Manifesto

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Primeiramente, #ForaTemer. Primeiro a mente, depois a festa. E sempre o corpo. Eis a nossa crença, eis o nosso hábito de ação.

Sociofilo, um núcleo de pesquisa em teoria social, foi fundado em 2007 no antigo IUPERJ, do lado da Comunidade Santa Marta. Na verdade, foi um artefato da burocracia. Chegando dos Estados Unidos, Frédéric Vandenberghe, o “patrão” do núcleo, não sabia a diferença entre uma linha de pesquisa e um projeto de pesquisa. Respondendo a um pedido da secretaria da pós-gradução do instituto, ele acabou criando, sem saber, várias linhas de pesquisa no computador (metateoria, teoria social mundial, ontologia do presente, sociologia da alma). Para unificar tudo o que ele havia elaborado, lembrou-se dos Cafés Philo, na França. Em analogia com estes encontros de aspirantes a filósofos, Fred unificou as linhas de pesquisa sob o guarda-chuva “Sociofilo”. Entretanto, a pressão das instâncias estatais de coordenação da pesquisa se fortaleceu – tudo se passando como se os textos de Michel Foucault e Nikolas Rose sobre a governamentalidade fossem lidos como manuais. O Sociofilo também cresceu e amadureceu como um núcleo de pesquisa produtivo, mas não produtivista, formado inicialmente pelos orientandos de Fred e outros simpatizantes de uma teoria capenga entre a sociologia e a filosofia. Fizemos um site bem artesanal, passamos a fazer encontros regulares dos sociofellows e discussões sempre respeitosas dos seus textos de alto nível. Também lançamos os Cadernos do Sociofilo e organizamos conferências anuais e visitas de colegas-mig@s de fora (Bernard Lahire, Jeffrey Alexander, Margaret Archer, Seyla Benhabib, Nathalie Heinich, Alain Caillé, Chantal Mouffe, entre outros).

Antes de tudo, nascemos do ímpeto de juntar nossas forças intelectuais com nossas fraquezas existenciais. Para nós, a teoria nunca foi um fim em si mesma. Pelo contrário, sempre tomamos a teoria como tentativa de transformar a sociologia numa forma de vida – solidária, cooperativa, convivial. É na interdependência com o mundo da vida que qualquer teoria se faz. Por isso, embora não sejamos filósofos, muitos de nós praticam filosofia empírica, enquanto outros refletem sobre a filosofia prática. O que importa para nós todos é o outro e não o mesmo, muito menos a mesmice. De fato, pensando que a academia é o único lugar em que o comunismo persiste ainda nos dias de hoje (cheque seu Merton), queríamos experimentar como é possível respeitar as diferenças da cada um, sem deixar de juntá-las num projeto coletivo, vivo e vivido, teórico e pratico, sério, mas não sisudo, e, por isto, necessariamente lúdico, autossubversivo e solidário. É verdade que o Sociofilo não é só um (co)laboratório. Às vezes, aparenta-se mais a um asilo, um hospital, um grupo de apoio (“teóricos anônimos”), para não dizer uma família orgulhosamente disfuncional. Repetimos: nos mantemos sobretudo pelas nossas fraquezas existenciais. Daí extraímos a nossa força.

Tínhamos consciência e, sim, até medo de que esta combinação entre alta teoria e filosofia empírica pudesse parecer arrogante. Verdade que até há quem diga isso por aí nos corredores. Contudo, somos apenas sociólogos por vocação. De jeito nenhum queremos estimular a prepotência dos jovens teóricos que, lendo meio dúzia de livros, já se autointitulam filósofos. Nada pior do que um sociólogo que se acha filósofo! Queremos tão somente compartilhar as vulnerabilidades da sociologia com a filosofia – e vice-versa. Se aprendemos alguma coisa com a grande filosofia, foi a necessidade de praticar a “paciência do conceito”, esta aliança exemplar de rigor, humildade e, é claro, alguma especulação. Como os filósofos, somos “obcecados textuais” (para reciclar uma frase justamente aplicada a Paul Ricoeur, um homem produtivamente perdido em seus próprios fichamentos). Precisamente porque somos sociólogos por vocação e não filósofos por profissão, defendemos o direito de tratar das questões mais filosóficas no interior da própria sociologia. O que nos interessa, na verdade, é a filosofia dentro da sociologia e a sociologia dentro da filosofia. Somos teoricamente bi, concretamente trans, em todo caso sempre híbridos. Mas nem por isso temos algo contra os héteros e outros especialistas, com a condição de que eles tenham um espírito, um coração e uma missão. Precisamos não somente de uma lógica, uma ontologia e uma epistemologia sociológicas, mas também de uma ética, uma estética, uma teologia, uma ideologia, uma política e uma prática próprias à sociologia. Além desta sociologia filosofante, delirante e especulativa, tipicamente alemã, queremos também estimular, como acima dissemos, a filosofia empírica. Queremos que os sociólogos se façam antropólogos. Que eles andem nas favelas e nas aldeias do mundo. Que sejam, quando necessário, menos sociólogos metafísicos de Frankfurt e mais sociólogos empíricos de Chicago e de Bangu. Que verdadeiramente façam filosofia com os outros, com “gente dentro”, como disse Tim Ingold. Que andem com os livros de Dewey, de Deleuze e de Bergson numa mão e os cadernos de notas na outra; que tenham o olhar voltado para os detalhes, que tenham verdadeiramente uma atenção à vida – nunca deixando de vampirizar a fenomenologia, a etnometodologia, o interacionismo simbólico, o pragmatismo – e pratiquem uma nanossociologia. Não o mundo a serviço da sociologia, mas a sociologia a serviço do mundo. Não é por acaso que, em apenas três anos, dois prêmios de melhor tese do IESP foram dados aos nossos fellows (Eduardo Nazareth e Diogo Corrêa – que sejam louvados!). É porque, em vez de se perderem na torre de marfim da reflexão solipsista, eles se entregaram ao mundo, submergiram nas vísceras do real e subverteram as abstrações in situ. Foi assim que conquistaram o público, quer dizer, o prêmio.

No Brasil como alhures, os sociólogos não gostam de teoria pura. Preferem purê. Não o purê das elites aristocráticas, mas o purê que se come, se metaboliza e se digere no estômago. Fundar é sempre fundir, diluir, dissolver, misturar. O abstrato só vale quando fundido no concreto. É assim que pensamos, é assim que fazemos. Mas nunca questionamos o direito de existência dos conceitos. Defendemos o direito à liberdade de criação intelectual e conceitual – com a condição, todavia, de que tudo se faça com competência e paixão, scholarship e engagement (Bourdieu): no navio do estudo, é preciso se engajar politicamente, moralmente e pessoalmente. Trata-se de uma ética, de um modo de ser. O que importa no conceito não é “o quê”, nem “por quê”, mas sobretudo “como” e “para quê?”. Aplicamos o critério do julgamento reflexivo de Kant: que nenhuma pessoa, nenhuma obra singular, ainda que ela seja única e idiossincrática, pode ser exemplar e atingir a universalidade senão graças à aprovação dos outros e à aderência que ela conquista do e junto ao mundo. Eis nosso imperativo categórico: são os leitores, coprodutores do texto, que nos acompanharão, julgarão com competência e caridade, praticando não uma hermenêutica da suspeição, mas (e é isso que esperamos!), uma “antropologia da admiração” (Heinich). Falando disto, o nosso exemplo é o Cazzo?!!, o blog de teoria e de metodologia dos colegas bem humorados do Recife. Em homenagem a ele, na esteira da excelência e rumo à classificação A1 transuniversal, pedimos um comentário a Cynthia Hamlin, Artur Perrusi e  Jonatas Ferreira.

Mas, e o nosso blog? Por que estamos abrindo esse blog?!! Em verdade, isto não é um blog. Não partilhamos a ideia do blog como um espaço solipsístico de reflexões em primeira pessoa. Eu, eu, eu…. émoi, émoi, émoi. Condenamos toda forma e toda tentação à prática de uma egotrip. A nossa aventura pode ser singular, a nossa viagem, porém, é tanto coletiva quanto a nossa deriva múltipla. No lugar do cartesiano cogito, ergo sum, preferimos o collins-latouriano cogitamus, ergo sumus. Os textos que aqui serão postados refletirão a multiplicidade dos encontros, o esforço obsessivo da reflexão dialógica e comunicativa e os emaranhados de elos e pensamentos que fundaram e dão consistência ao nosso grupo. Afetos alegres, aumento da nossa potência de agir e de existir: eis o que buscamos.

Nosso blog, assim como nosso grupo, não é nada além de um emaranhado de gambiarras. Se somos um grupo de teoria social – e acima dissemos que o blog é um blog de teoria social –, isso é só um ponto de partida para logo depois desfazermos qualquer demarcação. Desconhecemos fronteiras, só conhecemos misturas, miscelâneas, promiscuidades. Assim como o pensamento existe sempre em um fluxo de consciência particular – não foi isso que nos ensinou James? –, o blog terá o seu próprio. Inserido na duração dos textos e das leituras, ele assumirá o seu fluxo singular, o seu devir particular e irredutível a qualquer demarcação institucional. Lembraremos Baudelaire sempre quando alguma demarcação se anunciar: “Ó morte, velho capitão, está na hora! Levantar âncora! Este país nos chateia. Deixe-nos embarcar!”.

Se é verdade que não podemos antecipar o rumo do weblog e ainda menos dos posts a vir – senão eles já estariam escritos, programados e publicados – não é verdade que tudo é possível e nada necessário. Numa inversão do sistema luhmanniano, queremos, desde o início, limitar o espectro de possibilidades e reduzir a complexidade para estimular a contingência. Não sabemos exatamente o que queremos, mas já sabemos o que não queremos: não estamos interessados em textos sobre block modelling, regressão múltipla (a não ser a vidas passadas, viva o Bhaskar!) ou escolha racional. Procuramos uma saída do mainstream e buscamos  escadas para o céu – ou para o espaço, tanto faz.  Não queremos textos sobre as ciências sociais que não são sociais. Mas tudo que vai da nano- até a megassociologia, tudo que explora a interface entre sociologia, antropologia e filosofia, é peixe em nossa rede, dá liga e linha para o nosso emaranhado. Como pesquisadores, pescaremos nas águas do realismo critico, da hermenêutica, da fenomenologia, do pragmatismo, do pós-estruturalismo, da etnometodologia, do antiutilitarismo, do feminismo, da praxiologia e do pós-colonialismo, da teoria e da sociologia crítica, das sociologias culturais e morais … Tudo o que articula e desarticula as montagens da ação, da ordem e da mudança nos interessa; tudo que estimula a transformação reflexiva e contínua do self, da cultura e da sociedade nos seduz. Não somos necessariamente revolucionários; somos reformistas radicais e militantes existenciais.  Acreditamos que é na militância da existência que se fazem reformas radicais; que é no reformismo da existência que se faz a boa militância. A revolução não é um projeto utópico que habita alhures, mas uma realização concreta situada no presente radical do aqui e agora de nossa existência. Por isso, somos existencialmente militantes, assim como militantemente existenciais. E é por isso que compusemos o nosso manifesto como uma minifesta. A macrofesta está por vir. Será o nosso blog.

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