Samoa? Vale ele ainda hoje, para os pescadores de uma pobre aldeia mediterrânea? Até que ponto o princípio de realidade manifesta a natureza e onde começa a manifestar a sociedade? Até onde manifesta a sociedade como tal e a partir de onde tal forma história da sociedade? Por que não a servidão, as prisões, os campos de concentração? De onde pois uma filosofia extrairia o direito de dizer-me: “aqui neste preciso milímetro das instituições existentes, vou mostrar-lhe a fronteira entre o fenômeno e a essência, entre as formas históricas passageiras e o ser eterno do social”? Aceito o princípio de realidade, porque aceito a necessidade do trabalho (enquanto, aliás, for real, pois torna-se cada dia menos evidente [que o seja]) e a necessidade de uma organização social do trabalho. Mas não aceito a invocação de uma falsa psicanálise e de uma falsa metafísica, que introduz na discussão precisa das possibilidades históricas afirmações gratuitas sobre impossibilidades sobre as quais ela nada sabe.

Será meu desejo infantil? Mas a situação infantil, é que a vida nos é dada, e que a Lei nos é dada. Na situação infantil, a vida nos é dada para nada, e a Lei é dada sem nada, sem mais, sem discussão possível. O que quero, é exatamente o contrário: é fazer minha vida, e dar a vida se possível, pelo menos dar para minha vida. É que a Lei não me seja simplesmente dada, mas que eu a dê a mim mesmo. Quem permanece na situação infantil é o conformista ou o apolítico, pois aceita a Lei sem discuti-la e não deseja participar da sua formação. Aquele que vive na sociedade sem vontade em relação à Lei, sem vontade política, somente substituiu o pai particular pelo pai social autônomo. A situação infantil é, de início, receber sem dar, em seguida fazer ou ser para receber. O que eu quero é uma troca justa para começar e a superação da troca em seguida. A situação infantil é a relação dual, a fantasia da fusão – e, nesse sentido, é a sociedade atual que infantiliza constantemente todo o mundo, pela fusão [feita] no imaginário [por meio de] entidades irreais: os chefes, as nações, os cosmonautas ou os ídolos. O que eu quero é que a sociedade deixe enfim de ser uma família, falsa até o grotesco além do mais, e que ela adquira sua dimensão própria de sociedade, de rede de relações entre adultos autônomos.

Será que meu desejo é desejo de poder? Mas o que eu quero é a abolição do poder no sentido atual, é o poder de todos. O poder atual é que os outros são coisas, e tudo o que quero opõe-se a isso. Aquele para quem os outros são coisas, é ele próprio uma coisa e eu não quero ser coisa nem para mim nem para os outros. Não quero que os outros sejam coisas, não teria o que fazer delas. Se posso existir para os outros, ser reconhecido por eles, não quero sê-lo em função da possessão de uma coisa que me é exterior – o poder; nem existir para eles no imaginário. O reconhecimento do outro só vale para mim na medida em que eu mesmo o reconheço. Correria o risco de esquecer tudo isso se os acontecimentos me conduzissem para perto do “poder”? Isso me parece bastante improvável; caso acontecesse, seria talvez uma batalha perdida, mas não o fim da guerra; e [afinal] regerei eu toda minha vida pela suposição de que poderia um dia voltar à infância?

Perseguiria eu a quimera de querer eliminar o lado trágico da existência humana? Parece-me mais certo que quero eliminar o melodrama, a falsa tragédia – aquela onde a catástrofe chega sem necessidade, onde tudo poderia ter-se passado de outro modo se apenas os personagens tivessem sabido isto ou feito aquilo. Que pessoas morram de fome na Índia, ao mesmo tempo em que na América ou Europa os governos instituam penalidades para os camponeses que produzem “muito” – é uma farsa macabra, é o Grand Guignol onde os cadáveres e o sofrimento são reais, mas não é a tragédia, não existe nisso nada de inevitável. E se a humanidade perecer um dia sob os efeitos de bombas de hidrogênio, recuso-me a chamar isso de tragédia. Chamo de imbecibilidade. Quero a supressão do Guignol e da transformação dos homens em fantoches por outros fantoches que os “governam”. Quando um neurótico repete pela décima quarta vez a mesma conduta de fracasso, reproduzindo para si próprio e para seus próximos o mesmo tipo de infelicidade, ajudá-lo a sair disso é eliminar de sua vida a farsa grotesca e não a tragédia; é permitir que ele veja enfim os problemas reais de sua vida e o que podem contar e trágico – que sua neurose tinha por função, em parte, exprimir, mas sobretudo, mascarar.

Quando um discípulo de Buda veio informá-lo, após uma longa viagem pelo Ocidente, que coisas miraculosas, instrumentos, medicamentos, métodos de pensamento, instituições, haviam transformado a vida dos homens desde que o Mestre se retirara para as montanhas, este interrompeu-o após as primeiras palavras. Eliminaram eles a tristeza, a doença, a velhice e a morte? Pergunto ele. Não, respondeu o discípulo. Então, eles poderiam ter ficado quietos, pensou o Mestre. E novamente mergulhou na sua contemplação, sem dar-se ao trabalho de mostrar a seu discípulo que já não o escutava mais.

 * O presente texto é um excerto do capítulo II de Instituição Imaginária da Sociedade (1975), mais especificamente da seção “Raízes subjetivas do projeto revolucionário”. Cf. CASTORIADIS, Cornelius. [1975] Instituição Imaginária da Sociedade. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 1992. p. 111-116.

Anúncios