Escola de Frankfurt: A Formação do Instituto para Pesquisa Social, por David Held

Blog do Sociofilo

Seção Cartografias da Crítica

Constelação Teoria Crítica Alemã: Origens, Frankfurt e Além

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Por David Held*

Tradução de Alberto Luis Cordeiro de Farias

Revisão de André Magnelli

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O Institut für Sozialforschung (Instituto para Pesquisa Social), fundado na Alemanha em 1923, foi o lar da Escola de Frankfurt. O Instituto foi criado como resultado de uma iniciativa do filho de um rico comerciante de grãos, Felix Weil, que adquiriu os meios para assegurar que o Instituto pudesse desenvolver-se com pressões e restrições externas mínimas; e, de fato, embora formalmente ligado à Universidade de Frankfurt, seus fundos privados lhe deram uma considerável autonomia.

Quando Horkheimer assumiu a direção do Instituto em 1930, a maioria das figuras que mais tarde se tornaram famosas como membros da Escola de Frankfurt começou a contribuir para as atividades do Instituto. Embora a orientação do Instituto tenha mudado acentuadamente sob a influência de Horkheimer, a experiência e as preocupações de seu primeiro diretor – Carl Grünberg, uma figura relativamente desconhecida hoje – foram importantes para o desenvolvimento geral do Instituto [1].

O Instituto sob Grünberg, 1923–9

Grünberg é considerado por muitos como um dos fundadores da tradição austro-marxista. Após uma cátedra de direito e ciência política na Universidade de Viena, tornou-se, em nome de Frankfurt, o primeiro “marxista declarado a ocupar uma cátedra em uma universidade alemã” [2]. Foi responsável por estabelecer e editar a primeira grande revista europeia do trabalho e história do movimento socialista – Archiv für die Geschichte der Sozialismus und der Arbeiterbewegung [Arquivo para a História do Socialismo e Movimento de Trabalhadores] ou Grünbergs Archiv, como era muitas vezes chamada – que transferiu-se, com Grünberg, para Frankfurt [3]O marxismo foi a inspiração e a base teórica do programa do Instituto. Os contatos regulares e os intercâmbios com o Instituto Marx-Engels em Moscou (então sob a direção de David Riazanov), simbolizavam os estreitos laços entre o Instituto para Pesquisa Social e as tradições do marxismo clássico. Os dois institutos patrocinaram conjuntamente a publicação do primeiro volume do Marx-Engels Gesamtausgabe [Edição das obras completas de Marx-Engels].

Muitos dos estudiosos reunidos em torno a Grünberg estavam profundamente comprometidos com o envolvimento político. Entre seus assistentes estavam membros do Partido Comunista – Karl August Wittfogel, Franz Borkenau e Julian Gumperz -, bem como membros do Partido Social Democrata. Karl Korsch também foi ativo nos negócios do Instituto em seus primeiros anos, participando de seminários e contribuindo para o Archiv. Mas o Instituto permaneceu oficialmente independente das afiliações partidárias e foi um centro para estudiosos de muitos quadrantes políticos. Como um de seus membros, Henryk Grossmann, escreveu:

É uma instituição neutra na universidade, que é acessível a todos. Seu significado reside no fato de que, pela primeira vez, tudo o que se refere ao movimento operário nos países mais importantes do mundo é recolhido. Acima de tudo, as fontes (minutas dos congressos, programas partidários, estatutos, jornais e periódicos) […] Quem quer que na Europa Ocidental deseje escrever sobre as correntes do movimento operário deve vir até nós, pois somos o único ponto de encontro para ele [4].

No entanto, o caráter distinto do marxismo iniciado pelo Instituto para Pesquisa Social pode ser melhor detectado no discurso de posse de Grünberg em 1924. Neste texto, Grünberg enfatizou sua oposição à tendência das universidades alemãs em direção ao ensino em detrimento da pesquisa, voltada à produção de “mandarins” capazes apenas de servir ao equilíbrio existente de poder e de recursos. O marxismo, argumentou Grünberg, como método de pesquisa científica e como sistema filosófico, deve ser usado para contrariar estas tendências [5].

No relato de Grünberg, o domínio de objeto do materialismo histórico são os eventos sociais reais: “a vida social em suas transformações incessantes e sempre recorrentes”. O objetivo da pesquisa é apreender “as causas finais desses processos de transformação e as leis segundo as quais evoluem”. O método de pesquisa é “eminentemente indutivo”. Mas seus resultados não alegam “nenhuma validade absoluta no tempo e no espaço […] apenas um significado relativo, historicamente condicionado” [6]Em contraste com posições de alguns membros da Segunda Internacional, o marxismo de Grünberg não é um simples materialismo monista, que mantém uma simplista teoria da verdade correspondente e pretende revelar leis trans-históricas. As categorias do materialismo, sustentou Grünberg, não compreendem verdades universais e imutáveis; refletem e descrevem uma sociedade dinâmica e em desenvolvimento cujo futuro não é garantido. A vida social, acreditava ele, poderia ser compreendida pela descoberta das leis operacionais em uma determinada economia. O marxismo só poderia se desenvolver como uma teoria da produção – como uma teoria das formas mutáveis da vida econômica.

O Instituto de Grünberg procurou combinar estudos históricos concretos com análise teórica. Seu jornal publicou artigos sobre uma grande variedade de tópicos na história das economias capitalista e socialista e dos movimentos operários. Historiadores, economistas, filósofos, entre outros, foram representados na revista e em seminários do Instituto. Trabalhos de figuras tão diversas quanto Ryazanov, Grossmann, Wittfogel, Korsch e Lukács foram impressos no Archiv.

A prescrição para a explicação social oferecida por Grünberg não foi, contudo, adotada pelas figuras centrais da teoria crítica; eles rejeitaram a ideia de que todos os fenômenos sociais eram em essência um mero “reflexo” do econômico. Da mesma forma, um certo determinismo otimista, que muitas vezes encontrava expressão em sua obra, sugerindo uma progressão no desenvolvimento das instituições sociais “do menos para o mais perfeito”, não foi compartilhado pela maioria daqueles que mais tarde se tornaram teóricos críticos. Mas a forte ênfase que Grünberg colocou à pesquisa empírica historicamente orientada, realizada no contexto das percepções de Marx sobre a economia política, devia tornar-se uma parte crucial de seu marco de referência.

Em 1929, aos 68 anos, Grünberg aposentou-se. No ano seguinte, Max Horkheimer foi instalado como diretor do Instituto. Em pouco tempo, teve um grande impacto no tipo de trabalho executado pelos seus membros.

O Instituto e seu programa sob Max Horkheimer

Horkheimer reuniu em torno de si um grupo diverso com uma extraordinária variedade de talentos. Em poucos anos, os novos participantes do Instituto incluíram Eric Fromm, Herbert Marcuse e Franz Neumann, enquanto Friedrich Pollock e Leo Löwenthal, ambos membros desde a década de 1920, assumiram posições mais proeminentes. A composição do Instituto sob Horkheimer corrobora a afirmação de Benjamin de que “não se pode dizer que o grupo […] tenha sido fundado em um campo específico […] [Pelo contrário] […] baseou-se na ideia de que o estudo sobre a sociedade só pode ser desenvolvido na conexão mais estreitamente integrada das disciplinas; acima de tudo, economia, psicologia, história e filosofia” [7]Em 1935, Walter Benjamin tornou-se um pesquisador associado da agência do Instituto em Paris e recebeu uma bolsa [8].

O discurso inaugural de Horkheimer, “A situação atual da filosofia social e as tarefas de um Instituto para Pesquisa Social”, apresentado em 1931, expressou continuidade e rupturas com o programa de Grünberg [9]Horkheimer acreditava, como Grünberg tinha feito antes dele, na “ditadura do diretor”: o diretor deveria ter um papel central em todas as atividades do Instituto. A preocupação de Grünberg com a análise teórica e com as investigações empíricas também esteve no centro dos interesses de Horkheimer. No entanto, Horkheimer procurou discutir o papel da teoria e da pesquisa social de um modo mais radicalmente histórico e teórico. O tema principal de seu discurso era a relação entre filosofia social e ciência. Horkheimer caracterizou a filosofia social como uma tentativa de interpretar o destino dos seres humanos “na medida em que eles são partes de uma comunidade, e não meros indivíduos” [10]Embora aceitasse o significado das questões tradicionais da filosofia social, como a relação entre o indivíduo e a sociedade, o significado da cultura e a base da vida social, ele rejeitou uma abordagem puramente filosófica dessas questões [11]Os filósofos, argumentou ele, muitas vezes trataram essas questões em abstrato, divorciadas da história e do contexto social; as principais escolas postulavam ingenuamente “um indivíduo abstrato, isolado” (por exemplo, Lebensphilosophie, existencialismo) ou uma “totalidade social hipostasiada” (por exemplo, idealismo hegeliano) como fonte de vida e objeto próprio da investigação social. Horkheimer rejeitou essas abordagens e, em vez disso, pediu “uma penetração dialética e desenvolvimento da teoria filosófica e da práxis das disciplinas científicas individuais” [12]Ele sustentou que era necessário reintegrar disciplinas porque a divisão do trabalho nas ciências humanas e sociais estava tão avançada e seus resultados tão fragmentados [13]Nem a filosofia nem as ciências individuais poderiam defender a alegação de que ela só poderia descobrir “o essencial” ou “os fatos” [14]. […] É crucial notar que ele não estava exigindo, como foi sugerido por um crítico [Perry Anderson], “o desenvolvimento da filosofia social complementada por investigações empíricas” [15]Em vez disso, Horkheimer sublinhou a necessidade de um programa de estudo interdisciplinar no qual “filósofos, sociólogos, economistas, historiadores e psicólogos devem unir-se numa parceria de trabalho duradoura […] fazer o que todos os pesquisadores genuínos sempre fizeram: perseguir as grandes questões filosóficas com os métodos mais refinados”. No curso de trabalhos sobre problemas e objetos particulares, os pesquisadores devem, segundo ele, reformular as questões filosóficas, torná-las mais precisas e inventar novos métodos para lidar com questões específicas, ao mesmo tempo em que “não perdem de vista o universal” [16].

Horkheimer também rejeitou a ênfase daqueles que, como ele disse, “não entendiam Marx”. Os fenômenos sociais não podem ser deduzidos do ser material, isto é, da economia. Os membros do Instituto, insistiu, devem explorar a questão da “interconexão entre a vida econômica da sociedade, o desenvolvimento psíquico do indivíduo e as transformações no campo da cultura […] incluindo não só os chamados conteúdos espirituais da ciência e religião, mas também lei, ética, moda, opinião pública, esporte, diversão, estilo de vida etc.” [17]Mais especificamente, eles devem perguntar: quais interconexões existem em grupos sociais definidos, em períodos definidos de tempo e em países definidos, entre a posição do grupo na economia, as mudanças nas estruturas psíquicas de sua associação e outros fatores relevantes que condicionam e afetam pensamentos e práticas do grupo? [18].

Três temas dominam todos os outros no endereço de Horkheimer. O primeiro, já descrito, sugere a necessidade de re-especificar “as grandes questões filosóficas” em um programa de pesquisa interdisciplinar. O segundo tema, mais implícito, mas mais claro em ensaios posteriores, é um apelo à rejeição do marxismo ortodoxo e sua substituição por uma reconstrução do projeto de Marx. O terceiro enfatiza a necessidade de a teoria social explicar o conjunto de interconexões (mediações) que possibilitam a reprodução e transformação da sociedade, economia, cultura e consciência. Em seus primeiros escritos como membro do Instituto, Horkheimer acrescentou uma nota sobre metodologia aos temas de seu discurso inaugural [19]Nenhum método poderia, em sua opinião, produzir resultados definitivos sobre qualquer objeto de investigação. Tomar um tipo de abordagem é sempre arriscar uma perspectiva distorcida da realidade. Vários métodos, com base em técnicas qualitativas e quantitativas, têm de ser complementados uns com os outros em qualquer investigação sistemática. Mas o trabalho empírico, enfatizou Horkheimer, não é um substituto para a análise teórica. Conceitos como sociedade, cultura e classe, indispensáveis a toda investigação, não podem ser simplesmente transcritos em termos empíricos. Eles exigem elucidação teórica e avaliação [20].

Durante a década de 1930 e início da de 1940, apesar da transferência do Instituto – um resultado, naturalmente, da ascensão dos nazistas ao poder – para Genebra (fevereiro de 1933) e depois para a Universidade de Columbia em Nova York (1935), membros do Instituto continuaram a trabalhar em economia política, filosofia, sociologia, psicologia, literatura, música e outras disciplinas. A variedade de abordagens foi refletida na nova revista do Instituto, a Zeitschrift für Sozialforschung [Journal of Social Research], publicada pela primeira vez em 1932, e em Studies in Philosophy and Social Science, quando a revista foi posteriormente convertida para publicação em inglês, entre 1939 e 1941. O termo “teoria crítica”, o rótulo sob o qual o trabalho da Escola de Frankfurt tornou-se tão famoso, não reflete adequadamente as diferentes disciplinas representadas na revista ou no Instituto. Embora seja um rótulo que Horkheimer, Adorno e Marcuse pareciam felizes em empregar como descrição de suas próprias empresas a partir de meados da década de 1930, a “teoria crítica” não descreve a abordagem ou método de indivíduos como Grossmann, Fromm e Neumann ( que tinham uma atitude mais tradicional em suas disciplinas). Também não identifica satisfatoriamente todas as etapas do desenvolvimento do próprio pensamento de Horkheimer, Adorno e Marcuse – as transformações, por exemplo, na perspectiva teórica de Horkheimer, desde um compromisso precoce com o materialismo e a crítica até um interesse posterior pelos fenômenos “quase religiosos”. Além disso, o rótulo esconde uma série de diferenças entre Horkheimer, Adorno e Marcuse. Ao empregar o termo é importante ter em mente que existem vários modelos de teoria crítica. Embora o termo “teoria crítica” seja aplicado aqui, suas diferentes conotações também serão expostas.

O caráter dos projetos do Instituto

Os anos mais ativos do Instituto, 1930-44, coincidiram com a proeminência do nazismo e do fascismo. Horkheimer tinha sido nomeado há menos de três anos antes que ele e os outros fossem forçados a deixar a Alemanha. As oportunidades de “promover o desenvolvimento das massas” diminuíram rapidamente. Mas, embora existissem diferenças marcantes na maneira como Horkheimer e os outros conceberam as implicações políticas de seu trabalho, a maioria dos membros do Instituto esperava que seus esforços cumulativos contribuíssem para fazer história com vontade e consciência. Eles pretendiam que suas descobertas se tornassem uma força material na luta contra a dominação em todas as suas formas. As condições que observaram e as questões que se tornaram centrais para os membros do Instituto foram:

Os movimentos operários europeus não se transformaram numa luta unificada de todos os trabalhadores. O que bloqueou esses desenvolvimentos?

O capitalismo estava em uma série de crises agudas. Como isso poderia ser melhor entendido? Qual era a relação entre o político e o econômico? A relação estava mudando?

O autoritarismo e o desenvolvimento da burocracia pareciam cada vez mais a ordem do dia. Como esses fenômenos poderiam ser compreendidos?

O nazismo e o fascismo passaram a dominar a Europa central e meridional. Como isso foi possível? Como esses movimentos conseguiram apoio em larga escala?

As relações sociais, por exemplo as criadas pela família, pareciam sofrer mudanças sociais radicais. Em que sentido? Como isso afetou o desenvolvimento individual?

Áreas de cultura pareciam abertas à manipulação direta. Um novo tipo de ideologia estava sendo formado? Em caso afirmativo, como isso afetava a vida cotidiana?

Dado o destino do marxismo na Rússia e na Europa Ocidental, o próprio marxismo não era outra coisa senão uma ortodoxia obsoleta? Havia um agente social capaz de mudança progressiva? Que possibilidades havia para uma prática socialista eficaz?

Desnecessário dizer que nem todos os membros do Instituto estudaram e abordaram cada questão. Horkheimer, Adorno e Marcuse, entretanto, comentaram a maioria, se não todas, dessas perguntas. É a partir de seus trabalhos que se pode mais diretamente reconstruir a relação entre os temas. Mas há também conexões importantes, muitas vezes não explicitamente feitas, entre a maioria dos projetos conduzidos em um momento ou outro sob os auspícios do Instituto, por um lado, e o trabalho independente da maioria dos membros do Instituto, por outro.

Emigração

No final dos anos 1930 e 1940, as atividades do Instituto nos Estados Unidos sofreram rupturas e uma certa fragmentação. Um hiato surgiu entre os trabalhos de filosofia e teoria social (como a Dialética do Esclarecimento, de Horkheimer e Adorno) e estudos empíricos realizados pelo Instituto (por exemplo, A Personalidade Autoritária). Havia também uma diferença cada vez maior entre teoria e prática. Refletindo talvez sobre a Alemanha fascista e o exílio, Marcuse escreveu: “o divórcio do pensamento e da ação, da teoria e da prática, é parte do mundo não-livre. Nenhum pensamento e nenhuma teoria (sozinho) pode desfazê-lo” [21].

O programa de pesquisas que Horkheimer tinha defendido em seu discurso inaugural e em seus primeiros ensaios na Zeitschrift não poderia ser realizado sob as novas circunstâncias. A emigração para Nova York em 1935, e para a Califórnia em 1941, deslocou uma série de projetos. A angústia e a desordem seguiram a ascensão de Hitler ao poder, a perda de parentes e amigos e o choque de descobrir uma cultura muito estranha [22]Um sentimento de desorientação também foi criado por uma mudança no público para quem Horkheimer e os outros estavam escrevendo. Apesar de permanecerem relativamente isolados das ciências sociais norte-americanas, quanto mais tempo eles ficassem nos Estados Unidos, mais seu público iria ser constituído de cientistas sociais americanos (ao contrário de estudiosos e emigrados alemães) [23]Horkheimer e Adorno continuaram a publicar a maior parte de seus escritos em alemão; a própria Zeitschrift foi publicada em alemão até 1939. Mas a mudança de audiência finalmente forçou uma reconsideração da forma e conteúdo de pelo menos parte de seu trabalho.

As diferenças entre as tradições intelectuais que fundamentavam a erudição alemã e americana reforçavam o sentimento de deslocamento. Neumann procurou expressar essa diferença quando escreveu:

Em geral, o exílio alemão, criado na veneração da teoria e da história, e do desprezo pelo empirismo e pelo pragmatismo, entrou num clima intelectual diametralmente oposto: otimista, empiricamente orientado, a-histórico, mas também farisaico [self-righteous]. [24]

Os membros do Instituto achavam muitas vezes que a filosofia anglo-americana carecia de profundidade e discernimento. De acordo com Adorno e Neumann, os estudiosos norte-americanos eram acríticos e entusiasmados com os benefícios da pesquisa empírica [25]Mas o choque de tradições e abordagens levou a um aumento da consciência dos “preconceitos da tradição”. Como disse Adorno, ele aprendeu a “não levar as coisas por certo”, desde conceitos gerais até métodos de investigação [26]Essa também parece ter sido a experiência de Horkheimer e Neumann.

Problemas financeiros, particularmente no início da década de 1940, também causaram dificuldades [27]. Uma série de investimentos não teve êxito. O patrocínio da Fundação foi extremamente difícil de obter. Como resultado, um estudo projetado sobre aspectos da cultura alemã foi abandonado e os Studies in Philosophy and Social Science foram descontinuados (1941). Provavelmente é justo dizer que muitos dos projetos que o Instituto poderia ter desejado realizar se tornaram impraticáveis e até mesmo imprudentes neste momento. Martin Jay apontou que houve uma consciente atenuação do radicalismo nas publicações do Instituto devido ao medo de assédio político e deportação [28]Mas o tipo de pesquisa que poderia ser realizado também foi limitado pelos conceitos de “problemas”, “questões” e “pesquisa” detidos por potenciais patrocinadores. Os Studies of Prejudice do Instituto (dos quais The Authoritarian Personality é apenas um volume) foram financiados pelo Comitê Judaico Americano.

A emigração, a mudança de audiência e as circunstâncias financeiras não foram os únicos fatores que afetaram as atividades do Instituto. Já esbocei os grandes acontecimentos que ajudaram a moldar a experiência histórica e política dos seus membros. A importância destes no desenvolvimento da escola de Frankfurt não pode ser subestimada. Horkheimer, por exemplo, freqüentemente reconheceu a inadequação das ferramentas conceituais que ele empregou na década de 1930 para a análise de grandes eventos na década de 1940. O otimismo que sentira durante os anos anteriores à guerra desapareceu. Os teóricos críticos dificilmente poderiam pensar em se tornar uma influência estimulante nas massas. Marcuse expressou esta opinião com força e observou algumas de suas implicações.

Se o proletariado não atua mais como classe revolucionária […] já não fornece as “armas materiais” para a filosofia. A situação, assim, se reverte: repelida pela realidade, Razão e Liberdade voltam a ser a preocupação da filosofia. A ‘essência do homem’, sua ‘libertação total’ é novamente experimentada [somente] no pensamento [em Gedanken erlebt]. A Teoria […] de novo, não só antecipa a prática política, corre à frente dela, mas também defende os objetivos de libertação diante de uma prática falha. Nessa função, a teoria torna-se novamente ideologia – não como falsa consciência, mas como distância consciente e dissociação da própria realidade repressiva, até mesmo oposição a ela. E, da mesma forma, torna-se um fator político de extrema importância.[29]

Os temas cobertos pela Escola de Frankfurt durante esse tempo são extensivos. Incluem discussões sobre as teorias do capitalismo, da estrutura do Estado e da ascensão da razão instrumental; análise da evolução da ciência, tecnologia e técnica, da indústria cultural e da cultura de massa, da estrutura familiar e do desenvolvimento individual e da susceptibilidade das pessoas à ideologia; bem como considerações da dialética do esclarecimento e do positivismo como modo dominante de cognição. Sempre foi a esperança de Horkheimer e dos outros que seu trabalho ajudaria a estabelecer uma consciência social crítica capaz de penetrar a ideologia existente, sustentar o julgamento independente e ser capaz, como disse Adorno, “de manter sua liberdade de pensar que as coisas podem ser diferentes”.

Os anos do pós-guerra

Horkheimer, Adorno e Pollock se reinstalaram na Alemanha Ocidental no início dos anos 50. Marcuse, Löwenthal, Kirchheimer e outros permaneceram nos Estados Unidos. Em 1953 o Instituto foi restabelecido em Frankfurt, Horkheimer tinha sido nomeado reitor da Universidade e Adorno tinha recebido uma cátedra. Em 1955, Adorno tornou-se co-diretor do Instituto. A Zeitschrift não foi restabelecida, mas o Instituto logo começou a publicar uma série de Frankfurter Beiträge zur Soziologie [Contribuições de Frankfurt para a Sociologia]. Horkheimer e Pollock se aposentaram em 1958. Em 1969 Adorno morreu. A morte de Pollock seguiu-se um ano depois e a de Horkheimer em 1973. Embora o Instituto para Pesquisa Social tenha sobrevivido a suas mortes, a própria escola de Frankfurt, tão dependente da energia e das ideias desses indivíduos, não o fez.

Horkheimer e Adorno dominaram o Instituto nos anos do pós-guerra. Igualmente críticos (em sua maior parte) das tendências de desenvolvimento nas sociedades capitalistas e socialistas, eles mantiveram posições intelectuais e políticas firmemente independentes. Continuaram a enfatizar uma abordagem teórica interdisciplinar e o uso de uma variedade de técnicas metodológicas em seu ensino e trabalho escrito. As técnicas de pesquisa desenvolvidas na América foram promulgadas e empregadas em vários estudos, embora nem Horkheimer nem Adorno jamais tivessem defendido seu uso isoladamente das perspectivas teóricas e críticas.

Na atmosfera da reconstrução do pós-guerra e da guerra fria, muitos intelectuais-chave do passado da Alemanha foram alvos de ataques na imprensa e na academia; linhas diretas foram traçadas, por exemplo, de Hegel, Schopenhauer e Nietzsche até a ideologia fascista, e de Marx até o stalinismo. Horkheimer e Adorno resistiram a essa moda e ajudaram a restaurar a discussão séria desses e de outros pensadores. Sua posição, no entanto, não foi sem tensões. Ao defender a importância de Marx e do pensamento crítico, ao criticar de forma cada vez mais virulenta os marxistas soviéticos e outros que procuravam atualizar os ideais de Marx, arriscaram não agradar nem autoridades conservadoras nem pensadores radicais, incluindo muitos de seus próprios alunos. Suas posições independentes sobre questões políticas levaram, de fato, a desafios de todos esses partidos. É irônico que tenham sido atacados nos anos 60 pelo seu pessimismo político e falta de envolvimento prático, mas, após suas mortes, por seu suposto estímulo ao “terrorismo” e à irresponsabilidade política.

A popularidade de Marcuse com a Nova Esquerda nos anos 1960 e início dos anos 1970, especialmente nos Estados Unidos, contrastava com o destino de seus ex-colegas. Embora muitas de suas ideias fossem semelhantes às que eles elaboraram, seu inequívoco compromisso com a política e a luta social significou que ele se tornaria um dos mais proeminentes (se não o mais proeminente) porta-vozes e teóricos da esquerda. Foi através dos trabalhos de Marcuse que as críticas da Escola de Frankfurt à cultura contemporânea, ao autoritarismo e ao burocratismo tornaram-se bem conhecidas. A preocupação da Escola em ampliar os termos de referência do político, chamando a atenção para questões como a divisão do trabalho, os problemas ecológicos e o sexismo (assim como a questão tradicional da propriedade e do controle), foi atualizada, em parte, pela influência de Marcuse. Mas diferenças consideráveis entre Marcuse, Horkheimer e Adorno permaneceram. Os capítulos II a VIII do meu livro [Introduction to Critical Theory] procuram esclarecer suas respectivas posições sobre questões políticas e outras.

Notas

* O presente texto sobre a formação do Instituto para Pesquisa Social é uma tradução do primeiro capítulo da introdução à teoria crítica escrita por David Held (HELD, David. Introduction to Critical Theory: Horkheimer to Habermas. Cambridge: Polity Press, 2a edição, 1990 [1a edição 1980]). 

[1] Para um relato detalhado da fundação do Instituto para Pesquisa Social, ver Martin Jay, The Dialectical Imagination (Boston: Little Brown 1973), cap. 1.

[2] ibid., p. 10.

[3] P. Anderson, Considerations on Western Marxism (Londres: New Left Books, 1976), p. 21.

[4] Henryk Grossmann a Paul Mattick, uma carta incluída no apêndice do Marx de Grossmann, o Klassiche Nationalökonomie und das Problem der Dynamic [Marx, o Economista Político Clássico e o Problema do Dinâmico], pp. 85-6, citado em Jay, The Imaginação dialética, p. 14.

[5] Carl Grünberg, Festrede, gehalten zur Einweihung der Institut für Sozialforschung an der Universität Frankfurt am Main, 22.6.1924 [Discurso inaugural, dado por ocasião da abertura …], Frankfurter Universitätsreden (Frankfurt 1924), p. 3-6 , 10.

[6] ibid., p. 11.

[7] Walter Benjamin, Ein deutsches Institut freier Forschung, em GS, vol. 3 (Frankfurt: Suhrkamp 1972).

[8] Benjamin morreu em 1940. Adorno ingressou no Instituto em 1938 em Nova York.

[9] Horkheimer, Die gegenwärtige Lage der Sozialphilosophie und die Aufgaben eines Instituts für Sozialforschung [A situação atual da filosofia social e as tarefas de um Instituto para Pesquisa Social], Sozialphilosophische Studien (Frankfurt: Athenäum Fischer Tachenbuch Verlag 1972).

[10] Ibid., P. 33. A filosofia social, como entende Horkheimer, “preocupa-se sobretudo com fenômenos que só podem ser entendidos em conexão com a vida social das pessoas: Estado, lei, economia, religião, em suma, com toda a cultura material e espiritual da humanidade” (ibid., p. 33).

[11] ibid., p. 40.

[12] Ibid.

[13] Cf. Horkheimer, Max. (1932). Observations on science and crisis. In: Critical Theory, trad. Matthew J. O’Connell (Nova Iorque: Herder & Herder 1972).

[14] Horkheimer, Die gegenwärtige Lage, p. 39–40.

[15] Anderson, Considerations on Western Marxism, p. 32–3.

[16] Horkheimer, Die gegenwärtige Lage, p. 41. cf. discussão de Adorno sobre a “tensão intrínseca” entre as ideias filosóficas e suas “fundamentações empíricas” The actuality of philosophy (1931), Telos, no. 31 (1977).

[17] Horkheimer, Die gegenwärtige, p. 43.

[18] ibid., p. 44.

[19] Ver, por exemplo, seu Vorwort, Zeitschrift für Sozialforschung, no. 1 (1932), pp. i-iv.

[20] Horkheimer propôs prosseguir algumas das tarefas que tinha colocado o Instituto no contexto de um estudo empírico das atitudes cotidianas de trabalhadores qualificados e assalariados. O material empírico deveria ser coletado (com o uso de questionários de levantamento) e depois interpretado à luz do material teórico relevante.

[21] H. Marcuse, Reason and Revolution (New York: Oxford University Press 1941), p. xii.

[22] Ver T. Adorno, Experiências científicas de um estudioso europeu na América, em Donald Fleming e Bernard Bailyn (eds.), The Intellectual Migration: Europe and America, 1930-1960 (Cambridge, Massachusetts, Harvard University Press, 1969) E Franz Neumann, The social sciences, em Neumann, H. Peyre e outros, The Cultural Migration: The European Scholar in America (Filadélfia: University of Pennsylvania Press, 1953), para dois relatos pessoais. Cf. Jay, The Dialectical Imagination, caps. 2 e 7.

[23] cf. Jay, The Frankfurt school in exile, Perspectives in American History, vol. 6 (Cambridge, Mass., 1972), especially pp. 358–9.

[24] Neumann, Franz. The social sciences, p. 19.

[25] O choque de tradições culturais é discutido com certa profundidade por Franz Neumann, The social sciences, e Paul Lazersfeld, An episode in the history of social research: a memoir. In: Fleming e Bailyn (eds.) The Intellectual Migration: Europe and America 1930–1960, especialmente, p. 319-37.

[26] Adorno, Scientific experiences of a European scholar, p. 369.

[27] Jay, The Dialectical Imagination, pp. 219–21.

[28] ibid., pp. 205–6.

[29] Marcuse, Soviet Marxism (Boston: Beacon Press 1964), p. 106. cf. seu Prefácio a Negations: Essays in Critical Theory (Boston: Beacon Press 1968).

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